sexta-feira, 13 de novembro de 2015

José Alberto Tostes

A percepção do visitante


             Na condição de pesquisador da Universidade Federal do Amapá, constantemente viajo para realizar atividades acadêmicas e científicas na região norte, no Brasil e até no exterior, diante deste fato, passo certo tempo na área do aeroporto, na sala de espera enquanto o voo não decola. Um dos fatores que chama atenção, é o comentário dos visitantes sobre Macapá, entre eles, estão aqueles que visitam familiares e amigos, assim como, os que estão de passagem na condição de trabalho.
             A visão forânea é sempre importante para que possamos melhor avaliar a condição de nossa cidade, não somente a parte física, mas todos aqueles requisitos que compõe a natureza do lugar. Neste sentido, as pessoas com quem tenho a oportunidade de dialogar não têm uma faixa definida, são jovens, pessoas mais maduras e a chamada terceira idade. Sempre faço a pergunta clássica: Você gostou de Macapá? Qual a sua avaliação da cidade? Em linhas gerais, quem visita a cidade pela primeira vez, se impressiona com a condição urbanística do lugar, ruas esburacadas, pavimentação de má qualidade, ausência de calçadas, pouca arborização e falta de meio fio. E quase unânime, afirmar que a cidade precisa de muita coisa, mas principalmente melhorar a paisagem do lugar.
             Curiosamente, o lugar que as pessoas mais gostam é a Fortaleza de São José e da Orla da Beira rio, muito embora, também façam o destaque que muitas outras coisas poderiam ser melhores na orla, como a iluminação, segurança e o acesso de veículos. É compreensível a opção pela Fortaleza e a Orla sejam as mais citadas, até mais que o Marco Zero do Equador, todavia, as impressões dos visitantes parecem estar em consonância com boa parte dos moradores da cidade que reclamam de maiores e melhores condições de infraestrutura urbana.
              A percepção dos visitantes deve servir de alerta para todos, não somente para os gestores que tem a obrigação de planejar e cuidar da cidade, mas de todos que moram na cidade, afinal: a cidade é de todos ou não? É preciso avaliar a cidade de Macapá, além somente daquilo que falta na sua paisagem, existe a queixa do gestor municipal que orçamento é insuficiente para atender as todas as demandas do município, entretanto, vale destacar, são os mesmos gestores que acabam inchando os quadros funcionais, na maioria das vezes mal distribuídas entre os setores.
               Portanto, nesta matéria não há “Cristus nem Santus” quando se trata de compreender a problemática municipal, pior do que este aspecto é a eterna desconfiança que as coisas não vão dar certo. Os gestores municipais em todo o Brasil, com raras exceções, passam a imagem de desesperança para população. Concretamente, nada ajuda a questão municipal, o modelo federativo é um absurdo e o sujeito para se eleger prefeito é capaz de “vender a alma” para obter algum resultado, consequências péssimas com o comprometimento das condições de gestão e planejamento.
                 A população também tem muita responsabilidade sobre o que ocorre na dinâmica da cidade, formam-se grupos de diferentes interesses apenas para pleitear benefícios corporativos, fato que, também acontece na esfera legislativa, pois o gestor para conseguir aprovar medidas necessárias tem que baixar a “guarda” para atender os interesses mais escusos possíveis. No Brasil se afirma que boa parte dos municípios são pobres, principalmente quando se verifica a renda per capita, porém, quando você acessa o Portal de Transparência do Governo Federal sobre o quadro de aplicação dos recursos encaminhados aos municípios, verifica-se que há um problema maior que a pobreza, a completa incompetência para lidar com todas as etapas pertinentes na aplicação dos recursos. É comum a cada dez reais investidos, sete estão comprometidos com algum tipo de problema.
              Então, como lidar com um conjunto de adversidades tão grande, sem vislumbrar perspectivas de soluções de curto prazo? Esta pergunta todos querem saber, é evidente que as questões do emponderamento social estão fragilizadas, um dos motivos tem sido a pouca eficácia da organização coletiva e social. A solução encontrada por aqueles com maior poder aquisitivo é criar “muralhas” para se proteger contra a violência, situação que em nada resolve as causas sociais, é como se você combatesse a febre apenas com analgésico, sem tomar o antibiótico para atenuar a origem do problema.
                Voltando a percepção de nossos visitantes, é preocupante que a imagem da cidade de Macapá seja vista sob a ótica do desleixo, que os gestores sejam acusados de irresponsáveis perante a população interna e dos visitantes. A melhoria de um lugar começa com pequenas ações: limpando a frente da casa, não colocando lixo fora do dia marcado pela coleta, não jogar lixo nos canais, ter um trânsito mais civilizado, melhorar as condições das calçadas, tais medidas não dependem do poder público, mas de ações concretas da sociedade. A percepção dos visitantes é negativa, boa parte da crítica deve ser dividida por todos os segmentos, a cidade é de todos, sim.
               Existem muitas experiências positivas no próprio Brasil e no exterior, são ações proativas, deram certo, porque a sociedade destes lugares se uniu em nome da qualidade de vida e da melhoria das condições de infraestrutura. Quanto aos gestores? Precisam estar mais atentos, são eleitos para gerenciar o espaço, antes das eleições, tudo é promessa, quando chegam lá, só reclamam. É preciso mais campanhas educativas em prol da cidade, coisa rara de se ver. A palavra chave é a informação. Em 2011, a Fundação Getulio Vargas publicou um livro interessante, chama-se: Gestão municipal eficiente, ta na hora de muita gente ler esta obra.



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