A percepção do visitante
Na condição de pesquisador da Universidade
Federal do Amapá, constantemente viajo para realizar atividades acadêmicas e
científicas na região norte, no Brasil e até no exterior, diante deste fato,
passo certo tempo na área do aeroporto, na sala de espera enquanto o voo não
decola. Um dos fatores que chama atenção, é o comentário dos visitantes sobre
Macapá, entre eles, estão aqueles que visitam familiares e amigos, assim como,
os que estão de passagem na condição de trabalho.
A visão forânea é sempre
importante para que possamos melhor avaliar a condição de nossa cidade, não
somente a parte física, mas todos aqueles requisitos que compõe a natureza do
lugar. Neste sentido, as pessoas com quem tenho a oportunidade de dialogar não
têm uma faixa definida, são jovens, pessoas mais maduras e a chamada terceira
idade. Sempre faço a pergunta clássica: Você gostou de Macapá? Qual a sua
avaliação da cidade? Em linhas gerais, quem visita a cidade pela primeira vez,
se impressiona com a condição urbanística do lugar, ruas esburacadas,
pavimentação de má qualidade, ausência de calçadas, pouca arborização e falta
de meio fio. E quase unânime, afirmar que a cidade precisa de muita coisa, mas
principalmente melhorar a paisagem do lugar.
Curiosamente, o lugar que as
pessoas mais gostam é a Fortaleza de São José e da Orla da Beira rio, muito
embora, também façam o destaque que muitas outras coisas poderiam ser melhores
na orla, como a iluminação, segurança e o acesso de veículos. É compreensível a
opção pela Fortaleza e a Orla sejam as mais citadas, até mais que o Marco Zero
do Equador, todavia, as impressões dos visitantes parecem estar em consonância
com boa parte dos moradores da cidade que reclamam de maiores e melhores condições
de infraestrutura urbana.
A percepção dos visitantes deve
servir de alerta para todos, não somente para os gestores que tem a obrigação
de planejar e cuidar da cidade, mas de todos que moram na cidade, afinal: a
cidade é de todos ou não? É preciso avaliar a cidade de Macapá, além somente
daquilo que falta na sua paisagem, existe a queixa do gestor municipal que
orçamento é insuficiente para atender as todas as demandas do município,
entretanto, vale destacar, são os mesmos gestores que acabam inchando os
quadros funcionais, na maioria das vezes mal distribuídas entre os setores.
Portanto, nesta matéria não há “Cristus
nem Santus” quando se trata de compreender a problemática municipal, pior do
que este aspecto é a eterna desconfiança que as coisas não vão dar certo. Os
gestores municipais em todo o Brasil, com raras exceções, passam a imagem de
desesperança para população. Concretamente, nada ajuda a questão municipal, o
modelo federativo é um absurdo e o sujeito para se eleger prefeito é capaz de
“vender a alma” para obter algum resultado, consequências péssimas com o
comprometimento das condições de gestão e planejamento.
A população também tem muita
responsabilidade sobre o que ocorre na dinâmica da cidade, formam-se grupos de
diferentes interesses apenas para pleitear benefícios corporativos, fato que,
também acontece na esfera legislativa, pois o gestor para conseguir aprovar medidas
necessárias tem que baixar a “guarda” para atender os interesses mais escusos
possíveis. No Brasil se afirma que boa parte dos municípios são pobres,
principalmente quando se verifica a renda per
capita, porém, quando você acessa o Portal de Transparência do Governo
Federal sobre o quadro de aplicação dos recursos encaminhados aos municípios,
verifica-se que há um problema maior que a pobreza, a completa incompetência
para lidar com todas as etapas pertinentes na aplicação dos recursos. É comum a
cada dez reais investidos, sete estão comprometidos com algum tipo de problema.
Então, como lidar com um conjunto
de adversidades tão grande, sem vislumbrar perspectivas de soluções de curto
prazo? Esta pergunta todos querem saber, é evidente que as questões do
emponderamento social estão fragilizadas, um dos motivos tem sido a pouca
eficácia da organização coletiva e social. A solução encontrada por aqueles com
maior poder aquisitivo é criar “muralhas” para se proteger contra a violência,
situação que em nada resolve as causas sociais, é como se você combatesse a
febre apenas com analgésico, sem tomar o antibiótico para atenuar a origem do
problema.
Voltando a percepção de nossos
visitantes, é preocupante que a imagem da cidade de Macapá seja vista sob a
ótica do desleixo, que os gestores sejam acusados de irresponsáveis perante a
população interna e dos visitantes. A melhoria de um lugar começa com pequenas
ações: limpando a frente da casa, não colocando lixo fora do dia marcado pela
coleta, não jogar lixo nos canais, ter um trânsito mais civilizado, melhorar as
condições das calçadas, tais medidas não dependem do poder público, mas de
ações concretas da sociedade. A percepção dos visitantes é negativa, boa parte da
crítica deve ser dividida por todos os segmentos, a cidade é de todos, sim.
Existem muitas experiências
positivas no próprio Brasil e no exterior, são ações proativas, deram certo,
porque a sociedade destes lugares se uniu em nome da qualidade de vida e da
melhoria das condições de infraestrutura. Quanto aos gestores? Precisam estar
mais atentos, são eleitos para gerenciar o espaço, antes das eleições, tudo é
promessa, quando chegam lá, só reclamam. É preciso mais campanhas educativas em
prol da cidade, coisa rara de se ver. A palavra chave é a informação. Em 2011,
a Fundação Getulio Vargas publicou um livro interessante, chama-se: Gestão
municipal eficiente, ta na hora de muita gente ler esta obra.
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