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sexta-feira, 22 de março de 2013

Entrelinhas - Balé da inclusão


Aula de balé. Sala espelhada e a professora a mostrar alongamentos e passos. As aprendizas observam cada plié, tendu e passé que a mestra demonstra. A bailarina, então, solicita que realizem um espacate, abrir as pernas em um ângulo de 180 graus. O movimento gracioso e impressionante é, contudo, difícil de realizar. A execução do espacate demanda muita flexibilidade e está ligada a fatores como idade, gênero e condição de alongamento de músculos, tendões e ligamentos, além de treino. As futuras bailarinas esforçam-se e com maior ou menor desenvoltura fazem o espacate. Uma criança se destaca, sua flexibilidade é absolutamente impressionante e a abertura chega fácil ao nível demandado, suas pernas ficam paralelas ao solo. A professora a elogia. Receber elogios é uma maravilhosa novidade para ela, que vibra e abre um sorriso de pura felicidade.

A aprendiza a receber elogios apresenta trissomia no cromossomo 21, ou seja, é uma criança com síndrome de Down. Sim, a criança sindrômica se destacou em meio à turma. Em razão da síndrome, os elogios são raros, pois o mundo parece não ter sido feito para ela. Todas as exigências que lhe são feitas demandam um esforço que as outras crianças parecem não precisar fazer. No caso do alongamento, ocorre exatamente o oposto. Pessoas com síndrome de Down costumam apresentar frouxidão ligamentar e reduzido tônus muscular, o que permite enorme amplitude articular, assim o espacate torna-se fácil. A regra, entretanto, é exigirem coisas que lhe são extremamente difíceis e custosas.

Como viver em um mundo onde quase tudo que é solicitado envolve um esforço mais intenso que o da maioria das pessoas? Num mundo meritocrático, a resposta aparece fácil: “Se não tem condições, deixa para trás”. Há uma imagem interessante para mostrar o quanto a meritocracia martiriza. A imagem mostra alguns animais, entre eles um macaco e um elefante. Há um avaliador que diz o seguinte: “Os que subirem na árvore serão aprovados”. Óbvio que a capacidade e habilidade de subir em uma árvore são extremamente distintas entre o macaco e o elefante, sendo muito mais favorável àquele que a este. Se, ao contrário, fosse exigido, força física, as situações se inverteriam.

Diferenças de habilidades são comuns. Não somos iguais, mesmo entre gêmeos, a igualdade não é perfeita. Mas enquanto sociedade, lidamos como se fôssemos. Definimos as regras em razão da maioria e deixamos para trás os que não se enquadram. Isso acontece nas escolas. Crianças com maior dificuldade, entre elas aquelas com alguma deficiência, como as com síndrome de Down, são simplesmente negligenciadas. Vistas como menos habilidosas, escola, direção, professores e muitas vezes os próprios pais, entendem que elas não vão aprender. Em razão da lei da inclusão, deixam a criança na sala de aula, mas exprimem clara descrença em qualquer possibilidade de aprendizado. Eis um exemplo: “Ela está na escola para socializar. Você precisa ver o quanto ela fica feliz com os coleguinhas”. Ou seja, a escola passa a ser vista como um ambiente apenas de socialização e não mais de aprendizagem. Infelizmente, mesmo isto não ocorre. Socialização é base para o aprendizado, mas a criança fica na escola sem estabelecer contatos efetivos. É um objeto e não um sujeito. Assim, a criança com síndrome de Down vive solitária em meio à multidão da escola. A escola perde seu principal papel.

A inclusão abrange todos os campos da vida e visa permitir a todos a possibilidade de acessar as ferramentas socioculturais da sociedade em que vive. As escolas em razão de seu papel social devem ser protagonistas em fazer a inclusão acontecer. Mas não adianta jogar isto como cobrança nos ombros dos professores. É preciso que se construa toda uma série de modificações para favorecer a inclusão e a aprendizagem de todos, com ou sem síndrome de Down. Menos alunos por turma, professora de suporte, participação dos pais, equipe multiprofissional, entre outras coisas. Efetivar a inclusão é uma tarefa difícil que teremos que aprender e construir enquanto sociedade. Parte dessa ação foi vincular o 21 de março (21/3) com a trissomia do cromossomo 21 e defini-lo como o dia da síndrome de Down. Uma data mnemônica, para lembrar das pessoas com síndrome de Down e das lutas necessárias para que a inclusão ocorra de fato. 

Discutir a inclusão será um dos objetivos do 2º Congresso Amapaense sobre síndrome de Down que ocorrerá de 3 a 5 de maio na UNIFAP. O evento conta com uma equipe fantástica coordenada por Marinalva Silva Oliveira. Construamos a inclusão! Participemos!

PS: Informações sobre o evento em congresso.ap.sindromededown@gmail.com ou http://congressoamapaensesindromededown.blogspot.com.

sábado, 16 de março de 2013

Entrelinhas - Sim, déjà vu!


Universidades federais eram, e ainda são, referência de qualidade no ensino superior brasileiro. A pós-graduação destas instituições, com suporte de CNPq e CAPES e sem fundações de apoio, tornou-se reconhecida mundialmente. Os profissionais formados pelas instituições federais eram, e continuam sendo, assumidos como os melhores. Entretanto, apesar dessa excelência, as universidades federais vêm sendo sistematicamente destruídas em sua infraestrutura, reconhecimento e qualidade como ocorreu com as escolas estaduais. Isso nos permite falar em "déjà vu"?

O decair da universidade federal segue os mesmos três movimentos empregados no declínio da escola estadual que foram o aumento do número de alunos atendidos sem a respectiva ampliação de investimentos e profissionais; o suporte do estado para fortalecer a educação privada e a desvalorização e desmotivação dos profissionais via salário e carreira (Ver "Déjà vu?": http://tribunaamapaense.blogspot.com.br/2013/03/entrelinhas-deja-vu.html).

No caso das universidades, sob o slogan "educação para todos", o governo apresentou o REUNI, plano de reestruturação e expansão das universidades federais. O orçamento destas há muito era insuficiente e, maliciosamente, o governo apresentou o REUNI como promessa de construção e reforma de prédios e aumento de 20% nos recursos. Na ânsia pelos recursos, os reitores atropelaram suas universidades e aprovaram seus projetos, muitas vezes sem discussão, como ocorreu na UNIFAP. Subitamente as universidades passaram a ter alguns prédios em construção e o dobro de alunos. Nesta condição e com apenas 20% a mais no orçamento, as dificuldades se avolumaram. Sucateamento da infraestrutura, insuficiência de recursos, salas superlotadas, professores sobrecarregados e queda na qualidade do serviço prestado se tornaram, mais que nunca, a realidade! O desmonte da universidade federal se estabelece!

O suporte do Estado às instituições privadas, segundo movimento, veio na forma de políticas apresentadas sob um discurso progressista. Estas, embora tragam ganhos pontuais para as poucas pessoas atendidas, de fato, não trazem benefícios à população. Alegando não conseguir arrecadar os impostos das universidades particulares, o governo propôs o PROUNI, isenção fiscal para instituições particulares em troca de vagas para alunos. Em 2013 esta isenção deverá alcançar R$ 1 bilhão, valor que permitiria manter muito mais alunos na universidade federal do que os atendidos pelas particulares. Não bastasse abrir mão dos impostos destas instituições e beneficiá-las com a ocupação de suas vagas ociosas, era preciso injetar recursos no caixa das mesmas. Então, amplia-se o FIES, financiamento estudantil em que o aluno assume uma dívida com o governo federal e repassa os recursos às instituições particulares. O fortalecimento da educação privada se consolida!

O terceiro movimento, expulsar os bons profissionais e empurrá-los para a esfera privada se estabelece com baixos salários e desmotivação. Os salários do magistério superior federal vêm despencando vertiginosamente quando comparados com os de qualquer carreira da esfera federal. A remuneração só é relativamente interessante no final da carreira e se o professor tiver doutorado e for contratado em regime de Dedicação Exclusiva (DE), o que o impede de ter outra fonte de renda. A nova carreira, aprovada no apagar das luzes de 2012, dificulta a vida dos docentes e desestimula o ingresso de bons profissionais. Felizmente, muitas das pretensões draconianas do governo com relação ao magistério superior foram impedidas com a greve de 2012. Apesar de os docentes terem arrancado uma recomposição salarial que não viria sem a greve, a carreira é cada vez menos interessante e o número de professores que se propõe a complementar renda trabalhando em universidades particulares ou mesmo buscar novos empregos fora da docência se amplia a cada dia. A desvalorização profissional se avoluma!

Universidades federais estão sendo desmontadas com as mesmas estratégias que vitimaram as escolas estaduais. O prognóstico é evidente, se não formos capazes, enquanto sociedade organizada, de impedir esta destruição, teremos no futuro uma universidade que será frágil e apenas para os carentes, enquanto os que têm recursos migrarão para as particulares, pois estas serão vistas como a referência de qualidade. Após estas considerações, a pergunta do início do texto merece ser respondida. A sensação de já termos visto ou vivido, a situação atual das universidades federais no passado das escolas estaduais só nos permite uma resposta: Sim, "déjà vu"! 

segunda-feira, 11 de março de 2013

Entrelinhas - Déjà vu?


Roda de amigos. Conversa correndo solta, risos em profusão e diversão que avança pela noite. Fala-se sobre tudo e nada. Importam a companhia, a alegria, o celebrar a vida. Em certo momento um dos amigos fala algo e leva o copo à boca enquanto faz um gesto peculiar. Você responde ao comentário e tem a sensação de já ter dito aquilo e naquela circunstância. Mais curioso ainda, você sabe, simplesmente sabe, quem será o próximo a falar e o que ele dirá. Eis que tudo se sucede como o previsto. A cabeça dispara e você se pergunta: Eu já vivi isso? A sensação de já ter visto ou vivenciado algo antes de acontecer é denominado "déjà vu", expressão francesa que significa literalmente "já visto". 

Escolas públicas em décadas passadas foram referência de formação dos estudantes brasileiros. Professores bem pagos, volume de investimento condizente e infraestrutura adequada eram a regra. Enquanto a educação pública atendia um grupo reduzido de privilegiados e não havia massa crítica no país, ela foi de alta qualidade. Porém, sendo a educação um mercado com potencial de movimentar recursos enormes, houve pressão para ampliar a base de pessoas atendidas e entregar à iniciativa privada parcela significativa desta população. Educação para todos é um princípio para aqueles que defendem uma sociedade mais justa e igualitária, mas sob os auspícios dos interesses do capital, o que se sucedeu foi a transformação da escola pública em um local que, apesar dos esforços de seus profissionais, passou a oferecer um simulacro de educação de qualidade.

Como isso ocorreu? Sob o discurso de educação para todos, o Estado decidiu passar os custos da formação básica para o cidadão e para isso realizou três grandes movimentos. Primeiro, sob o discurso de ampliação do acesso, aumentou o número de alunos nas escolas, sem o respectivo aumento do investimento e do número de profissionais. Segundo, mecanismos de suporte estatal, inclusive mudança da legislação, foram organizados para facilitar a criação e o fortalecimento de escolas particulares. Por fim, a remuneração dos profissionais foi achatada de forma vertiginosa. 

Quais as consequências destes movimentos realizados pelo Estado? Com o primeiro, houve um sucateamento das instituições que, de uma hora para outra, ficaram lotadas e sem recursos para atender a nova e ampliada demanda. Com menos recursos houve o sucateamento da infraestrutura e de toda a capacidade de suporte da escola aos alunos. As salas ficaram superlotadas, os professores sobrecarregados, pois assumiram mais turmas, e a atenção dispensada por aluno não pôde ser mantida no mesmo nível. Impossível realizar um trabalho realmente significativo para todos os alunos quando o número destes está além da capacidade de qualquer ser humano. Nestas condições, aqueles com recursos, começaram a pensar em alternativas ao sistema educacional público. 

O segundo movimento foi realizado para completar o primeiro e ofertar essa alternativa. Uma vez que a escola pública não mais funcionava como antes, era preciso oferecer àqueles com recursos uma alternativa minimamente compatível com o que se tinha anteriormente. A solução implantada pelo Estado foi organizar toda uma estrutura de suporte às escolas particulares enquanto se implodia a escola pública. Criaram-se, então, dois tipos de escolas, as privadas, onde deveriam estudar os filhos dos que pudessem pagar, e uma nova escola pública, sucateada, com mais alunos, menos recursos e sobrecarga de trabalho para os profissionais da educação, esta para aqueles menos afortunados economicamente. 

Apesar de tudo isso, os melhores profissionais da educação ainda estavam na escola pública e assim eram reconhecidos pela população. Então, formata-se o terceiro movimento, mandar para as escolas privadas os bons professores que se mantinham na escola pública. O processo assumido foi o de achatar salários e desmontar as condições de trabalho para tornar a carreira da docência pouco atraente. Sob estas condições, muitos professores abandonaram a docência e buscaram outros trabalhos, complementaram o salário da esfera pública com aulas ministradas nas instituições particulares, ou migraram de vez para esta última. 

Ah, é claro, você quer saber sobre o "déjà vu". Bem, o "déjà vu" está muito presente entre aqueles que estudam a educação brasileira. Para estes é impossível não ver na atual história da universidade federal o que as escolas estaduais vivenciaram país afora décadas atrás. No próximo texto, a gente verifica este "déjà vu" que conecta as universidades federais de hoje com as escolas estaduais do passado. Então, até lá!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Entrelinhas - Greves e matrícula


A administração da Universidade do Estado do Amapá comunicou que os candidatos aprovados no vestibular da instituição oriundos da escola pública estadual que não apresentassem o certificado de conclusão do ensino médio regular estariam impedidos de se matricular. Esta seria uma ação corriqueira, pois é comum indivíduos aprovados no processo seletivo de instituições de ensino superior deixarem de efetivar a matrícula por não apresentar a integralidade da documentação solicitada. Entretanto, neste caso, a ação não é usual, visto que envolve políticas de governo e lutas de classe. 

Há alguns pontos a destacar sobre o tema. Primeiro, não cabe imputar aos alunos que lograram êxito no processo seletivo da UEAP culpa ou prejuízo algum. A situação é fruto do atraso do calendário e não das ações estudantis.  Segundo, a instituição que se propõe a impedir a matrícula dos alunos da escola pública estadual está sob os auspícios de um governo que assumiu uma negociação dura com seus docentes da educação básica e optou por confrontá-los com uma posição que feria a legislação. Decidiu não pagar a remuneração prevista em lei e  conduziu os docentes a radicalizar a greve, fazendo com que os alunos da escola estadual, inclusive aqueles que fariam vestibular no final do ano, ficassem sem aula por um período prolongado. Terceiro, por curioso que possa ser, a UEAP que, por determinação de sua administração, anuncia não acatar a matrícula de alunos que ainda não têm o nível médio concluído em virtude de uma paralisação, vivencia neste momento uma greve, pois o mesmo governo que foi intransigente com os professores do ensino básico, não acata as solicitações que os docentes da universidade vêm apresentando há algum tempo e que envolvem plano de carreira, remuneração e condições de trabalho.

Felizmente o Ministério Público do Amapá por meio da Promotoria da Justiça da Cidadania de Macapá, entendeu ser inadequada a posição assumida pela UEAP e emitiu recomendação ao reitor para efetivar a matrícula de todos os candidatos não concluintes do ensino médio aprovados no Processo Seletivo da instituição. A matrícula, segundo o documento, fica condicionada à apresentação futura do certificado de conclusão dos alunos pelos alunos da rede estadual. Além disso, estipula prazos e informa que o não atendimento implicará em medidas legais e responsabilização da autoridade competente.

É interessante notar que enquanto o governo, através de sua universidade estadual, negava matrícula aos alunos das escolas estaduais, sugeria contrariamente, por meio de representante da Secretaria de Estado da Educação que a universidade federal "se sensibilize com os alunos que não tiveram como entregar as suas respectivas declarações". Espera-se que a administração da Universidade Federal do Amapá tenha o bom senso de compreender as especificidades dos estudantes da escola pública amapaense. Não fazê-lo seria uma contradição, até porque também a Unifap está com o calendário atrasado por conta das intransigências do governo federal que fizeram estender a greve dos docentes em 2012. 

Dois elementos importantes emergem da análise desta situação. Primeiro, parece haver uma falta de consenso quanto ao posicionamento do governo. Defende seus estudantes perante outras instituições, mas renega-os internamente. Isso soa como um transtorno dissociativo de identidade! Apesar de parecê-lo, não é! Ao fazer o anúncio de impedimento da matrícula, o subterfúgio da posição assumida pelos representantes do governo é a de imputar à greve e, consequentemente, aos docentes a culpa dos alunos não entrarem na universidade. Este movimento visa fragilizar os docentes em reivindicações futuras ao colocar contra eles a população. A estratégia não funcionará, a população reconhece nos docentes seu esforço e o governo terá que investir mais em educação e nos professores se não quiser sofrer novo desgaste. 

O segundo elemento, óbvio e a ser apropriadamente discutido em momento futuro, é o fato de que a educação pública brasileira em todos os níveis e esferas tem enfrentado greves constantes. Sinal evidente de que a educação e os educadores não estão sendo tratados com o devido respeito e valorização. A correção da atual política educacional envolve mais investimentos, definição de planos de carreira e cargos e uma remuneração digna. Não por acaso, estes são exatamente os pontos de reivindicação dos docentes da UEAP! Os docentes da universidade estadual organizaram seu sindicato, o SINDUEAP, e lutam por seus direitos e por uma educação pública de qualidade para a população amapaense. Parabéns aos alunos que ingressaram na universidade pública! Vivas aos professores da UEAP!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Entrelinhas - A César o que é de César!

"UNIFAP promove maior concurso para professor da sua história" informa a página eletrônica da Universidade Federal do Amapá. Então, vivas à greve, aos sindicatos, ao movimento estudantil, à luta de docentes, técnicos e alunos que defendem a universidade pública, gratuita e de qualidade! Exaltar a greve? Insensatez!, pensarão alguns. Insanidade!, dirão muitos. Loucura!, bradará o vozerio rouco das ruas e dos corredores da universidade! Será mesmo que tal afirmação é um disparate? E se for, trataremos em desacreditá-la ou faremos como Erasmo de Roterdã e nos arvoraremos em exaltar um "Elogio da Loucura"?

Instituições federais por todo o Brasil realizarão concurso para ingresso de professores no início de 2013. A UNIFAP receberá, em fevereiro, 613 candidatos para disputar as 85 vagas disponíveis em várias áreas de conhecimento. Este é o maior concurso para docentes já realizado, conforme o Reitor. E estão previstas outras vagas ainda em 2013 e 2014, sendo 31 para Medicina agora em março. O volume de contratações destes concursos praticamente permitiria sanar a carência de professores dos cursos atualmente existentes na UNIFAP.  Permitiria... O tempo verbal é o futuro do pretérito e não o futuro do presente! Embora uma considerável redução do déficit seja alcançada, a atual distribuição de vagas não será suficiente para resolver as carências existentes, pois a administração optou por utilizar parte das vagas para abrir novos cursos. Isso significa que alunos e professores continuarão reclamando a insuficiência de docentes para o funcionamento dos cursos da UNIFAP, principalmente daqueles recém-criados. 

Mas por que enaltecer à greve ou àqueles nela envolvidos direta ou indiretamente? Qual relação existe entre a greve, os concursos, a redução do déficit de professores e a criação de novos cursos? Projeto de lei sobre a abertura de novas vagas docentes para as instituições federais, originário da reivindicação de docentes, técnicos e alunos, dormitava entre gavetas e gabinetes há anos. A despeito dos gritos e clamores oriundos de várias fontes, inclusive da ANDIFES, associação dos reitores das universidades federais, o projeto era mantido inerte, pois a atual política do governo para as universidades federais visa ampliar o número de alunos sem aumentar o quantitativo de docentes ou o volume de recursos empregados. A greve docente de 2012 trouxe como reivindicações centrais a estruturação da carreira e a melhoria das precárias condições de trabalho, entre elas a elevada carga de atividades dos docentes que se intensificou a partir do REUNI, plano de reestruturação das universidades federais. Duas semanas após o início da paralisação, uma das primeiras ações do MEC para encerrar a greve foi se comprometer com o ANDES-SN, o sindicato dos professores das instituições de ensino superior, em desengavetar o projeto, aprová-lo em caráter emergencial e contratar cerca de 20.000 docentes, além de criar cargos comissionados e funções gratificadas para as instituições. Em suma, é em razão da greve que temos concursos para professores e criação de novos cursos nas universidades. 

Localmente, nas discussões com a reitoria, os docentes, através do SINDUFAP (Sindicato dos Docentes da UNIFAP), e o movimento estudantil, antes mesmo da aprovação do projeto, reivindicavam uma distribuição das vagas entre os cursos existentes, baseada em um levantamento efetivo das carências. A administração se comprometeu com a reivindicação e o resultado se expressa em um concurso onde o rateio das vagas é mais equânime que em ocasiões anteriores. Entretanto, o compromisso de não abrir novos cursos até que as carências de docentes fossem sanadas foi esquecido. Apesar disto, outras conquistas nacionais e locais foram obtidas com a greve e serão abordadas em momento oportuno. O importante agora é lembrar que estas vitórias fortalecem as lutas e a greve, última alternativa dos trabalhadores, na defesa da universidade pública.

Em momentos como este, onde se vislumbra claramente que as lutas por uma sociedade mais justa e pelo bem coletivo são estratégias palpáveis e viáveis, temos a impressão de alcançar nossa Narragonien, a terra prometida dos insanos. Aqueles que padecem da demência de lutar pelo social, muitas vezes com ideias e posições que contrariam o senso comum e a ideologia do capital, não podem deixar ocorrer atos de adoxografia, ou seja, permitir que se elogiem de forma imerecida pessoas ou coisas. É preciso reivindicar as conquistas que se lhe pertencem, pois como afirma um adágio popular: "A César o que é de César!". Tendo em mente estes malucos sonhadores, não vejo forma melhor de concluir este texto do que com a célebre frase da Loucura que encerra o livro de Roterdã: "E, por isso, sedes sãos, aplaudi, vivei, bebei, oh celebérrimos iniciados nos mistérios da Loucura".

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Entrelinhas - Carnaval e diversidade de corpos suados

Corpos suados em movimentos rítmicos sob a cadência do samba que estronda e ecoa. Fantasias, adereços, carros alegóricos e a malevolência dos passistas deleitam os sentidos. A bateria dita o ritmo e os músculos retesados dos instrumentistas irrompem como magia sonora. A frente deles desfilam rainhas, convidadas pela diretoria, normalmente entre pessoas famosas, e madrinhas da bateria, escolhidas entre as mulheres da comunidade pelos próprios ritmistas. A festa do corpo traz ainda outros homens e mulheres em perfeição estética que desfilam inalcançáveis à grande maioria que os admira pelo vítreo brilho da telinha. 

Síntese dos objetos de desejos, os corpos esculturais que povoam os sonhos de homens e mulheres parecem ser a antítese daqueles que denominamos pessoas com deficiência. Estas tentamos não perceber, seja na televisão ou nos espaços que ocupamos no dia-a-dia.  Alegamos não saber como nos relacionar com elas, pois são poucas. O censo do IBGE de 2000 nos contradiz e afirma que a cada oito pessoas há uma com algum tipo de deficiência. Como não as percebemos se são tantas? É que evitamos qualquer contato, até um mero olhar. E o fazemos sob a alegação de não incomodar. Mas se ninguém as vê, são invisíveis!

Os seres humanos somos gregários, buscamos o contato social, interagimos com os iguais e por meio deles alcançamos nossas satisfações e prazeres. A invisibilidade é devastadora, pois nega a humanidade inerente a cada um de nós. Muitas pessoas com deficiência tentam este convívio, mas são rejeitadas, discriminadas e desaparecem. Fecham-se no seio familiar ou em pequenos círculos onde são aceitas. Alguns pais impedem que os filhos com deficiência se exponham às atrocidades do mundo, seja para protegê-los, seja para poupar a si mesmos do sofrimento de ver seu ente desprezado. Ao proceder assim, as pessoas com deficiência ficam ainda menos perceptíveis e auxiliam a manter a estrutura que as exclui.

Barreiras físicas, arquitetônicas e atitudinais são importantes na produção desta reclusão. Não percebemos, mas o mundo está todo organizado para aqueles que não possuem deficiências e nos irritamos porque a presença das pessoas com deficiência gera demoras e incômodos. De nossa zona de conforto, criamos estereótipos e preconceitos, e imaginamos ser melhor que fiquem em casa, pois não seriam estorvo para si nem para os outros. Em nossa intolerância, não queremos as pessoas com deficiência nos espaços que ocupamos. Não as queremos em escolas, praças, ônibus, shoppings ou no carnaval! Dizemos que é ruim para elas, mas o que realmente desejamos é que não nos atrapalhem. Este tipo de pensamento é o maior problema. Nossas atitudes são as principais barreiras!

Felizmente, há ideias e ações que caminham na direção oposta. A inclusão defende que todos tenham acesso aos bens sociais, seja a aprendizagem escolar, o uso de gadgets eletrônicos ou expressões culturais como o carnaval. A inclusão e a ocupação dos espaços por pessoas com deficiência são ainda embrionárias. Crianças com síndrome de Down, autismo, deficiências visuais, auditivas e de locomoção, entre outras tantas, ainda geram desconforto às estruturas educacionais. O movimento de levar as pessoas com deficiência à escola começou, mas é impreciso dizer que nossas escolas sejam inclusivas. Em razão do esboço de inclusão que ora temos é cada vez mais comum ver pessoas com deficiências não só em escolas, mas em espaços como shoppings, cinemas e casas de espetáculos. 

Estes são passos iniciais, ainda tímidos. Modificar nossa sociedade não ocorrerá naturalmente, os esforços deverão ser cotidianos e será preciso lutar por cada conquista. É necessário que as pessoas com deficiência venham às ruas e se façam ver, mas não cabe imputar a elas toda a responsabilidade. É necessário que adaptemos fisicamente os ambientes, que aprendamos a conviver com a deficiência e que adequemos nossa percepção para compreender essas pessoas no dia a dia dos espaços de convivência. É preciso fazer como a Escola de Samba Maracatu da Favela que defendeu a inclusão no carnaval amapaense e sagrou-se campeã de 2012. Como a Grande Rio que, com o samba "Eu acredito em você! E você?", falou em superação e levou a deficiência e o rodopio de cadeirantes para o carnaval carioca. Este ano a X9 Paulistana, com um ritmista em cadeira de rodas e amputado de ambos os braços "mandando ver" na percussão, defendeu "um mundo diverso, encantador"! Seremos melhores e o carnaval ficará ainda mais espetacular quando, sob o envolvente samba, o suor brotar na diversidade dos corpos. 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Entrelinhas - Sociedade do espetáculo


No centro do palco, prestes a começar seu ilusionismo, o mágico mostra as mãos. Movimenta-as cadenciadamente para mostrar que não segura qualquer objeto. Depois, introduz uma das mãos no bolso do paletó, retira um pano colorido e o desloca no ar de modo a atrair a atenção da plateia. Começa, então, a enrolá-lo, a espremê-lo e, subitamente, um pombo sai voando de entre suas mãos. A plateia atônita se pergunta como a ave apareceu ali. Os mais argutos e inquietos prestaram atenção em todos os movimentos para identificar o momento em que a ave foi introduzida. Mas, o mágico confundiu a todos. Fez com que olhassem para onde ele queria e não para onde as ações, que realmente importavam, aconteciam. Eis a essência da mágica, fazer com que não se atente ao que é primordial.


Atônitos estivemos todos com o ocorrido na boate em Santa Maria. Ver tantas vidas ceifadas em um único evento foi assustador. Fez-nos pensar na fragilidade da vida e em como podemos deixar este mundo rapidamente. A imprensa se apressou em fornecer informações, relatar fatos, apresentar os envolvidos. Vimos as inadequações físicas da boate, o revestimento inflamável, o alvará vencido, o show pirotécnico da banda, o excesso de lotação, a restrição de saída feita pelos seguranças. Enfim, os vários fatores que contribuíram para a tragédia. Tudo mostrado em repetições infindáveis por dias longos e intermináveis. Vimos o choro, a angústia, o desespero de familiares, amigos, colegas de classe, professores e de toda a cidade. Sim, Santa Maria sofreu coletivamente e seu pesar se estendeu por todo o país. Vislumbramos jovens auxiliando os bombeiros a abrir com marretadas a incendiada casa de shows e mães, que sofriam sua perda, consolando os amigos do filho. Exemplos de superação e força, pois sempre há aqueles que mesmo nas horas mais difíceis conseguem ser fonte de apoio e segurança para outros. 

Passado o primeiro impacto começaram os questionamentos sobre os responsáveis pelo incidente, as punições devidas e as ações que poderiam ser tomadas. Neste lastro de ações preventivas, prefeituras e governos de vários locais do Brasil estão mandando averiguar as boates. Mas o problema está só nas boates? Apenas casas de show correm risco de incêndio? Não, é claro que não! A preocupação deve recair sobre todo e qualquer ambiente em que um grande contingente de pessoas estiver agregado. Olhamos para as boates, em virtude do que ocorreu em Santa Maria, e esquecemos-nos de outros espaços que estão continuamente repletos de pessoas! Os mesmos problemas podem ocorrer em ginásios, comércios, locais de trabalho, igrejas, hospitais, teatros, cinemas, escolas... Sim, escolas! Aquelas onde deixamos nossos filhos na expectativa de que estejam protegidos! Quais destes ambientes apresentam os mesmos problemas da boate de Santa Maria? Quais têm mais de uma saída? Das construções que têm dois ou mais andares, quais possuem escada de incêndio? Ou a única saída é a escada central onde muitas vezes se afixam materiais facilmente inflamáveis como cartazes de cartolina ou de isopor? Quais têm extintores em quantidade suficiente, funcionando e com gente capacitada para utilizá-los? Quais fazem treinamento para situações de emergência, de modo que as pessoas saibam como se portar em caso de fatalidade?

Estamos tão impressionados com o pano sacudido em nossa frente que não conseguimos perceber os outros movimentos que estão ocorrendo. É necessário que vejamos o ocorrido em câmera lenta, para que possamos desvendar a ilusão e enxergar o que realmente importa. Não apenas as boates possuem riscos! Não é incêndio o único problema! Toda e qualquer congregação humana em local fechado é um risco e, por isso, todos os ambientes coletivos devem ser inspecionados. Todos! 

Por último, há algo que sempre me intriga. Não é interessante que quando uma catástrofe ocorre, surge um monte de gente que parecia saber que o desastre era iminente? Ora, se era tão evidente assim, por que não foi evitado? Por que estas pessoas não se prontificaram em alertar os responsáveis? E por que quando alguns tentam alertar dos riscos são tratados como malucos, chatos de plantão ou "pessoas contra o progresso"? Avaliar as coisas depois de acontecidas nos permite enxergar tudo com uma clareza que no desenrolar da situação é impossível ou pelo menos deveras difícil. Temos, então, que fazer estudos das possíveis causalidades, estabelecer leis que normatizem formas de tratar a situação, implantar órgãos que fiquem responsáveis por uma fiscalização rígida e estabelecer punições para aqueles que infrinjam as determinações. É o que podemos fazer porque não há como adivinhar quando uma fatalidade ocorrerá. Nem sendo mágico! 

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Entrelinhas - Jogadores invisíveis

A criançada se reúne para jogar futebol. Correria rumo ao campinho. Alvoroço completo, vozes estridentes, sorrisos estampados e a alegria do jogo prestes a acontecer. Os dois mais extrovertidos se definem capitães dos times. Começam as escolhas. Cada menino sendo chamado para um time ou outro. José, Paulo, Tiago e outros tantos são selecionados, até que permanecem apenas dois. Um será escolhido. O outro? Bem, o outro esperará que alguém saia para que possa jogar. A espera pela definição da última vaga é torturante. Em suas cabeças, a angústia de ser preterido, de não estar em time nenhum, de questionar suas próprias habilidades, de se julgar incompetente. Ao longo das escolhas, os olhos dos capitães encontravam a todos, menos a eles, era como se não estivessem ali. Deixados por último, pareciam invisíveis.

Pobres, desempregados, viciados, idosos, doentes, dissidentes, alunos com dificuldades, somos muitos os invisíveis em nossa sociedade. Tantos de nós que não somos vistos, não somos desejados, não somos escolhidos e, por isso, marginais. Termo forte, dirão alguns, como se a opção por uma palavra mais sutil mudasse algo. Não muda! O conceito deriva de estar à margem e significa não estar incluso, não fazer parte do veio, do canal que a todos leva. Os marginais somos os excluídos em qualquer uma das múltiplas atividades que desenvolvemos em nossas vidas, seja no jogo de bola, na conquista e manutenção de um emprego, na escolha ideológica, na sala de aula. Como são muitas as áreas em que atuamos, em algumas delas seremos marginais. Isto vale para todos, mesmo para o mais perfeito, o mais belo, o mais rico de nós.

Por que alguns de nós somos marginalizados, somos expulsos do canal do rio? Aos olhos dos escolhidos a resposta é fácil e vem automática: "Ele não é bom". Significa dizer que o desempenho do excluído está abaixo da média. A alternativa, portanto, é evidente, basta que o preterido seja como os outros, que se esforce, que seja mais. Simples assim! A isto se denomina responsabilização individual. Impregnados desta ideologia aportamos à pessoa excluída a obrigação de encontrar a saída para a situação em que se encontra. 

Mas como sair sozinho da dificuldade? Talvez façamos como o Barão de Münchhausen que, tendo caído em um pântano de areia movediça, conseguiu salvar a si e ao cavalo puxando os próprios cabelos. A situação do barão é inverossímil e rimos-nos dela. Mas curiosamente não enxergamos que cobramos daqueles em condição marginal que puxem os próprios cabelos para que se retirem de seus pântanos pessoais.  Para defender nossas posições recorremos a coletâneas de situações que mostram como este ou aquele indivíduo saiu de uma situação difícil por seus próprios méritos. Citamos referências como o filme "À procura da felicidade" em que Chris Gardner (Will Smith) desempregado, despejado, abandonado pela esposa e cuidando de um filho pequeno consegue um estágio numa grande empresa para em seguida se tornar milionário. 

Entretanto, para acreditar nisso, precisamos fechar os olhos para alguns elementos importantes. Primeiro, os quase sete bilhões sobre o mundo que somos marginais em vários aspectos de nossas vidas. Será que somos todos ou quase todos incapazes de mudar nossa situação? Segundo, as nuances que podem fazer algo dar errado. Pensemos no filme! O que ocorreria se o dinheiro acabasse antes do final do estágio? Se não encontrasse a última máquina que vendia? Se ficasse em segundo no estágio? Se? Se? Se? São tantas as possibilidades! Terceiro, estamos organizados em espaços de extrema desigualdade e cuja estrutura, inclusive ideológica, objetiva manter cada um exatamente onde está.

Por fim, precisamos atentar que são os processos de exclusão de nossa sociedade que geram os marginais! Nossas estratégias de seleção aumentam o fosso entre os jogadores. O escolhido joga cada vez mais e se torna cada vez melhor. O outro, ao contrário, aumenta suas dificuldades ao permanecer menos em campo. O fosso entre as habilidades dos jogadores, designado como deficiência, será ampliado a cada preterição. Na forma como a sociedade está estruturada, o número de vagas será sempre limitado, sempre teremos excluídos. Necessário pensar alternativas em que a saída não seja individual e em que possamos todos jogar. Precisamos mudar nossa sociedade, ou ficaremos todos a esperar uma nova escolha, uma nova partida, infelizes e invisíveis. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Entrelinhas - Magistralmente iluminado

Noite, 10 de janeiro, a eletricidade se esvai, Macapá às escuras.  Acende-se um céu magistralmente iluminado. Pontos reluzentes espraiados em inúmeras direções. De repente, descobrimos as estrelas. Estávamos a olhar para o alto e a embevecermos-nos com o espetáculo. Curiosamente, embora prendesse a atenção de muitos de nós, não havia nada diferente no céu, as estrelas sempre estiveram lá. Mas, se o céu era o mesmo, por que o admirávamos tão especialmente naquela noite? Porque foi possível enxergar estrelas e constelações que normalmente estariam ofuscadas pelas luzes da cidade. O deslumbre nos acometeu porque éramos capazes de perceber de forma diferente o que sempre esteve ali! O estranhamento nos fez diferentes, pelo menos por uma noite!

Enxergar diferente, fazer diferente, ser diferente! Mudar! A virada de ano esteve repleta de promessas de mudanças. Muitas já quebradas e outras tantas ainda resistindo. Mas como nos modificar? Como mudar o fluxo de vida já estabelecido? Uma proposta é provocar o estranhamento. É conseguir olhar para o que está posto e questioná-lo em sua aparente naturalidade.  E o que deve ser questionado? A resposta é simples: tudo!

O homem é produto e produtor da sociedade. Nossos comportamentos, ideias, leis e emoções, entre tantas coisas listáveis, são fruto desse processo em que homem e sociedade se constroem mutuamente. No início da revolução industrial, um médico recomendava que crianças não trabalhassem 12 horas por dia, pois chegavam esgotadas para a escola dominical. Naquela época era assumido como natural que crianças trabalhassem 12 horas por dia, pois fruto da estrutura social vigente. Atualmente, dizemos que crianças devem estar na escola e achamos normal que os adultos trabalhemos 8 horas por dia. Mas por qual razão a carga horária de trabalho não pode ser de 12 ou 4 horas? 

Outras tantas perguntas podem ser formuladas. Por que mulheres recebem menos que os homens? Por que o Banco Central precisa ser autônomo? Por que, em sua maioria, os presos são negros e pobres? Por que não respeitamos nossos idosos? Por que os trabalhadores somos explorados? Por que alguns não têm o que comer enquanto desperdiçamos 50% dos alimentos produzidos? Por quê? Por quê? Por quê?

Quando nos fizermos perguntas como estas, avançaremos no sentido de compreender que nossas ações e pensamentos estão refletindo os valores sociais da época na qual estamos inseridos e que a forma como enxergamos e interagimos com o mundo está repleta de conceitos e informações recebidas ao longo de nossas vidas. Valores impregnados em nós de tal forma, que os naturalizamos, assumimos como nossos, e esquecemos-nos de estranhá-los. 

Mas estranhar é precípuo! Somente ao questionarmos o que está posto, poderemos enxergar os grilhões das influências sociais e culturais que nos fazem assumir como normais e naturais as ações e ideologias presentes em nosso dia a dia.  Esta perspectiva causada pelo estranhamento ilumina nosso céu com infinitas estrelas e nos permite estar livres para que construamos a sociedade e a nós mesmos de um modo diferente. De preferência, que sejamos diferentes por mais de uma noite!

Por falar em mudanças, após ter escrito o "Educação? Tem, mas não tem!" (Edição 338, p. A9) fui surpreendido com um convite do Tribuna Amapaense para figurar entre seus colunistas. Um desafio, uma mudança. Aceitei o convite, mas precisava decidir sobre o que escrever na coluna. O céu de Macapá em meio à falta de energia me trouxe a definição. Lembrei-me da frase de Mário Quintana: "A noite acendeu as estrelas porque tinha medo da própria escuridão". Decidi escrever sobre minha escuridão. Sobre temas para os quais, mais do que apresentar respostas (até porque não as tenho), pretendo discutir possibilidades de desvelar as ideologias e estereótipos que conformam a forma como percebo o mundo. Quero apagar minhas luzes pessoais e enxergar meu céu estrelado, quero deslumbrar-me com a possibilidade de ver diferente o que sempre esteve ali, quero estranhar o usual, o normal, o que "sempre foi assim". Espero que venham se deslumbrar junto comigo. Fica o convite!

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...