Grude da gurijuba

O ouro do pescado

REINALDO COELHO

A pesca da gurijuba na costa do Amapá está entre os maiores problemas de arrecadação de impostos do estado. O peixe, além de possuir uma carne considerada nobre no mercado externo, agrega alto valor em função de sua bexiga natatória, o chamado "grude", em países como China, Japão, Europa e Estados Unidos.
O grude da gurijuba possui substâncias que, beneficiadas, produzem uma cola de alto teor de adesão, usada principalmente na indústria espacial e em operações cirúrgicas de alta precisão, por causa da não rejeição pelo corpo humano.
Pescadores de comunidades da costa do Amapá, como Bailique e Sucuriju, Calçoene e Oiapoque, coletam o produto e o vendem para outros pescadores atravessadores a valores muito baixos, normalmente entre R$ 20 e R$ 30. Essas pessoas os repassam a preços que chegam a R$ 80 no Pará (Vigia) e Maranhão. Na rota final de mercado do produto, países chegam a pagar até R$ 300 pelo quilo do grude da gurijuba, segundo especialistas do setor.
Em Sucuriju, na costa do município de Amapá, o quilo da gurijuba é vendido entre R$ 2 e R$ 2,5. Mas não é por causa da carne que esse peixe é tão cobiçado. O grande valor dele está na bexiga natatória. O grude vale sete vezes mais do que a carne do peixe.
"A gente tem que esticar o grude porque, se ficar muito grossa, não seca bem e nós perdemos", explica o pescador Agenilson Gonçalves.
São de três a quatro dias no sol ou no calor da estufa. Os pescadores vendem o quilo por R$ 15, em média. "Daqui vai para Macapá e, de lá, para a China e Japão", conta o pescador Elson Brito.
A bexiga fica dura, pouco flexível, parecendo borracha. "Os japoneses dizem que é para comer", comenta Elson. "Mas não é só para comer. O grude é transformado em gelatina e usado nas indústrias de bebidas, cosméticos e medicamentos".
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  Amapá perde receita; vigienses lucram

Em 2011, a exportação de grude chegou a mais de 200 toneladas pelos portos do Pará e do Amapá. Esse negócio movimentou três vezes mais dinheiro que o comércio normal de gurijuba e pescada-amarela nesses portos. 
Em uma reportagem do jornal paraense "O Liberal", consta que a China é o país que paga os melhores preços pelo produto. "Os pratos preparados com isso têm aspecto horrível, mas os chineses adoram. Para eles, é como o nosso filé", disse a reportagem.
O litoral amapaense é muito visitado pelos barcos pesqueiros paraenses, principalmente os do município de Vigia, o maior produtor e exportador do grude. Porém, é a gurijuba amapaense que enche os bolsos dos vigienses.
A gurijuba se espraia por todo o estuário amapaense e áreas costeiras do estado do Pará, mas ela desova nas águas mornas perto dos manguezais do Amapá, entre a foz do rio Araguari e a foz do rio Cunani, e é pescada entre o arquipélago do Bailique e o limite da Guiana Francesa.
O grude é secado em varais ou estufas OU NAS PRÓPRIAS EMBARCAÇÕES

A mesma reportagem do jornal paraense, intitulada "Reis do grude", mostra a cadeia econômica que movimenta mensalmente milhares de reais no município paraense, começando com a "contratação" dos barcos que vão fornecer o produto.
Embarcações paraenses atuam na costa amapaense e levam o produto para Vigia, dando prejuízo aos cofres amapaenses

O atravessador financia a viagem, pagando uma quantia estipulada previamente com o dono do barco. Terceirizar a contratação do barco é a melhor alternativa, pois o mercado se ramifica: enquanto uns trabalham com o filé do peixe, a outra parte fica com o grude, que é até mais valiosa. 
Os compradores de Vigia pagam, em média, R$ 80 pelo quilo do grude aos donos dos barcos e o vendem até pelo triplo do preço ao mercado externo. Como exportam cerca de três toneladas mensalmente, para países como China e Inglaterra, o faturamento pode chegar a mais de R$ 200 mil. 
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   Combate às "empresas" 
   produtoras de grude

A reportagem esteve na Superintendência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no Amapá, no Serviço de Fiscalização e Saúde Animal, que, através do seu diretor interino, o médico veterinário Dorcélio Paiva, explicou que o órgão estará intensificando a fiscalização do trânsito desse subproduto do pescado amapaense. Ele informou que isso consta na legislação federal.
O foco da clandestinidade do pescado amapaense está no município de Calçoene, onde a irregularidade já foi detectada pelas autoridades locais que estão se preparando para o combate à ação ilegal de 'supostos' empresários. O médico veterinário Dorcélio Paiva explicou que algumas empresas se transvestem em processadoras de grude de gurijubas para enviar, além do grude, o pescado 'in natura' para outros estados. 
"Mas, esse processamento do grude da gurijuba precisa da certificação do Ministério da Agricultura, o SIF. Sendo que, todo trânsito de origem animal precisa dessa certificação", reforçou.


Os munícipes de Calçoene ficam empolgados ao saber que o município está beneficiando uma média de 250 toneladas de peixe por mês. Mas, a estatística está muito aquém da realidade, pois é contabilizada a partir das duas empresas frigoríficas do município onde é feito o beneficiamento. Lá o peixe é pesado, tem a quantidade e tipo inscrito nos livros de registros, passa pelo beneficiamento, e tem a guia de trânsito expedida cuja receita fica no próprio município.
Para que aconteça a exportação clandestina do grude da gurijuba entremeado com o pescado são utilizados meios rudimentares, durante o atendimento do pequeno comprador. O beneficiamento é feito às proximidades da embarcação. "Muitos podem pensar que o vendedor é muito gentil em tratar do pescado para o comprador local, mas por trás disso há outro importante comércio: o do grude, ou 'da grude' como dizem os calçoenenses. É que o vendedor retira para si este importante órgão, que, dependendo do tamanho, pode valer mais que o próprio quilo do peixe", afirmou Paiva.
Atualmente, em Calçoene, um quilo de grude custa R$ 200. Mas, o preço varia no mercado, assim como varia o quilo do ouro, a cotação do dólar. Pescada Amarela e gurijuba são peixes grandes que têm os maiores grudes, daí o interesse do vendedor em tratá-los.  E o mais perigoso é que essas ações de pequenos pescadores tenham a cobertura de grandes empresas que ali atuam, ajudando na sonegação fiscal e aumento do lucro de empresários.

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  O Grude da Gurijuba

Na edição 1738 da revista VEJA, publicou a seguinte informação sobre o grude: “O grude é iguaria gastronômica na China”. Os ingleses compram o produto para usá-lo como filtro e clareador de cerveja. As mesmas bolsas são matéria-prima para colas de alto desempenho nos EUA e na Alemanha. Depois de processado e transformado em lâminas como as de gelatina, o grude ganha o nome de issinglass e podem ser utilizados na composição de medicamentos, cosméticos, filmes fotográficos, móveis, instrumentos musicais e varas de pescar de grande resistência, em diversos países. “Os empregos dessas membranas são tantos que ainda não foi possível catalogar todos”, diz a pesquisadora Rosália Cotrim, do órgão que coordena pesquisas sobre pesca na Região Norte, o Cepnor. Em 2001, a exportação de grude atingiu mais de 200 toneladas pelos portos do Pará e do Amapá. Esse negócio movimentou três vezes mais dinheiro que o comércio normal de gurijuba e pescada-amarela nesses portos. Segundo o exportador Roberto Braga, de Belém, é a China que paga os melhores preços pelo produto. “Os pratos preparados com isso têm aspecto horrível, mas os chineses adoram”, conta Braga. “Para eles, é como o nosso filé”.(Blog da Helida Pennafort)


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