"O futebol foi uma lição na minha vida"
por Fabiana Figueiredo
O futebol foi algo tão bom na vida de muitos garotos, que os salvou
dos mais diversos percalços da vida, amadureceu-os, assim como os afastou de
diversas situações ruins. Ou seja, foi uma lição e uma lembrança que levarão
para o resto da vida. Como é o caso do nosso atleta do passado desta semana:
Deoclides Alcides Monteiro, 70 anos, ex-zagueiro (4º zagueiro), ex-camisa
cinco, que tem uma história triste e emocionante ao mesmo tempo.
Natural de Vigia, no Estado do Pará, o pequeno Deoclides teve seus
primeiros contatos com o futebol no campinho perto de casa, por volta do ano de
1942. “Sempre tinha uma disputa entre os times do Flamengo e Vasco. Eu era
vascaíno, e atuava como goleiro. Em um dia, chegou um ribeirinho, que encostou
seu leme, e pegou meu lugar. Como eu jogava bem, fui convidado pra jogar pelo
outro time”, e assim conta o atleta, da recordação de como começou a gostar do
seu time do coração, o Flamengo.
Aos 10 anos de idade,
Deoclides teve que ir morar na capital do seu Estado. Ele se recorda que foi
morar no único bairro que tinha time próprio, o Sacramento Esporte Clube, que comemorava
aniversário no dia 7 de setembro, “era um colosso”, diz ele.
Até que certo dia, o amigo
Lelé (Corujinha) “foi quem me disse pra ir até Macapá, que meu futebol era
muito bom, e eu iria ser aproveitado”. Nessa época, com 20 anos, seu apelido
era Venenoso - segundo Seu Deoclides, por causa do cabelo que sempre foi
“espetadinho”. A coragem e o sonho de jogador de futebol tomou conta do nosso
atleta, e “houve um dia que meu pai se descuidou, peguei um short dele, e apanhei
uma embarcação antiga do governo, o “Araguari”. Sai de lá em 25 de agosto de 1962,
e cheguei aqui dia 28 de agosto em 1962. Fiquei doido para ficar na embarcação,
mas me tiraram do barco”, conta.
Vagando pelas ruas, foi que
conheceu o afilhado de seu pai, que o ajudou a se apresentar no Esporte Clube
Macapá, e a estudar na Escola Industrial. “Ele me deixou dormir na Praça do Barão”,
lembra-se da primeira noite na cidade desconhecida.
No outro dia, se “alistou” no
time do E.C. Macapá, e, com ajuda de moradores, chegou ao Estádio Glicério
Marques para treinar. “Tinha um cidadão, Heitor Picanço, de cadeira de rodas,
que me deixou descansar na arquibancada do estádio antes que começasse os
treinos. Eu estava cansado”.
E foi, então, que a carreira
começou. O primeiro clube foi o Esporte Clube (seu time do coração); depois por
influências de amizades, jogou pelo Trem Desportivo Clube, por volta de 1963;
jogou também pelo Santana Esporte Clube; Independente e depois voltou para o
Macapá, onde encerrou a carreira. “Aqui era amadorismo, a gente podia jogar um
mês em um clube, depois em outro clube”. A Seleção Amapaense também foi
composta por Papagaio, por quase 8 anos na década de 70.
Ele lembra-se: “Me levaram
pra jogar no Santana, no Canário. Foi onde tive a oportunidade de jogar com
refletores, no Estádio Augusto Antunes. [...] Jogar pelo Santana foi uma
alegria e uma tristeza: fui Campeão Amapaense de 1968, em cima do Esporte Clube
Macapá, meu time querido e que joguei por tantos anos”. Da escalação, ele
recorda de Neném, Luiz, Otávio, Papagaio, João Ferreira, Aroldo Santos,
Perereca, Doca, Timbó, Batista, Lelé e Percival.
A carreira terminou com 41
anos, “devido que eu já estava trabalhando demais, já estava estabilizado na
minha vida”. Hoje, ele é aposentado pelo quadro federal, e por volta dos 30
anos, se formou em Educação Física, atuando como professor da área até os dias
atuais.
O atleta do passado finaliza:
“o futebol foi uma lição na minha vida, que eu pude orientar muitos colegas. Essa
minha fuga maravilhosa, apesar de eu ter deixado meus pais, valeu a pena. Não me
arrependo de ter vindo pra cá”.

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