sexta-feira, 6 de novembro de 2015

CISMANDO





Mascarando a Vida
Pedro Velleda

A semana começou com um profundo sentimento reflexivo. No estúdio principal da rádio Difusora, fui abordado sobre o tema exposto no artigo anterior a este. De pronto, me veio à cobrança da obrigação moral que tenho – ‘primeiro para comigo mesmo, e depois para com os outros’. O simples dever moral, muito difícil de ser cumprido, porque se encontra em antagonismo com as seduções do interesse e do coração. O dever íntimo do homem entregue ao seu livre arbítrio, a vara pontiaguda da consciência, mas impotente diante dos sofismas da paixão. Questionei, naquele momento, que Deus criou todos os homens iguais para a dor, pequenos ou grandes, ignorantes ou instruídos, que sofrem pelos mesmos motivos, a fim de que cada um pese judiciosamente o mal que pôde fazer. Não existe o mesmo critério para o bem, que é infinitamente mais variado nas suas expressões.
Relembrei a virtude, no seu grau mais elevado, reunindo qualidades essenciais do homem de bem, que deve ser bom, caridoso, trabalhador, sóbrio, modesto, enfim, um homem virtuoso. Porém, aquele que alardeia suas virtudes não é virtuoso, pois lhe falta a modéstia, derramando-se em orgulho.
Ora, em Romanos, o apóstolo Paulo ressalta: “Acho então esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. Aí está a dificuldade que senti em poder explicar o que me questionavam, frente às enormes incongruências nos testemunhos. Entender de que forma, pois no instante justo, quando nos cabe revelar a presença do Divino Companheiro no coração, eis que uma palavra, uma atitude ligeira nos trai, diante da própria consciência, indicando-nos a continuidade das antigas fraquezas. A maioria experimenta sensações de vergonha e dor. Alguns atribuem as quedas à influenciação de espíritos maléficos e, geralmente, procuram o inimigo no plano exterior, quando deveriam sanar em si mesmos a causa indesejável de sintonia com o mal.
Muito difícil viver sem vibrações adversas, todavia, é necessário verificar a observação de Paulo, em nós próprios. Enquanto o homem se mantém no gelo da indiferença ou na inquietação da teimosia, não é chamado à análise pura; entretanto, tão logo desperta para a renovação, converte-se o campo íntimo em zona de batalha. Contra a aspiração oscilante do bem, no dia que passa, levanta-se a pesada bagagem de sombras acumuladas em nossas almas desde os séculos transcorridos. Vai entender a multiplicidade de vidas!
Seria mais fácil se observássemos a benevolência para com os semelhantes, fruto do amor ao próximo, que produz a afabilidade e a doçura, que lhe são a manifestação. Mas, somos seres imperfeitos nesse mundo de expiação e provas e, nem sempre conseguimos mascarar por muito tempo nossas verdadeiras intenções e planos matreiros. Não dá para enganar as pessoas por tempo indeterminado. Após vestirmos as roupagens da afabilidade e doçura para encobrir rudeza e desrespeito, vem à realidade dura e cruel que desnuda aqueles lo­bos que vestiram a ‘pele de cordeiro’.
Com gestos meigos e voz doce desempenhamos tarefas na vida pública, no contato com chefes de serviço e amigos, com com­panheiros de ideal e recém-conhecidos, mas também trazemos ‘pedras nas mãos’ ou ‘punhos cerrados’ no trato com aqueles com quem desfrutamos familiaridade. Queremos ser alguém que não somos. Motivamos impres­sionar criaturas a fim de conquistá-las por interesses imediatistas, atuando como personagens no palco da vida.
Através de nossos radares sensíveis e intuitivos, passamos a representar de forma inconsciente e auto­mática um procedimento dissimulado sob a ação dessas forças poderosas. Usamos de modismos para ludibriar e corromper, para avançar sinais e para comprar consciências. No fundo temos medo de nos mostrar como realmente somos. Talvez seja um mecanismo de defesa por meio do qual atribuímos a nós as qualidades dos outros, exercendo personagens de sucesso, alimentando a ilusão de ser quem não somos num processo inconsciente. É a própria psicose da vida mental, pois logo perdemos a consciência de quem somos e do que queremos na vida.
Uma coisa é certa, não se pode colher flores semeando espinhos. Lembremos que a semeadura é livre, sem dúvida, mas a colheita é obrigatória.
Portanto, deixemos de lado as ‘máscaras sociais’ para que se revelem em nós as reais potencialidades interiores herdadas do Criador.

Revele-se para o mundo, mas, verdadeiramente, sem máscaras!

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