Mascarando a Vida
Pedro Velleda
A semana
começou com um profundo sentimento reflexivo. No estúdio principal da rádio
Difusora, fui abordado sobre o tema exposto no artigo anterior a este. De
pronto, me veio à cobrança da obrigação moral que tenho – ‘primeiro para comigo
mesmo, e depois para com os outros’. O simples dever moral, muito difícil de
ser cumprido, porque se encontra em antagonismo com as seduções do interesse e
do coração. O dever íntimo do homem entregue ao seu livre arbítrio, a vara
pontiaguda da consciência, mas impotente diante dos sofismas da paixão. Questionei,
naquele momento, que Deus criou todos os homens iguais para a dor, pequenos ou
grandes, ignorantes ou instruídos, que sofrem pelos mesmos motivos, a fim de
que cada um pese judiciosamente o mal que pôde fazer. Não existe o mesmo
critério para o bem, que é infinitamente mais variado nas suas expressões.
Relembrei a virtude,
no seu grau mais elevado, reunindo qualidades essenciais do homem de bem, que
deve ser bom, caridoso, trabalhador, sóbrio, modesto, enfim, um homem virtuoso.
Porém, aquele que alardeia suas virtudes não é virtuoso, pois lhe falta a
modéstia, derramando-se em orgulho.
Ora, em
Romanos, o apóstolo Paulo ressalta: “Acho
então esta lei em mim: quando quero fazer o bem, o mal está comigo”. Aí
está a dificuldade que senti em poder explicar o que me questionavam, frente às
enormes incongruências nos testemunhos. Entender de que forma, pois no instante
justo, quando nos cabe revelar a presença do Divino Companheiro no coração, eis
que uma palavra, uma atitude ligeira nos trai, diante da própria consciência,
indicando-nos a continuidade das antigas fraquezas. A maioria experimenta
sensações de vergonha e dor. Alguns atribuem as quedas à influenciação de
espíritos maléficos e, geralmente, procuram o inimigo no plano exterior, quando
deveriam sanar em si mesmos a causa indesejável de sintonia com o mal.
Muito
difícil viver sem vibrações adversas, todavia, é necessário verificar a observação
de Paulo, em nós próprios. Enquanto o homem se mantém no gelo da indiferença ou
na inquietação da teimosia, não é chamado à análise pura; entretanto, tão logo
desperta para a renovação, converte-se o campo íntimo em zona de batalha. Contra
a aspiração oscilante do bem, no dia que passa, levanta-se a pesada bagagem de
sombras acumuladas em nossas almas desde os séculos transcorridos. Vai entender
a multiplicidade de vidas!
Seria mais
fácil se observássemos a benevolência para com os semelhantes, fruto do amor ao
próximo, que produz a afabilidade e a doçura, que lhe são a manifestação. Mas,
somos seres imperfeitos nesse mundo de expiação e provas e, nem sempre
conseguimos mascarar por muito tempo nossas verdadeiras intenções e planos
matreiros. Não dá para enganar as pessoas por tempo indeterminado. Após
vestirmos as roupagens da afabilidade e doçura para encobrir rudeza e
desrespeito, vem à realidade dura e cruel que desnuda aqueles lobos que
vestiram a ‘pele de cordeiro’.
Com gestos
meigos e voz doce desempenhamos tarefas na vida pública, no contato com chefes
de serviço e amigos, com companheiros de ideal e recém-conhecidos, mas também
trazemos ‘pedras nas mãos’ ou ‘punhos cerrados’ no trato com aqueles com quem
desfrutamos familiaridade. Queremos ser alguém que não somos. Motivamos impressionar
criaturas a fim de conquistá-las por interesses imediatistas, atuando como
personagens no palco da vida.
Através de
nossos radares sensíveis e intuitivos, passamos a representar de forma
inconsciente e automática um procedimento dissimulado sob a ação dessas forças
poderosas. Usamos de modismos para ludibriar e corromper, para avançar sinais e
para comprar consciências. No fundo temos medo de nos mostrar como realmente
somos. Talvez seja um mecanismo de defesa por meio do qual atribuímos a nós as
qualidades dos outros, exercendo personagens de sucesso, alimentando a ilusão
de ser quem não somos num processo inconsciente. É a própria psicose da vida
mental, pois logo perdemos a consciência de quem somos e do que queremos na
vida.
Uma coisa é
certa, não se pode colher flores semeando espinhos. Lembremos que a semeadura é
livre, sem dúvida, mas a colheita é obrigatória.
Portanto, deixemos
de lado as ‘máscaras sociais’ para que se revelem em nós as reais
potencialidades interiores herdadas do Criador.
Revele-se
para o mundo, mas, verdadeiramente, sem máscaras!

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