domingo, 13 de agosto de 2017

ARTIGO DE GILBERTO PINHEIRO - Desembargador Vice presidente do TJAP

15 de Agosto

Gilberto de Paula Pinheiro

A Amazônia, como o restante do país, possui suas datas históricas relevantes. O 15 de agosto de 1823 é, para mim, a mais importante, pois se trata da Adesão do Pará à Independência do Brasil.

Ouço críticas sobre o 15 de agosto em razão da tragédia do brigue Palhaço, onde 252 pessoas morreram intoxicadas por cal a mando do Oficial Joaquim Lúcio de Araújo. A minha discordância se prende ao fato de que sem a adesão à Independência, hoje não faríamos parte do Brasil. Certamente seríamos tratados pelo sul e sudeste como são os nossos irmãos bolivianos e, precisaríamos de passaporte para nos deslocar até aquela região.

O grito de Independência em 7 de setembro de 1822 dado por D. Pedro I, com apoio maciço da maçonaria, de várias classes sociais e contando com a força imprescindível da nossa princesa Maria Leopoldina, uma referência marcante naquele movimento para quebrar os laços com Portugal, eclodiu apenas em algumas províncias do sul e sudeste do país.

O novo imperador teve que contratar os serviços do almirante Lorde Thomas Alexander Cochrane e do capitão Grenfell, para comandar a nossa gloriosa marinha objetivando a unificação do país.

Ao chegar ao Maranhão, o capitão Grenfell aplicou um “blefe” afirmando que possuía uma forte armada, impondo condições para a adesão, salvo contrário, atacaria a cidade de São Luis. O ardil deu resultado.

Em seguida, dirigiu-se a Belém, último bastião dos lusitanos que era fortemente defendido pelo General Moura, comandante das Armas, com 600 homens. O capitão aplicou o mesmo engodo, tendo o oficial português recusado a proposta. O impasse se fez presente e a destacada atuação do bispo D. Romualdo de Souza Coelho foi decisiva, pois presidia a Junta que governava a Província, informando ao militar que iria reunir o Conselho para deliberar a questão.

O general a todo custo se opôs à ideia, porém, no dia 11 de agosto de 1823, às 19h, iniciou-se a sessão para deliberar a questão que somente terminou às 23h, com o povo nas ruas exigindo a adesão. A Junta reunida no Palácio do Governo decidiu em favor da unidade do Brasil. Assim, entre os historiadores há divergência sobre essa data.

Em 15 de agosto de 1823, foi devidamente formalizado o ato de adesão da Província do Pará à independência do Brasil, com salva de vinte e um tiros que foram dadas pelo brigue do capitão Grenfell e respondida pela Fortaleza da Barra, com o povo nas ruas comemorando.

Passada a euforia, o blefe de Grenfell fora descoberto, tendo ele, contra a vontade dos brasileiros, instalado uma nova Junta, mantendo, no entanto, o poder nas mãos dos portugueses. Houve saques em vários estabelecimentos comerciais lusitanos, como represália.

Acusado de agitador, o Cônego Batista Campos foi amarrado à boca de um canhão com estopim aceso, por ordem do oficial inglês e graças à interferência dos membros da Junta Provisória que intercederam, não foi executado, sendo, no entanto, recomendada sua transferência para o Rio de Janeiro a fim de ser julgado O comandante não tendo outra saída colocou em liberdade aquele grande líder.

O capitão Grenfell, sob alegação de manter a ordem, executou cinco manifestantes e aprisionou 256 homens suspeitos por tempo indeterminado no porão do brigue Palhaço. Não havendo espaço para respirar, os presos pediram água e como resposta os soldados jogaram cal virgem, ceifando a vida de 252 prisioneiros. Esse episódio ficou conhecido como a tragédia do brigue Palhaço.

Evidentemente que não existe justificativa para a morte de uma pessoa, quanto mais de centenas ou milhares, porém, é impossível numa guerra não ocorrer derramamento de sangue e injustiça. Isso ocorreu na unificação da Alemanha, Itália, Rússia, China, Oriente Médio, Índia, independência dos Estados Unidos e da América Espanhola, por exemplo, onde milhares de vidas foram ceifadas.

O 15 de agosto, para mim é, de todos os feriados da Amazônia, o mais importante, pois na realidade sem ele, importância nenhuma teria o 7 de setembro para nós amazônidas.


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