quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Câmara livra Temer de segunda denúncia


As semanas anteriores à votação foram marcados por intenso contato de Temer com deputados da base, que foram agraciados com a liberação de dinheiro para obras, por meMichel Temerio do empenho de emendas parlamentares - quase R$ 1 bilhão em setembro e outubro - e uma série de nomeações de aliados para cargos do segundo escalão.

Câmara livra Temer de segunda denúncia
Câmara vota prosseguimento da segunda denúncia contra Temer

Em roteiro semelhante ao da primeira denúncia, deputados rejeitam andamento de denúncia - que, caso fosse aceita pelo STF, tiraria o presidente do cargo.
BBC BRASIL.com


Brasília - Embora ainda esteja em andamento, a sessão da Câmara dos Deputados em que está sendo votada a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer já tem um veredicto: o pemedebista está livre das acusações de obstrução de Justiça e formação de quadrilha feitas pela Procuradoria-Geral da República ao Supremo Tribunal Federal.
 Michel Temer
Em pouco mais de uma hora e meia de votação, Temer obteve 171 votos favoráveis. A oposição precisaria de 342 dos 513 deputados para afastar o presidente.

Vencida a denúncia, essa será a nova prioridade do Palácio do Planalto, que argumenta que as mudanças nas regras de aposentadoria são imprescindíveis para reverter o rombo bilionário das contas públicas.

No cenário ideal do governo, a reforma será aprovada em novembro na Câmara dos Deputados e até março no Senado, onde precisa do apoio de 49 dos 81 senadores.

Depois disso, a fervura eleitoral tende a inviabilizar qualquer pauta mais sensível, reconhecem políticos da base. Eles admitem também que a reforma só será aprovada se o governo ceder em pontos polêmicos, como a criação de uma idade mínima para aposentadoria, que deseja fixar em 65 anos para homens e mulheres.


Votação à noite


Sem votos para aprovar o andamento da denúncia, a oposição passou o dia tentando impedir que fosse atingido o quórum necessário de 342 deputados para abertura da votação. Não conseguiu, mas, com ajuda de alguns insatisfeitos da base governista, foi capaz de empurrar a votação para a noite, quando supostamente mais pessoas poderiam acompanhar a sessão de casa, gerando mais desgaste para os aliados de Temer.

Durante o dia, com um pequeno caixote e um megafone, improvisaram um palanque do lado de fora do plenário, onde se revezaram em ataques ao governo.

"Somos minoria aqui na Casa, mas somos maioria na sociedade. Mais de 90% do povo brasileiro quer Temer fora do governo. Essa casa, por força de manobras e da corrupção da compra de votos, é a única instância em que esse governo tem maioria", discursou a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP).

Além da oposição, Temer também recebeu ataques de parlamentares da base aliada. O partido que mais registrou traições novamente foi o PSDB, cuja bancada voltou a votar rachada.

Deputados fiéis ao presidente, por sua vez, lançaram novamente mão do discurso da "estabilidade", argumentando que a continuidade do governo era fundamental para a recuperação da economia.

"Deixe o homem trabalhar", brandou da tribuna o polêmico deputado Wladimir Costa (SD-PA), que na primeira denúncia fez uma tatuagem falsa com nome de Temer no ombro.

Além disso, aliados do presidente repetiram o discurso contra a "inépcia" da denúncia apresentada pelo ex-procurador-geral Rodrigo Janot - críticas que ganharam novo fôlego depois que foram revelados no início de setembro indícios de ilegalidade na condução da delação da JBS pela Procuradoria-Geral da República (PGR).

"Essa denúncia é inepta, fruto de uma armação sórdida para derrubar o presidente da República, o que seria uma irresponsabilidade", defendeu o líder do PMDB, deputado paulista Baleia Rossi.

Legado de Janot
Na segunda denúncia, Janot acusou o presidente de ter tentado parar a Lava Jato. Ele teria feito isso ao dar o aval para que o empresário Joesley Batista, do frigorífico JBS, "comprasse" o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do suposto operador do PMDB, o empresário Lúcio Funaro.

Além disso, Janot acusa Temer de ser o chefe de um grupo criminoso, que seria formado por políticos do PMDB na Câmara dos Deputados. Para a PGR, Temer era o braço político da suposta quadrilha, responsável por viabilizar os interesses de empreiteiras e outras empresas dentro do Congresso em troca de subornos.

Além da delação da JBS, o acordo de delação de Lúcio Funaro também forneceu elementos para a nova denúncia.

Em sua defesa, Temer se diz vítima de uma "conspiração" e cita os indícios de possíveis ilegalidades na condução da delação da JBS pela Procuradoria. Informações reveladas em setembro, a partir de gravações entre os delatores, indicaram que procuradores podem ter orientado os delatores ilegalmente a gravar o presidente.

Com a decisão da Câmara, a denúncia fica suspensa até que Temer conclua seu mandato. A Justiça poderá, no entanto, julgá-lo quando ele deixar de ser presidente, caso considere as acusações consistentes.


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