O TRABALHO MÉDICO ALÉM DO DENUNCISMO
Na semana passada a TV Globo escancarou
mais uma reportagem sobre o trabalho médico, citando uns poucos profissionais
que burlam os pontos eletrônicos em hora de trabalho, indo para outras
atividades não médicas ou consultórios particulares, exigindo meses de
investigação, escutas e filmagens. Sabemos
que por trás dessa questão, da pontualidade, da assiduidade e da jornada de
trabalho, existe um cabedal de fatores que envolvem essa postura, que não deixa
de ser condenável e deplorável.
Quem estuda as questões da demografia
e do trabalho médico, do absenteísmo (excesso de falta ao trabalho), da
precarização dos serviços em saúde, das relações profissionais com os gestores
e da remuneração, sabe que esses fatores são abordados pela mídia superficialmente,
sem análise profunda das causas, que vão além da falta ou atraso ao trabalho.
Ao tentar escamotear as carências
crônicas dos serviços, tanto público, quanto privado e atribuindo única e
exclusivamente ao ato dos Médicos a culpa pelas deficiências, a reportagem não
procurou saber quais as condições que esses profissionais trabalham. Ativeram-se
em divulgar os nomes, as especialidades, os valores das remunerações (que não é
salário), jornada e hora de trabalho.
Em 2017, o próprio Ministro da Saúde,
Ricardo Barros, também fez declarações improcedentes de que os “médicos
deveriam deixar de brincar de trabalhar”, anunciando o controle biométrico de
ponto como a resolução para a questão da carga horária, o que foi rebatido de
imediato pelas entidades com documento de repúdio à sua postura inapropriada.
Tentar atingir a classe médica com
justificativas falaciosas e pontuais tem sido a postura de alguns governos e
gestores para encobrir as carências assistenciais na saúde. Falam que o médico
“ganha muito” e “trabalha pouco”. Nos governos Dilma/ Temer, o malfadado
programa “Mais Médicos”, pouco ou quase nada contribuiu para o aprimoramento da
atenção básica, no entanto foram constatadas irregularidades educacionais,
trabalhistas e desvio de divisas para Cuba.
Faz anos que a mídia em geral, escrita,
falada e televisada, não divulga as pesquisas feitas pelos órgãos de controle
externo, sobre o funcionamento precário do SUS. Não divulga o trabalho dos
Conselhos de Saúde, que não são ouvidos e nem consultados. A imprensa local não
divulgou os motivos porque o MS negou o estado de emergência federal solicitado
pelo governo Waldez, no início de 2014, atribuindo ao GEA má gestão pública e
não operacionalização dos recursos existentes.
A mídia nacional também se esqueceu de
denunciar a não votação do PL 123/2013
ou “Saúde + 10”, que pedia 10% do
PIB nacional em financiamento da saúde, solicitada por proposta popular, com
milhões de assinaturas e envolvimento de entidades como CFM, OAB, CNNB e ABI,
que não teve apoio do Parlamento e nem do governo federal. Mas votaram a PEC 358 do “Orçamento Impositivo”, que
destina recursos para emendas de bancada e a PEC 241 que impede investimentos e congela os recursos para a saúde
por 20 anos.
Os dados da pesquisa sobre o perfil dos
médicos brasileiros, realizada pelo CFM, em 2013, mostram os variados fatores
para o declínio e a desvalorização do exercício da Medicina. Os dados foram
fornecidos por 14.405 profissionais de todas as regiões e amplamente
divulgados. Em relação à remuneração a pesquisa constatou evidente erosão
salarial em relação à pesquisa feita em 1996. Só 8,6% dos entrevistados têm
salários de R$ 12 mil por mês. Antes era 20%. Metade dos médicos tem renda
inferior à R$ 6 mil mensais. (artigo TA, 09.12.2015).
A pesquisa constatou ainda que apesar da
Medicina ser considerada desgastante, mal remunerada e desvalorizada, 65% dos
médicos afirmam estar satisfeitos com a profissão e apenas 2% não exercem a
atividade. 09.01.2018.
Nenhum comentário:
Postar um comentário