“Devemos ser bons uns com os outros sem olhar a quem, atendendo com carinho e bom-humor” (Milton Andrade Silva)
Na tarde de muito sol em Macapá na última terça-feira a reportagem foi até ao SESC/Araxá à procura do nosso Sobrevivente desta semana. Antes de encontrá-lo, algumas informações acerca dele foram passadas pela administração do SESC, como por exemplo: “Ah, ele é um moreno saradão!”, “Já até deu uma entrevista na televisão!”, “Ele é gente boa!”. Depois de toda essa referência, “Vamos procurar o nosso Sobrevivente, ué!”. Apresentamos Milton Andrade Silva, mais conhecido como “Pinheirense”. 83 anos, filho de Eufrosino Silva e Josefa Andrade Silva.
Não precisava de muita coisa para identificar a paixão de Milton por atividades físicas. Era na piscina, na sua aula de hidroginástica, onde ele se encontrava, com os outros colegas em uma grande animação, ao som de Claudinha Leite. Sua neta, Tatiana o acompanha sempre nas aulas, sendo bastante útil a nossa entrevista. Mesmo tímido Milton relatou-nos um pouco da sua vida e participação no Estado.
Nascido dia 12 de Setembro de 1928, em Icoaraci (PA), Pinheirense diz “Minha infância foi muito boa”. Teve apenas uma irmã. Quando a reportagem perguntou sobre sua vinda para o nosso Estado, ele sorri e diz que veio sozinho, com 15 anos. “O trabalho estava difícil onde eu morava, e na época o Governador Janary Nunes (1944-1956) estava contratando pessoas para trabalhar. Aproveitei a oportunidade e vim para cá”.
Pinheirense diz ter tido um trabalho braçal, trabalhou como ajudante de pedreiro, até que em 1952 foi trabalhar para a polícia, antiga Guarda Territorial,hoje Policia Militar, onde ficou até se aposentar (em 1947, com 64 anos). Contando os seus títulos com orgulho diz “Fui até sargento. Gostava muito do meu trabalho. Eu era sempre deslocado para um município e outro, conheci quase todo o Amapá”.
Ele diz que antigamente o quartel da polícia era na Fortaleza da São José. Mas depois, segundo ele, uns oficiais da Polícia Militar foram enviados pelo governo para organizar a polícia, e foi a partir disso que construíram o atual quartel, relata.
Casamento
Os frutos do casamento de longas datas com Hildete foram 10 filhos, os netos Milton nem conseguia enumerá-los de tantos que têm, mas com a ajuda da sua neta Tatiana, aproximadamente uns 15 netos e até bisnetos já estão incluídos nesta família. Pinheirense sorri quando se dá conta de quantos surgiram a partir da sua união com Hildete.
Milton nos conta uma divertida história que resultou no casamento com ela, lembrando que quando se conheceram ele já estava trabalhando na polícia. “Na época, minha irmã já estava aqui em Macapá e morávamos juntos.” Segundo ele, um dia disse à irmã que ia jogar futebol e antes disso já havia combinado com Hildete, na época com 17 anos, para se encontrarem. “O pai dela era muito brabo, então pensei que ela nem ia, mas quando cheguei, lá estava Hildete”.
Depois do futebol, Hildete foi com ele para sua casa e segundo Milton, sua irmã ficava sempre alertando “Olha rapaz! Cuidado, essa menina é muito nova, olha o que estais fazendo!”. Milton sorri lembrando que depois disso Hildete ficou mais cinco dias na sua casa, até que bateram na sua porta e perguntaram “Tem alguma moça aí com o senhor? O senhor está preso!”. Milton nos contou como foi a sua resposta: “Por que eu estou preso? Sou solteiro e posso casar com ela”. Deram então 15 dias para casar-se com Hildete, caso contrário, seria levado ao delegado. Pinheirense diverte-se ao relatar a Reportagem do medo que os supostos policiais deram nele.
“No dia seguinte fui ao cartório com ela, só nós dois. Quando chegamos, fomos avisados de que para casar precisavam de três testemunhas. E agora? Procuramos umas pelo cartório, entenderam a nossa situação. Casamos!”. E deu certo, não Milton?
Esporte
O que nos é dito sobre esporte, de que a sua prática traz muitos benefícios à saúde, parece ter sido levado muito a sério por Milton, e com visíveis resultados, pois com 83 anos, segundo a sua neta “Está com uma ótima saúde!”. Ele diz que desde garoto sempre gostou muito de futebol e enumerou os prêmios que trouxe para o Amapá na época a qual jogava. “Fui campeão pelo Esporte Macapá, São José, Trem e pelo Amapá. Hoje eu sou Paysandu e mais todos os quatro por quem eu joguei”.
Luta livre, Karatê, Judô. “Tudo isso eu pratiquei!”. Segundo Pinheirense, ele sempre lutou como amador, e foi nessa posição que conseguiu lutar com 12 profissionais e todas as disputas ficaram em empate, diz ele com orgulho.
“Desde que cheguei aqui sou conhecido como Pinheirense, isso porque antes Icoaraci era chamada de Pinheirense. Então, o meu nome de luta era esse mesmo ‘Pinheirense’”. Milton também diz que ama viajar, já teve oportunidade conhecer o Rio e Janeiro, São Paulo, Goiânia, Belém, Fortaleza, Blumenal.
Piscina
Acerca da atual atividade física de Milton, Tatiana - sua neta - diz que antes ambos faziam musculação em uma academia, até que ela descobriu o programa para terceira idade no SESC. “Eu vejo que ele gosta, quando chega terça e quinta ele fica em uma ansiedade, não é vovô? Satisfazendo a vontade dele eu já fico muito feliz”, diz ela carinhosamente.
Nosso Sobrevivente teve há 10 anos uma doença chamada Glaucoma (que é uma doença ocular provocando lesões no nervo óptico, devido a uma elevada pressão). Diz Tatiana “Ele tem uma noção do mundo, conhece as coisas, faz as suas atividades, tem uma vida social dentro dos limites, vai para casa dos filhos, ele vive!”. Ela expressa também o seu imenso cuidado e carinho pela vida do seu avô, o nosso Sobrevivente. Enfatizando que Milton sempre poderá contar com ela.
Como uma neta coruja Tatiana o elogia dizendo da sua esperteza, que ele perdeu a visão, mas aguçou outros sentidos. “Meu avô tem uma história, uma participação no estado com o governo de Janary Nunes, levou também o nome do Amapá para outros estados”. E ela lamenta por muitas pessoas só tornarem-se notórias depois que falecem, mas quando vivas não é dado um apoio e o reconhecimento devido.
E para finalizar...
Pinheirense diz “Ter experiência é muito bom para todos nós. Para ser ‘popular’, você deve conversar com as pessoas, saber ouvi-las, dá atenção aos idosos a ponto de sentirmos alegres. Devemos ser bons uns com os outros sem olhar a quem, atendendo com carinho e bom-humor”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário