Ironicamente, estava vagando pelos sites informativos da internet, quando de repente me deparei com o seguinte artigo: "70% das crianças têm perfil nas redes sociais". Pus-me a ler. De acordo com os dados da Tic Kids Online, pesquisa feita pelo Cetic (Centro de Estudos sobre as tecnologias da Informação e da Comunicação), das redes sociais utilizadas, o Facebook é a mais popular entre os pequenos, com 61% de preferência, sendo que 72% dos tais usuários têm entre 15 e 16 anos, 67% entre 13 e 14 anos, seguidos por aqueles com idades de 11 e 12 anos (que representam 49%) e os de 9 e 10 anos (que são 46%).
São setenta por cento das crianças curtindo a infância na internet. Algumas delas, tão espertas, fazem muito mais coisas com um teclado na mão do que com uma caneta. O exemplo mais próximo que disponho é minha própria irmã: Aos três anos, ela não lê nem escreve, mas sabe ligar um computador, dar play, pausar, acelerar o filme que está vendo, enfim, promove um baile ante qualquer adulto.
Fico impressionada. E então é inevitável pensar que esses meninos todos, inclusive minha irmã, já nascendo com a câmera do celular a fotografar seus rostinhos, eles não provarão muitas das coisas tão simplórias e maravilhosas que experimentamos em outras gerações. Viemos, por exemplo, de uma infância em que o dia era programado de acordo com os desenhos que passavam na televisão, e a Sessão da Tarde constituía nossa maior fonte de globalização.
Agora está tudo mudado. Não quero soar muito nostálgica, mas a verdade é que os guris de hoje são privados de um sopro a mais de vida. Em busca desse padrão pós-moderno de existência, o que fazem? São submetidos a milhares de atividades extracurriculares, têm a mente bombardeada pela "necessidade" de possuir as novidades do mundo eletrônico - e os pais alimentam esse consumismo sem qualquer diálogo, sem instrução ou averiguação se o filho está se tornando um ser alienado -, preocupam-se com aspectos como "vestibular" prematuramente, desde o ensino fundamental, e são assim condicionadas a um modelo de crescimento em que se luta para ganhar a vida, quando na verdade a perdem.
Não digo que projetar um futuro brilhante e bem-sucedido seja errado. Mas a supressão de bons valores em troca desses novos e incertos é sim um equívoco. Estamos todos envolvidos no processo. Como freá-lo? Impossível. O aprimoramento das tecnologias segue sempre em frente, não estagna nem retrocede. Mas o que podemos fazer é dosá-lo, não deixar que a celeridade desse novo mundo determine em que ritmo as crianças vão crescer.
Há, será, quem julgue paranoia desencadear todos esses argumentos em prol da preservação da velha infância, simplesmente partindo de um texto que diz "70% das crianças têm perfil nas redes sociais"?. Se há alguém, veja bem: O título do artigo aqui relatado ilustra o processo de migração que as crianças vêm enfrentando. Processo macabro. Estão migrando do universo das bonecas e bolas, para esse mundo vasto aprisionado nos computadores. Sim, é um imenso mundo, mas a visão dele limita-se a apenas uma tela, e tela que se torna cada vez mais fina e frágil. A criança, nessa idade, precisa de horizontes infinitos! Correndo o risco, caso contrário, de atrofiar o modo como encara a vida.
É certo amputar os olhos dessas gerações? Acredito que bonecas e bolas poderiam muito bem dividir espaço com os computadores. E se essas crianças que já se renderem ao fascínio vicioso das redes sociais gastassem um pouco mais de tempo com os pés na terra ou trepadas em árvores, creio que a porcentagem não seria tão alarmante. Não podemos parar o avanço frenético, então que aprendamos a deixá-lo seguir seu rumo, ensinando os menores a andarem em seus próprios passos, sem a preocupação tola de serem deixados para trás caso não corram também. Se for pra correr, que seja de pés descalços e na grama.
Nenhum comentário:
Postar um comentário