"Quem não queria ser negro, por ter um tom mais claro, hoje se identifica como negro"
por Reinaldo Coelho
Este fim de semana encerra uma semana de comemorações voltada para os negros em todo o Brasil, é a semana da Consciência Negra. Para termos uma visão do que é a data para esses valorosos membros da nossa sociedade, procuramos um pioneiro entre os líderes de uma das mais tradicionais Comunidades Quilombolas do Amapá, a do Curiaú. Chegamos até Sebastião Menezes da Silva, conhecido como Sabá, que é um dos líderes do Quilombo do Curiaú e, sob sua liderança, a comunidade conquistou grandes benefícios. Durante sua narrativa, Sabá destaca que foi escolhido pelos Guardiões (os mais antigos) da comunidade.
Ele é novo na idade (53 anos) e pequeno na estrutura física, porém a sabedoria é de um dos Guardiões de sua comunidade. Nesta entrevista, ele expõe a realidade vivida pelos seus antepassados e o futuro dos novos quilombolas.
Neto de descendente de escravos, Sabá é filho de Rossilda Joaquina da Silva, uma das nossas pioneiras. Sua mãe ocupa um lugar fundamental nessa linhagem de líderes. Segundo Sabá, ela era a grande liderança social, pois além de ser parteira é benzedeira.
O jovem líder quilombola conta que sua infância foi voltada para duas direções: os estudos e o trabalho. "O primeiro cursei até a 5ª série do antigo primário e, ao mesmo tempo, trabalhava na agricultura de sobrevivência ajudando os meus pais. Passei a me dedicar exclusivamente à roça, pois sou o mais velho de 11 irmãos e tinha de ajudar a criá-los. E o ensino, na época, era ministrado somente nas quatro séries do antigo primário", explica.
Na adolescência de Sabá, sem continuação aos estudos, as opções era trabalhar no roçado e casar, constituindo família, e foi o que ele fez: casou-se com Celina Catarina, com que vive há 30 anos e geraram três filhos.
Liderança
Sabá explica que seu envolvimento com os problemas da Comunidade do Curiaú, vem de berço. "Nunca tive vícios e os membros mais velho da comunidade, que eu chamo de Guardiões, sempre tiveram um olhar diferenciado para mim. Quando completei dezoito anos, eles me escolheram para que fosse uma pessoa que pudesse lhes ajudar a desenvolver a própria comunidade. A partir daí, comecei a me inserir nos problemas comunitários, em todos os sentidos: da agricultura ao futebol, e até hoje continuou esse trabalho que me foi delegado pelos mais velhos. Muitos já se foram, mas temos alguns aqui conosco. Muitos me chamam de líder, mas somos líder por natureza", narra.
As transformações de infraestrutura e social da centenária Comunidade do Curiaú foram muito grandes e, de acordo com Sabá, desde que ele começou a atuar nas atividades pertinentes aos problemas da comunidade, muita coisa mudou e para melhor. "Hoje não dá para imaginar o sofrimento que passávamos com essa rodovia que corta a comunidade, sem asfaltamento. Era um poeiral que prejudicava a saúde e a própria convencia da comunidade", destaca.
| Sabá, ladeado pela sua mãe, Rosilda, tradicional parteira da comunidade do Curiaú |
Uma das primeiras lutas de Sabá junto com outros líderes, como seu Rodão, foi trazer energia elétrica para o Curiaú e a colocação de um telefone público, que facilitava a comunicação dos moradores com outros locais do Estado e do Brasil. "A mais importante foi convencer aos órgãos públicos, que tinham atividades na comunidade em valorizar as pessoas locais para ocupar os cargos gerenciais e de comando, assim como outras atividades. E conseguimos", ressalta.
Outro dado destacado por Sabá é a transformação da comunidade em Área de Quilombo e os seus moradores em Quilombolas. "A mudança foi radical em todos os sentidos. Passamos a correr atrás dos benefícios, e estamos encontrando muitas dificuldades para alcançá-los. Hoje, estamos nos contradizendo em dizer 'éramos felizes e não sabíamos'.",
Semana da Consciência Negra
Na semana da Consciência Negra, na visão do líder da Comunidade do Curiaú, essa mudança foi muito proposital e boa. Pois muitos moradores que foram embora daqui, e depois voltaram, tinham preconceitos com a sua comunidade e com quem aqui ficou, lutando contra essas dificuldades. "Eles não queriam ser ‘pretos’, que hoje temos de chamar 'negros'; não queriam ser taxados como filhos do Curiaú, porque quem era daqui era 'negro'. Agora, depois dessa valorização do negro e a implantação de políticas públicas, parece que eles tomaram 'consciência negra' de sua realidade e viram que isso era positivo e estão voltando. E para falar mais seriamente, quem não queria ser negro, por ter um tom mais claro, hoje se identifica como negro", analisa Sabá.
Cota para negros
Com referência à cota para negros nas universidades, Sabá foi taxativo: "Eu gostei e apoio. Por quê? A nossa classe, por ser do meio rural e sem muitas oportunidades de se escolarizar, dificilmente tínhamos uma pessoa formado em um grau tão elevado, principalmente nas comunidades de Quilombo, então isso é uma vantagem. E no futuro, deverá acontecer de ter cota para "branco", pois deram pro negro, por que ele é a maioria e não tinha oportunidade e hoje quase todo mundo se identifica como negro. Os brancos vão precisar de cota para acessar os cursos superiores", especifica Sebastião.
| Sebastião Menezes também escreve sobre a realidade da sua comunidade |
Quando falamos com Sabá sobre a atual geração que ai está, se existe entre eles a mesma preocupação que ele teve 35 anos atrás, em procurar solução para os problemas da comunidade, ele fica taciturno e narra: "Amigo, eu fico aqui sentado, em frente de minha residência, dias e dias, observando os nossos filhos, netos e demais jovens, e concluo que, às vezes, você não valoriza o que tem, só dá prestígio do que tem quando ele está na mão dos outros. Nessa nossa nova juventude se identificam como negros, porque eles se originaram de uma outra geração centenárias e que trabalharam para valorizar essa raça e que hoje temos só duas negros e brancos. Eles estão vivendo e levando a vida, porque eles são Quilombolas e o que vir é positivo, como também pode ser negativo, dependendo do olhar de cada um", lamenta o novo guardião.
Continuando, Sabá explica que nenhum deles se preocupa com o futuro, eles estão vivendo o momento atual. "E quando você vem de um tempo longínquo, com as dificuldades que lá atrás encontrou, e hoje temos algumas facilidades, o que se observa é que não lutou para conseguir essas facilidades, e tem tudo na mão e na boca, não valoriza a luta do passado. E o que os guardiões fizeram e lutaram para manter, pois são eles que guardaram o passado, uma cultura, um costume, as terras que não se desfizeram, para podermos ter onde morar até hoje, e que essa geração não está cuidando de maneira positiva. Não estão pensando que no futuro as coisas vão ficar mais encrencadas, pois o número de moradores está crescendo e tem muita criança dentro deste Curiaú; que precisará ter uma profissão, moradia, e um projeto de vida e em manter uma cultura viva. Isso fizemos para eles e eles precisam agora fazer para os seus filhos e netos", finaliza.

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