"Onde doutor entra, eu também entro"
por Iranilde Lobato
A editoria Pioneirismo desta semana irá contar a história de um casal de desbravadores, que não tiveram temor de batalhar. Mesmo com profissões humildes, acreditaram no futuro, venceram e são exemplos de força e perseverança para os dez filhos, netos e bisnetos. Eles são: Antônio Pereira da Silva e Josefa Barbosa da Silva.
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| Com 54 anos de casados dona Josefa comenta: "Ele é um homem muito importante na minha vida" |
Contudo, infelizmente, há treze anos Antônio sofreu de AVC (Acidente Vascular Cerebral), popularmente conhecido como "derrame", e a narrativa de sua história foi contada por Josefa e a filha Girlene.
O início de tudo
A vida de Antônio e Josefa se cruzou em uma festa em São Pedro dos Bois (comunidade na Zona Rural), quando eles começaram a namorar. Porém a alegria do encontro teve um obstáculo, o genitor de Josefa adoeceu, e ela teve acompanhá-lo até Macapá. Mas a linha do destino dos dois já tinha começado a ser entrelaçada, e eles se reencontraram na capital e reataram o namoro, ficaram noivos e em 1958 se casaram. Estava fechado o primeiro ciclo de uma vida de luta e perseverança.
Um homem sábio
Antônio Pereira da Silva, 78 anos, nasceu na localidade de Maruanum em 1934. Um homem simples, mas com valores intensos que carrega até hoje em sua vida. Foi sinaleiro de trem, pedreiro, vigilante e se aposentou como Agente de Portaria do Governo do ex-Território Federal do Amapá. Ganhou prêmio e portaria de elogio na época do Coronel Janary Nunes, por ser um homem que nunca deixou de cumprir o que lhe era determinado. Pessoa honesta e trabalhadora, não se intimidava por não ser "doutor", e ensinou aos seus filhos exemplo inesquecível: "Onde doutor entra, eu também entro".
Veio para Macapá com sua mãe, Apolônia, depois de ter ficado viúva de Prudêncio, pai de Antônio. Foram morar próximo ao vilarejo do Curiaú. Pereira estudou pouco, mas como bom filho, ajudou sua genitora a criar seus irmãos menores trabalhando na roça, fazendo farinha e carvão. Até conseguir emprego na Indústria e Comercio de Minérios S/A (ICOMI), na construção da Estrada de Ferro que transportaria o minério de Manganês até o Porto de Santana, na época distrito de Macapá. "Seu serviço era contar os números de vagões que chegavam", comentou Josefa.
Seu Antônio saiu da ICOMI e passou a fazer "bico" (pequenos serviços), sempre querendo voltar para interior, mas não decidia mais sozinho, já estava casado e sua esposa nunca quis retornar. A roça para ela só a passeio. "Já que não pude realizar meus sonhos estudando, meus filhos iriam estudar. Eu não estudei, mas a família que estávamos construindo iria frequentar a escola. Eu queria dar para eles a oportunidade que não tivemos, então decidi que nós não íamos voltar para o interior", explica Josefa.
Antônio depois que se aposentou voltou para onde mais amava: o roçado. Este sempre foi seu sonho, ali tinha criação de animais, como bois, porco, etc. Ficava muito tempo no interior, um homem forte, conhecido por ser contador de causos. Sempre que tinha uma oportunidade narrava suas estórias de caboclo, num de seus contos chegou até a se agarrar com uma onça. Era o herói e o protagonista. Mas não era falante, "se ele pudesse ficar de boca fechada o dia inteiro, ele ficava. Meu pai era feliz no mato", disse a filha Girlene.
Uma mulher guerreira
Josefa Barbosa da Silva, 75 anos. Veio a Macapá para cuidar de seu pai, que estava acamado, na casa de uma irmã. Não teve oportunidade de estudar e para ajudar na renda de casa começou a fazer serviços de lavadeira. Determinada a viver na cidade, ela, que desde os cinco anos de idade fazia vestidinho de boneca, em São Pedro dos Bois, fez da brincadeira sua profissão. "Sempre costurei muito bem, me dediquei nessa área, tenho um ateliê, que costuro até hoje", relembra.
Antes de ter a sua casa, morou com a sogra: "Foi uma pessoa maravilhosa, muito boa para mim. Ela cuidava da cozinha e eu costurava, e até hoje eu não sei cozinhar, eu odeio cozinha. Eu tive uma sogra de ouro, quando eu saí da casa dela eu já podia pagar uma empregada. Foi a minha sogra que conseguiu o terreno que eu moro agora".
Dona Barbosa conseguiu com que todos os seus filhos se formassem. "Gostaria muito de ter estudado, se eu pudesse buscar tudo o que ficou pra trás eu buscaria, mas infelizmente é uma coisa que não se pode fazer", conta.
Uma História linda!
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| Antônio Pereira acompanhado da filha Girlene e do genro Ney |
Dona Barbosa e seu Pereira moravam numa casa pequena, tinha uma cozinha, sala e um quarto. Nesse espaço acomodavam os dez filhos. Josefa pensou em vender a casa, mesmo lavando e costurando para fora, a vida era muito difícil. Sua filha Girlene, quando saiu do primeiro emprego, usou a indenização para investir em um atelier para a mãe. Com as duas trabalhando juntas, os negócios prosperaram. "Era muito trabalho, em época de festa isso era uma loucura. Então para construir a casa passamos dois anos juntando material, quando levantamos a casa foi de uma vez", recorda Josefa.
Ela se emocionou ao falar de sua filha e parceira, Girlene. A cumplicidade entre as duas aconteceu desde a amamentação. "Quando eu dava mama, ela colocava o dedo na minha boca e olhava nos meus olhos, e a sensação que eu tinha que ela me dizia: 'mamãe quando eu crescer eu vou lhe dar tudo que deseja'. Eu sonhava em ter uma casa grande, a minha energia passava para ela e a minha necessidade de vencer. Tudo que eu tenho , isso aqui foi ela que fez, está aqui a prova".
Com 54 anos de casados dona Josefa comenta: "Ele é um homem muito importante na minha vida, um esposo que sempre me deu valor, ele dizia eu era mulher da sua vida, hoje eu cuido dele". Para Girlene o seu amor pelos pais é muito grande, "Tenho um carinho em especial pelo meu pai, a mamãe é ciumenta, mas é uma mulher muito especial, muito abençoada, uma matriarca".



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