terça-feira, 5 de março de 2013

Assassinato de empresário ainda envolve mistérios


por Reinaldo Coelho


O empresário Hedival Fernando Coelho de Queiroz
durante a festa de aniversário antes do seu assassinato
No sábado, 23 de fevereiro, mais um brutal assassinato foi registrado nos anais da Segurança Pública Amapaense. A vítima, Hedival Fernando Coelho de Queiroz, conhecido por Fernando, foi executado por volta das 4h e 50min, com cinco tiros. O crime aconteceu no condomínio onde Fernando residia com a família, localizado na Avenida Marcílio Dias, no bairro do Laguinho. 

Fernando era sócio minoritário da empresa de vigilância LMS e atuava no setor trabalhista; era o pré-posto da LMS na justiça do trabalho.

De acordo com um laudo preliminar da Polícia Técnico-Científico (Politec), foram contabilizadas cinco perfurações na vítima: três na região do tórax, um na nuca, cujo projétil se alojou no olho, e um no ombro. Vizinhos disseram que ouviram pelo menos sete disparos.

Consta no Centro Integrado de Operações e Defesa Social (Ciodes) o registro de que a vítima chegou a efetuar uma ligação para o 190 do CIODES, informando que estava sendo perseguido e ameaçado de morte. 

Na gravação, que é peça no inquérito, o empresário informa que um motoqueiro havia abalroado em seu veículo na esquina de sua casa, e que a pessoa havia sacado uma arma. Sem saber se era de verdade ou de brinquedo, Fernando chegou a dizer para o atendente do disk denúncia: "Ele está parado lá no fim da rua com um laser na minha direção dizendo que vai me matar".

Em menos de três minutos, uma viatura do 6º Batalhão da Polícia Militar (BPM) chegou ao local e já encontrou Fernando morto com vários tiros pelo corpo.

Investigação
A esposa da vítima - que o acompanhava na madrugada do crime - prestou depoimento na delegacia sobre os últimos momentos do casal. A esposa - uma policial militar - disse que o empresário estava com uma camisa branca em uma festa de aniversário no bairro do Laguinho. Depois que Fernando chegou em sua residência, havia trocado a camisa e vestido um abadá. 

O inquérito é presidido pela delegada Odanete Bionde, da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Pessoa (Decipe), que se disse intrigada com a ligação feita ao Ciodes, segundos antes dos disparos, e a troca de roupas que o empresário fez antes de ser assassinado.

Ela também afirmou que os parentes de Fernando relataram que ele jamais sofrera qualquer ameaça de morte por telefone. As hipóteses levantadas são vingança, encomenda, tráfico de drogas ou briga de trânsito, entretanto a Delegada afirma que a mais provável foi a discussão ocorrida no trânsito.

Prisões
Nesta quinta-feira (28), três homens foram presos suspeitos de envolvimento no assassinato de Fernando Queiroz. São eles:
Andrevaldo Souza Francisco, o "Pimpolho"; Magno Barbosa de Souza;
e Odemar de Jesus Santos Pereira, o "Xodó"

Odemar de Jesus Santos Pereira, 29 anos, o "Xodó", cunhado do "Pimpolho" . Na casa dele foram encontrados mais de R$ 6 mil em dinheiro. Desempregado, Xodó afirmou que os valores eram referentes a uma indenização do emprego que ele deixou em dezembro do ano passado.

Magno Barbosa de Souza, 28 anos, que é primo do Pimpolho e Andrevaldo Souza Francisco, o "Pimpolho", 22 anos, que chegou à sede da Decipe no final da tarde. Ele já estava com a prisão temporária decretada pela Justiça do Estado. 

Entrevista
A delegada Odanete Bionde disse aos jornalistas os quais cobrem o caso que a investigação do assassinato de Fernando Queiroz começou logo que foram acionados pelo Ciods. "Chegando ao local, verificamos ser improvável que não tenham escutado o barulho dos disparos. Procuramos trabalhar na hipótese de que alguém tinha visto ou ouvido alguma coisa. Passamos a checar o trajeto que ele sempre fazia. Identificamos na rua General Rondon um local que possui câmeras, e que, aliás, foram fundamentais para descobrir que a partir daquele ponto ele começou a ser seguido".
Carro utilizado no assassinato

Odanete informou ainda que no decorrer das investigações, recebera informações de uma testemunha que ainda está sendo mantida em sigilo, que a morte aconteceu por causa de um acidente no trânsito. Essa declaração conduziu a investigação para hipótese do crime ser por desentendimento no trânsito, motivo fútil.

Sem ameaça
Os familiares de Fernando que compareceram a delegacia para prestar depoimento descartaram a hipótese de que a vítima estivesse sendo ameaçada de morte por alguém. Um depoimento que tem gerado desconfiança na delegada é o da esposa de Fernando. Durante seu depoimento quando narrava os acontecimentos antes do crime, ela disse que Fernando chegou em casa, subiu para o apartamento, trocou de camisa e desceu e que ela não ouvira mais nada.

Contradição
Porém, para a delegada Odanete Biondi, no primeiro depoimento ela contou uma história que nada tinha a ver com os fatos levantados pela polícia. Ela disse que o marido deu a camisa branca para ela, subiu, ele ficou no portão, e nunca mais subiu. Só que a polícia já tinha obtido informações de que ela sabia de mais coisa. Isso ficou demonstrado durante as investigações. A delegada disse aos jornalistas que já sabia que ela estava mentindo, pelas informações já contidas no inquérito. "Deixei ela pensar que estávamos acreditando na sua versão".

A delegada conta que passou a trabalhar para identificar nas filmagens quem eram as pessoas que tiveram acesso ao local, são os três que estão presos e reconhecidos pelas testemunhas. "Temos uma testemunha que viu alguém sair com arma de dentro do condomínio depois dos tiros. A testemunha foi contundente ao identificar: 'foi ele, não tenho dúvida nenhuma'. Existem pessoas que viram um carro da marca Fiat, modelo Pálio chegando para apanhar o "Pimpolho" na frente do condomínio. Quando ele voltou, falou: Morreu, morreu... para os dois comparsas que estão presos junto com ele".

A delegada disse que os presos já estão no IAPEN, porém negam tudo. A polícia fará uma reconstituição do crime para definir a culpabilidade de cada um. As prisões temporárias terão duração de 30 dias, podendo ser prorrogado por mais 30 dias.

Entretanto, Andrevaldo Souza confirma que a briga foi com ele. "Ele saiu do posto de gasolina, quando o Fernando deu uma freada brusca e ele teve que frear sua moto quase caindo. Então, ele seguiu Fernando para tomar satisfação. Chegando a frente do condomínio, o empresário desceu do carro armado e lhe ofendeu, segundo o Pimpolho e de acordo com a segunda versão da esposa. Então ele retornou para a moto que ficou no fim da Marcílio Dias, o que coincide com o relato de Fernando ao plantonista do Ciods, versão que Pimpolho nega".

A delegada reforça que a esposa da vítima e o principal acusado dão a mesma versão de que o empresário Fernando, que estava muito embriagado, se dirigiu armado até onde estava Pimpolho. "Fernando deu chute na moto, se afasta e volta para o condomínio, entra de ré com o seu carro e sobe para o apartamento, na primeira versão da esposa, ela diz que não sabe como ele colocou o carro de ré e que ele não subiu ao apartamento. Mas ela mente nesse ponto do depoimento, pois já está confirmado pela polícia que ele subiu. No segundo depoimento ela confirmou a verdade. Eles brigaram e ela tentou impedir que ele voltasse e ele desceu ainda com a roupa da festa".
Condomínio onde residia o empresário Fernando e sua família

Durante a entrevista, a delegada afirma que "uma testemunha escutou quando a vítima disse: 'Eu não sei como não pego minha arma?'. Mas se ele estava na frente com a arma. Porque agora de repente ele deixou a arma no carro?", questiona-se a delegada. 

Continuando, ela conta que a vítima começa a descer a escada, porém retorna e pede sua bolsa e chave do carro, tira a blusa e veste o abadá que estava no sofá. "Segundo a esposa, ela foi atrás dele até o portão. Quando ela chega, um carro que estava estacionado com um homem que ela reconheceu como sendo o "Pimpolho" que lhe diz: 'Volta, se não eu te mato'. Ela voltou para o apartamento e logo depois escutou os tiros que matou Fernando. Então ligou para o sargento dono do condomínio. 'Vem me pegar aqui, que pegaram o Fernando'; porém, o sargento diz que ela falou: 'Vem me pegar aqui que o Fernando quer me matar', são pontos contraditórios do depoimento dela e das testemunhas, que agora eu vou trabalhar em cima. Irei fazer acareação entre os dois". 

Quanto aos outros dois acusados, que deram suporte ao "Pimpolho", Magno e Ademar. "O Ademar chegou com carro Palio e uma testemunha viu o Pimpolho entrado no carro com uma arma na mão, então eles sabiam do poderia acontecer, eles negam".

Delegada Odanete Bionde
A delegada Odanete Bionde conclui que essa é a versão da esposa da vítima: Uma briga de trânsito que culminou com a morte de Fernando pelas mãos do "Pimpolho". "A esposa da vítima inventou uma história do princípio ao fim do seu depoimento. Ela mentiu totalmente. Segundo ela, só falou isso porque estava com medo de morrer. Estou fazendo várias diligencias dentro do inquérito para um possível indiciamento dela".

Um dos questionamentos da delegada é que a esposa sendo Policial Militar, não contou logo no primeiro depoimento a verdade, pois ela faz parte de uma instituição: "POLICIA". "Eu lhe disse, olha eu te dei dois dias para contares a verdadeira versão do caso, pois eu já sabia da verdade, que ela estava escondendo, acobertando um bandido em detrimento do seu próprio esposo". 

As investigações não estão concluídas; e de acordo com Odanete Bionde ainda tem muita coisa a ser esclarecida.

 

Transcrição da Ligação do Fernando a Ciods
Ligação feita no dia 23 de fevereiro de 2013 à Central de Atendimento do CIODES, às 04h48min58s.

Soldado Eduardo - CIODES Emergência, Soldado Eduardo, posso ajudar?

Fernando - Soldado Eduardo, tem um rapaz que me “abarrou” aqui no canto de casa, e ele tá com um lazer, me ameaçou de morte, ele tá com uma arma aqui

S - Ele tá com quê, senhor? Hã?

F - Aqui no canto do Sargento Irã, na Marcílio Dias

S - Sargento Irã?

F - Na Marcílio Dias

S - Me dê só, Marcílio Dias e o número?

F - 182

S - Laguinho é?

F - Laguinho, laguinho. (Silêncio) Tem como mandar uma viatura aqui comigo?

S - O senhor é quem?

F - Fernando!

S - Sim, seu Fernando, o que é que tá acontecendo aí? O senhor falou que está sendo ameaçado...

F - Um rapaz numa moto aqui...

S - Quem? Quem, senhor?

F - Não sei quem é, não sei quem é. Ele tá lá no final da rua aqui, com um lazer, e e uma não sei se é de brinquedo ou se é de verdade.

S - O senhor conseguiu ver a placa da moto? Ele tá aí perto?

F - Não, não vi. Ele tá láaa pro final da marcílio dias, é uma baixada aqui.

S - Aí não tá mais no local?

F - Ele tá lá, com um lazer me apontando pra cá. Ele falou que vai me pegar e vai me matar.
...................... (silêncio)

S - Ok, seu Fernando, é só aguardar que eu já cadastrei a ocorrência, ok?

F - Tá, é Marcílio Dias, 182.

S - Tá ok, senhor, tá ok. Bom Dia. 

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