sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A “AMERICANIZAÇÃO” DA SAÚDE E DO ENSINO MÉDICO.

O capital internacional e globalizado – principal sustentáculo da globalização da economia - atinge diretamente a formação do estudante e a atuação do profissional de Medicina. A proposta atual do projeto “Mais Médicos”, dos Ministérios da Saúde e Educação abre espaço para vasta discussão sobre o assunto.
Antes o acadêmico de Medicina tinha sua formação pautada na Deontologia Médica (direitos/deveres e ética médica), no aprendizado teórico-prático das disciplinas clínicas, no estágio obrigatório nas quatro especialidades básicas ( Clínica Médica, Gineco-Obstetrícia, Pediatria e Cirurgia) e na apresentação final de um TCC. No meu caso, fiz o estágio rotatório nessas especialidades na Santa Casa de Misericórdia do Pará, em 1984, pois a UFPa não tinha Hospital Universitário na época.
O modelo de ensino biomédico e hospitalocêntrico importado e imposto pelos norte-americanos (Relatório Flexner, de 1910, financiado pela Fundação Rockfeller), que fragmenta a formação, visando formar “especialistas”, foi incorporado no currículo das universidades em todo o mundo, induzindo os pretensos médicos a direcionar o ensino-aprendizagem a uma especialidade e a utilização de equipamentos ultra-sofisticados e medicamentos sintéticos de última geração.
Outra grande “invenção” do mercado internacional norte-americano e alemão, baseado no Relatório Flexner, foi a transformação dos médicos em instrumentos robotizados e dependentes de uma máquina econômica e da indústria multinacional de equipamentos e medicamentos. Apesar de criticar o modelo americano do final do século XIX, seu autor disse que já não eram necessárias somente as teorias dos livros e bibliotecas e a convivência com a comunidade. Surge, assim, as várias sub-especialidades médicas hoje existentes. Vale mais ficar dentro de um hospital operando máquinas e prescrevendo remédios, do que o contato com a sociedade e suas estruturas insalubres.
A prova maior dessa imposição nos modelos médicos de formação é a quase inexistência de neo-formados norte-americanos especialistas em Clínica Médica, Toco-ginecologia e Pediatria. Hoje, nos EUA e na Europa, a Clínica Geral é exercida por sulamericanos, entre eles os brasileiros. Para essa tendência mercantilista e elitista da formação já não comporta mais o Médico Generalista, de formação eminentemente clínica. Porém, contraditoriamente, é esse o perfil necessário para a maioria dos municípios interioranos brasileiros e amazônicos, entre eles o Amapá.
Para garantir ainda mais essa globalização mercadológica do processo saúde-doença, com interesses puramente econômicos, a “doença é encarada como um processo natural, biológico. O social, o coletivo, o público e a comunidade não contam para o ensino médico e não são considerados implicados no processo de saúde-doença” ( Relatório Flexner). Surge a “Medicina baseada em evidências”, outra invenção neocolonialista. Tudo o que não era comprovado “cientificamente” ou não adotava a metodologia de Claude Bernard, deverá ser descartada da formação do Médico ou rejeitada da sua prescrição. Daí porque “as terapêuticas não convencionais - como o fisiomedicalismo ou botanomedicalismo - precursores da Fitoterapia”, foram rejeitados.
Com essa “lavagem cerebral” sendo colocada diuturnamente nas salas das Universidades, levou os acadêmicos a não terem interesse na formação generalista. A inovação é a Medicina Nuclear, a Nanotecnologia, a Informática e a Robótica, que são puramente mecanizadas e pouco humanistas e sociais.
Tudo isso explica o porquê do SUS não funcionar; o porquê das políticas públicas não serem efetivadas; porque os investimentos na saúde preventiva não serem relevantes; os médicos não vão para o interior por falta de um preparo adequado para enfrentar as questões básicas de saúde, mesmo com um PSF baseado no SUS.
Formar Médicos humanistas e devidamente capacitados para lidar com a realidade loco-regional, com particularidades epidemiológicas diferenciadas é um desafio para as Universidades amazônicas, sem a importação de modelos que já provaram estarem longe de resolver as nossas questões de saúde. (JARBAS DE ATAÍDE, Médico. 10.08.2013)


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