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| PACIENTE MORRE NO CHÃO DO HE |
SEM LEITOS
Paciente morre socorrido no chão do Hospital de Emergências
Pacientes amontoados nos corredores, falta de equipamentos e
profissionais foram alguns problemas encontrados
JOSÉ MARQUES JARDIM
DA EDITORIA
O Conselho Regional de
Medicina (CRM) e o Sindicato dos Médicos do Amapá (Sindmed/Ap) confirmaram esta
semana o que o Tribuna Amapaense vem denunciando desde abril, com riqueza de
informações e detalhes. A saúde na rede pública do Estado já passou da condição
de falência e é uma vergonha para o resto do País. Na terça-feira(30), uma
comissão formada pelas duas representações da categoria chegou de surpresa ao
Hospital de Emergências e flagraram situações deploráveis aos quais estavam submetidos
os pacientes. Corredores lotados de leitos improvisados em bancos e cadeiras,
onde era para existir apenas o setor de espera pelas medicações. Gente
acomodada no chão, onde lençóis e pedaços de espuma são transformados em camas
por conta da necessidade. O restante foi sujeira, infiltração e improviso dos
próprios médicos e enfermeiros para garantirem o atendimento a quem não tem
condição de procurar socorro fora do sistema estadual.
O fato mais chocante,
de acordo com os médicos que realizaram a vistoria, foi ver um homem ser
atendido no chão, por não haver sequer um leito de emergência. Todo o socorro
prestado pela equipe foi documentado em imagens. Medicações para reanimação
foram aplicadas, assim como a massagem peitoral e a respiração mecânica. Nada
adiantou. O paciente morreu em seguida no chão da sala de emergências. Um
desconhecido como tantos outros que têm se deparado com o descaso no dia a dia.
O atendimento precário é notado durante toda a inspeção, assim como a falta de
equipamentos. Para a aplicação de soro, as bolsas são amarradas de qualquer
jeito, da mesma forma que estão os pacientes nos corredores superlotados.
O médico Dorimar
Barbosa, presidente do Conselho Regional de Medicina explicou que a ação está
ligada aos protestos nacionais da categoria, que repudiam o programa intitulado
pelo governo federal de “Mais Médicos”. Profissionais de todo o País vêm
participando de atos semanais desde que a presidente Dilma Rousseff anunciou a
expansão do número de profissionais de medicina no Brasil. O programa tem
sofrido críticas severas. Para os médicos, não adianta expandir os postos de
trabalho e sim dar condições de atendimento para a estrutura que já existe. “Do
que adianta contratar mais profissionais se a estrutura que eles vão encontrar
é esta que estamos presenciando aqui hoje”, disse Barbosa referindo-se ao Hospital
de Emergências.
Já o vice-presidente
do Sindmed-AP, Joel Brito, classificou a situação do hospital como desumana.
“Isso aqui mais parece um hospital de guerra. Que condições de trabalho estes
profissionais encontram para lidar com vidas humanas? Pessoas que procuram o
hospital em busca de alívio e cura para seus problemas físicos”, disse. A morte
do paciente colocado no chão para receber os procedimentos de emergência
confirma a declaração de Brito. O perfil da população que hoje procura o
Hospital de Emergências, maior centro de atendimento do Estado, é do cidadão de
baixa renda, que não dispõe de recursos para buscar os consultórios dos planos
de saúde e em seguida as farmácias para comprar a medicação receitada. As
pessoas se sujeitam a corredores transformados em enfermarias e bancos de
madeira usados como leitos.
A precariedade da
estrutura é confirmada pelo diretor do hospital, o enfermeiro Regiclaudo Silva.
Segundo ele, apenas quatro leitos funcionam na Unidade de Tratamento
Semi-Intensiva, ocupada há tempos. Diante das circunstâncias, ele tentou
justificar a morte do paciente atendido no chão como “medida necessária”. Para
Regiclaudo, “o atendimento tem que ser feito de qualquer maneira a todo
paciente que chega”. A afirmação pode conter um quê de razão, mas não de
humanidade. O enfermeiro criticou a ação do CRM e do Sindmed
declarando se tratar de um ato político. Para ele, as fiscalizações deviam ser
mais atentas ao comportamento dos médicos e não ao que o governo tem hoje a
oferecer como condição de trabalho. Longe do posicionamento do diretor, o homem
morto no chão do hospital será apenas mais um número no livro que registra os
óbitos do HE.
Enquanto Regiclaudo
Silva defendia sua própria bandeira política, o CRM se deparou com mais uma
falha grave, a falta de profissionais e equipamentos na UTI semi-intensiva. O
presidente do Conselho declarou na coletiva dada aos jornalistas na
quarta-feira (31), que "a situação da saúde pública oferecida no Amapá é
algo degradante”. E que “se esta estrutura não funciona, coloca a população em
risco".
Na inspeção feita à
Unidade Básica de Saúde Lélio Silva, no bairro Buritizal, zona Sul da cidade,
mais problemas, começando pela falta de limpeza. Mas não foi só isso. A caixa
d´água que serve pacientes e funcionários foi encontrada sem tampa, com grande
possibilidade de contaminação. Ao redor da UBS, o mato tomou conta do cenário.
De acordo com Dorimar Barbosa, tudo que foi fotografado e filmado será enviado
para o Ministério Público Estadual e Federal, acompanhado de um relatório.
Ao tomar conhecimento
da inspeção, a Secretaria de Estado da Saúde divulgou nota se apoiando na velha
prática de colocar a culpa na administração passada, o que vem sendo feito
desde o início do governo de Camilo Capiberibe, apesar de já estar à frente da
gestão há quase três anos sem que nada fosse mudado na saúde pública. Contratos
emergenciais usados no lugar de licitações são investigados pela Polícia Civil
e Ministério Público, resultando no indiciamento de dois ex-secretários e
funcionários. A tentativa de moralizar o processo de licitação, o que
aconteceria com a utilização do programa Bionexo resultou na exoneração do
secretário Evandro Gama. Redes nacionais de televisão divulgaram por divers
vezes a inoperância da gestão de Camilo Capiberibe na área da saúde. Unidades
de saúde no interior do Estado, funcionando sem qualquer condição. Faltam
medicações básicas e até energia elétrica, caso de Ferreira Gomes, onde o
médico atende os pacientes às escuras.
Em Oiapoque, o socorro
aos pacientes é feito pelo Corpo de Bombeiros na carroceria de caminhonetes. No
começo de julho, um moto-taxista acabou morrendo quando uma ambulância
odontológica capotou na estrada, com destino à Macapá. O veículo foi a única
alternativa encontrada na cidade para transportar o paciente. Em uma vistoria
feita na unidade de saúde, promotores do Ministério Público encontraram
medicamentos com data de validade vencida e a ambulância que atendia a
população, coberta de limo nos fundos do terreno da UBS, que tem apenas um
médico sem qualquer condição de realizar sequer exames básicos. Pouco antes
disso, a secretária de saúde Olinda Consuelo esteve em Oiapoque para prometer à
população quetudo seria resolvido. Pelo contrário, nada aconteceu.
A edição da semana
passada do “Tribuna Amapaense” detalhou as investigações feitas por comissões
do Ministério Público na SESA. Uma delas sobre os contratos emergenciais que
pagam empresas simpáticas ao governo. A outra trata de um tomógrafo de R$ 500
mil, encontrado em uma sala usada como depósito na secretaria. Enquanto meio
milhão de reais são jogados fora, o laboratório do Hospital das Clínicas
Alberto Lima deixou de atender até exames básicos aos pacientes.







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