sexta-feira, 2 de agosto de 2013

ESPECIAL

PACIENTE MORRE NO CHÃO DO HE
SEM LEITOS
Paciente morre socorrido no chão do Hospital de Emergências

Pacientes amontoados nos corredores, falta de equipamentos e profissionais foram alguns problemas encontrados

JOSÉ MARQUES JARDIM
DA EDITORIA


O Conselho Regional de Medicina (CRM) e o Sindicato dos Médicos do Amapá (Sindmed/Ap) confirmaram esta semana o que o Tribuna Amapaense vem denunciando desde abril, com riqueza de informações e detalhes. A saúde na rede pública do Estado já passou da condição de falência e é uma vergonha para o resto do País. Na terça-feira(30), uma comissão formada pelas duas representações da categoria chegou de surpresa ao Hospital de Emergências e flagraram situações deploráveis aos quais estavam submetidos os pacientes. Corredores lotados de leitos improvisados em bancos e cadeiras, onde era para existir apenas o setor de espera pelas medicações. Gente acomodada no chão, onde lençóis e pedaços de espuma são transformados em camas por conta da necessidade. O restante foi sujeira, infiltração e improviso dos próprios médicos e enfermeiros para garantirem o atendimento a quem não tem condição de procurar socorro fora do sistema estadual.

O fato mais chocante, de acordo com os médicos que realizaram a vistoria, foi ver um homem ser atendido no chão, por não haver sequer um leito de emergência. Todo o socorro prestado pela equipe foi documentado em imagens. Medicações para reanimação foram aplicadas, assim como a massagem peitoral e a respiração mecânica. Nada adiantou. O paciente morreu em seguida no chão da sala de emergências. Um desconhecido como tantos outros que têm se deparado com o descaso no dia a dia. O atendimento precário é notado durante toda a inspeção, assim como a falta de equipamentos. Para a aplicação de soro, as bolsas são amarradas de qualquer jeito, da mesma forma que estão os pacientes nos corredores superlotados.

O médico Dorimar Barbosa, presidente do Conselho Regional de Medicina explicou que a ação está ligada aos protestos nacionais da categoria, que repudiam o programa intitulado pelo governo federal de “Mais Médicos”. Profissionais de todo o País vêm participando de atos semanais desde que a presidente Dilma Rousseff anunciou a expansão do número de profissionais de medicina no Brasil. O programa tem sofrido críticas severas. Para os médicos, não adianta expandir os postos de trabalho e sim dar condições de atendimento para a estrutura que já existe. “Do que adianta contratar mais profissionais se a estrutura que eles vão encontrar é esta que estamos presenciando aqui hoje”, disse Barbosa referindo-se ao Hospital de Emergências.

Já o vice-presidente do Sindmed-AP, Joel Brito, classificou a situação do hospital como desumana. “Isso aqui mais parece um hospital de guerra. Que condições de trabalho estes profissionais encontram para lidar com vidas humanas? Pessoas que procuram o hospital em busca de alívio e cura para seus problemas físicos”, disse. A morte do paciente colocado no chão para receber os procedimentos de emergência confirma a declaração de Brito. O perfil da população que hoje procura o Hospital de Emergências, maior centro de atendimento do Estado, é do cidadão de baixa renda, que não dispõe de recursos para buscar os consultórios dos planos de saúde e em seguida as farmácias para comprar a medicação receitada. As pessoas se sujeitam a corredores transformados em enfermarias e bancos de madeira usados como leitos.


A precariedade da estrutura é confirmada pelo diretor do hospital, o enfermeiro Regiclaudo Silva. Segundo ele, apenas quatro leitos funcionam na Unidade de Tratamento Semi-Intensiva, ocupada há tempos. Diante das circunstâncias, ele tentou justificar a morte do paciente atendido no chão como “medida necessária”. Para Regiclaudo, “o atendimento tem que ser feito de qualquer maneira a todo paciente que chega”. A afirmação pode conter um quê de razão, mas não de humanidade.  O enfermeiro criticou a ação do CRM e do Sindmed declarando se tratar de um ato político. Para ele, as fiscalizações deviam ser mais atentas ao comportamento dos médicos e não ao que o governo tem hoje a oferecer como condição de trabalho. Longe do posicionamento do diretor, o homem morto no chão do hospital será apenas mais um número no livro que registra os óbitos do HE.

Enquanto Regiclaudo Silva defendia sua própria bandeira política, o CRM se deparou com mais uma falha grave, a falta de profissionais e equipamentos na UTI semi-intensiva. O presidente do Conselho declarou na coletiva dada aos jornalistas na quarta-feira (31), que "a situação da saúde pública oferecida no Amapá é algo degradante”. E que “se esta estrutura não funciona, coloca a população em risco".

Na inspeção feita à Unidade Básica de Saúde Lélio Silva, no bairro Buritizal, zona Sul da cidade, mais problemas, começando pela falta de limpeza. Mas não foi só isso. A caixa d´água que serve pacientes e funcionários foi encontrada sem tampa, com grande possibilidade de contaminação. Ao redor da UBS, o mato tomou conta do cenário. De acordo com Dorimar Barbosa, tudo que foi fotografado e filmado será enviado para o Ministério Público Estadual e Federal, acompanhado de um relatório.

Ao tomar conhecimento da inspeção, a Secretaria de Estado da Saúde divulgou nota se apoiando na velha prática de colocar a culpa na administração passada, o que vem sendo feito desde o início do governo de Camilo Capiberibe, apesar de já estar à frente da gestão há quase três anos sem que nada fosse mudado na saúde pública. Contratos emergenciais usados no lugar de licitações são investigados pela Polícia Civil e Ministério Público, resultando no indiciamento de dois ex-secretários e funcionários. A tentativa de moralizar o processo de licitação, o que aconteceria com a utilização do programa Bionexo resultou na exoneração do secretário Evandro Gama. Redes nacionais de televisão divulgaram por divers vezes a inoperância da gestão de Camilo Capiberibe na área da saúde. Unidades de saúde no interior do Estado, funcionando sem qualquer condição. Faltam medicações básicas e até energia elétrica, caso de Ferreira Gomes, onde o médico atende os pacientes às escuras.

Em Oiapoque, o socorro aos pacientes é feito pelo Corpo de Bombeiros na carroceria de caminhonetes. No começo de julho, um moto-taxista acabou morrendo quando uma ambulância odontológica capotou na estrada, com destino à Macapá. O veículo foi a única alternativa encontrada na cidade para transportar o paciente. Em uma vistoria feita na unidade de saúde, promotores do Ministério Público encontraram medicamentos com data de validade vencida e a ambulância que atendia a população, coberta de limo nos fundos do terreno da UBS, que tem apenas um médico sem qualquer condição de realizar sequer exames básicos. Pouco antes disso, a secretária de saúde Olinda Consuelo esteve em Oiapoque para prometer à população quetudo seria resolvido. Pelo contrário, nada aconteceu.

A edição da semana passada do “Tribuna Amapaense” detalhou as investigações feitas por comissões do Ministério Público na SESA. Uma delas sobre os contratos emergenciais que pagam empresas simpáticas ao governo. A outra trata de um tomógrafo de R$ 500 mil, encontrado em uma sala usada como depósito na secretaria. Enquanto meio milhão de reais são jogados fora, o laboratório do Hospital das Clínicas Alberto Lima deixou de atender até exames básicos aos pacientes.



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