sexta-feira, 20 de setembro de 2013



A POLUIÇÃO E A SAÚDE 
DA "LAGOA DOS ÍNDIOS"




Antes ela era o habitat natural de cotias, pacas, tamanduás, jabotis e bandos de macacos, que nos finais de tarde eram vistos nas ruelas de terra de chão. Hoje, só se vê os pássaros (bem-te-vis, suis, sabiás, etc), que nas manhas nos acordam com seus cantos melodiosos. Os roedores, répteis e primatas se foram. Chegaram os invasores.


Isso mostra a grave degradação e empobrecimento de alimento na área, hoje marcada por acúmulo de lixo e resíduos jogados na lagoa e nos arredores das casas. Antes da urbanização várias famílias se alimentavam com os peixes pescados nas águas da lagoa. Hoje, o risco desse alimento é a contaminação da fauna e flora, doenças de veiculação hídrica e poluição, constatada por estudos recentes de pesquisadores na área.
Acompanhando a desarmonia, a população causadora dos problemas sofre as conseqüencias: doenças como Malária, Dengue, Diarréias e Parasitoses, provocadas pela água do lençol freático contaminado pelos esgotos e fossas. Desde o Conj. Buriti até o ramal do Km 09 não existe água encanada e tratada e muito menos esgoto sanitário. A água vem de poços artesianos próprios e sistemas isolados. A única água que recebe algum tratamento é a do conjunto Cabralzinho. 
Mas vem a pergunta: de onde vem água que os habitantes consomem? A resposta é obvia: da Ressaca Sá Comprido ( Alvorada) e da "Lagoa dos Índios", que agora está passando por assoreamento, ocupação humana desordenada, recebendo resíduos orgânicos das casas e dos imóveis comerciais. Um dos mais graves é a contaminação pelo  metal pesado chumbo do óleo diesel e gasolina dos postos ( seis ao longo da Duca Serra), que estão há menos de 50 metros da área de proteção (APP), todos com licença fornecidas pelo IMAP e SEMA. O chumbo se deposita definitivamente no corpo, cuja intoxicação causa doenças neurológicas. 


Em estudo recente, Costa, J.S.  et al ( 2012), divulgaram estudo sobre a analise físico-química  e determinação de metais na Lagoa do Índios, cujos resultados "fora dos padrões CONAMA indicam uma perturbação na dinâmica natural da Lagoa, principalmente para Ph e oxigênio dissolvido(OD) que é indicador do grau de autodepuração do corpo d'água em relação a matéria orgânica residual."
Tal problemática foi tese de Mestrado em Direito Ambiental e Políticas Públicas (UNIFAP) da Bacharel em Direito Risolete N .O. Araujo, que discorrendo sobre os impactos do desenvolvimento sobre o meio ambiente, levantou as várias ações antrópicas na "Lagoa dos Índios" interferindo no meio natural, artificial e cultural, neste último incluindo os aspectos histórico, artístico, arqueológico, paisagístico e turístico. Em " consequência desse crescimento demográfico, a identidade da comunidade foi sendo modificada, ou seja, o que inicialmente era de características indígena e negra, com uso e preservação, após a instalação de empresas, passou a ser uma área onde já se enxerga a degradação ambiental."
Segundo TOSTES (2006), citado pela mestranda, a "falta de planejamento institucional para o uso da área de ressaca" e também a falta de manifestação da  comunidade local levam ao agravamento progressivo desses impactos, ou seja, o estudo  conclui, "a área da ressaca Lagoa dos Índios está abandonada pelo poder público".
E nós moradores, o que estamos fazendo? Moramos há anos e talvez nem percebamos essa situação. Como as Universidades, que dão aula de Direito, Urbanismo, Gestão Ambiental e Saúde, estão encarando essa situação? Qual é a posição das empresas privadas, dos órgãos públicos e das igrejas, para despoluir ou evitar a contaminação do manancial de água que abastece a todos? 
Diante dessa situação prevalecem os interesses particulares, econômicos e políticos. E permanecemos calados porque não vemos a olho nu os vírus, bactérias, amebas e coliformes fecais na água que bebemos e os poluentes do ar que respiramos. Mas a poluição sonora (dos motores e buzinas) e a poluição visual dos engarrafamentos são audíveis e visíveis. O sossego, a calma e o silêncio relaxantes não existem mais. 
Os muros altos, as grades e cercas elétricas, as câmaras nos portões mostram que  a violência é iminente. Ninguém está totalmente sadio e seguro na antes bucólica "Lagoa dos Índios". A favelização e invasão da área se contrastam com as casas luxuosas de moradores ilustres: juízes, delegados, procuradores, políticos, médicos, ex-prefeitos e ex-governador. Todos bebem a mesma água e respiram o mesmo ar. Somos iguais quando recebemos da natureza agredida a reação por nossas inconseqüentes, imperceptíveis e cotidianas agressões. 

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