sexta-feira, 27 de setembro de 2013

saúde em foco

EXTINÇÃO DE 
PLANTAS MEDICINAIS E MUDANÇAS CLIMÁTICAS

No artigo "Saber Tradicional no Documento "Saúde Amazônia", enfoquei o pouco caso e investimento dos governos em políticas que valorizem ou utilizem a biodiversidade na saúde humana. Várias ONGs internacionais sabem e monitoram esses dados mais que nossas instituições nacionais, como a Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN-CSE). Os "indicadores avaliam a tendência da situação de espécies selvagens usadas para...medicação", que podem estar sofrendo maior risco de extinção. (WWF-Brasil/Clovis Miranda). 

Um dos estudos que mostra à influência das mudanças climáticas no seres vivos foi desenvolvido pelo inglês Alastair Fitter e seu pai Richard, publicado na Revista Science. Eles documentaram que a floração de centenas de plantas na Inglaterra afetadas pela temperatura do ambiente, interferindo no meio vegetal daquela região. Assim a oscilação excessiva  da temperaturas altera o seu metabolismo, o que pode influenciar o seu desenvolvimento, crescimento e perpetuação.
Se isso ocorre em países frios e com pouca cobertura de florestas e matas nativas, como a Inglaterra, o que dizer da Amazônia com clima quente e úmido e possuidor da maior floresta tropical do planeta? 

Somos agraciados com um "vasto reservatório de espécies vegetais permanentes, que constitui cerca de 95% do território amapaense, fazendo parte  da imensa floresta amazônica, cujo ecossistema equatorial preserva a maior biodiversidade do planeta". (ATAÍDE, J.C., 2006). Possuímos 20% das espécies vegetais do planeta (cerca de 50.000), 30% do estoque genético da Terra e guardamos um vasto patrimônio com potencial alimentício, farmacêutico e medicinal para toda a humanidade. Temos a maior flora medicinal do mundo, em torno de 15.000 espécies, cerca de 15 vezes maior que na Alemanha.  

Daí resulta toda a preocupação e cobiça dos países ricos e desenvolvidos, que não possuem essa riqueza explícita, que é ignorada ou desconhecida de muitos políticos, governantes e autoridades locais. Na Amazônia a biopirataria e a pilhagem de plantas é a maior do mundo, cujos exemplares pirateados se transformados em remédios renderiam uma quantia muito superior aos gastos do SUS com farmacosintéticos (Documento "Saúde Amazônia", MS, 2003).
Por isso, os estudos revelam que a exploração excessiva e desordenada, pode levar a "redução da disponibilidade de recursos da vida selvagem e ameaçar a saúde e o bem-estar das pessoas que dependem diretamente deles para viver e se sustentar" (ONG Traffic), como na África, Ásia, Pacífico e América do Sul (UICN-CSE). 

Nas matas de terra firme (80%), na várzea (10%) e nos campos e cerrados ( 10%), destacam-se as plantas medicinais extrativas e oleaginosas, cujas espécies de interesse terapêutico estão distribuídas de forma heterogênea nesses biomas, devendo ser conservadas em função de seu potencial uso medicinal.( ARBEX JUNIOR, Jose; BASIC OLIC, Nelson, 2000). Espécies medicinais do cerrado amapaense, como a sucuúba (Himatanthus sucuuba) e o barbatimão (Ourathea hexasperma), poderosos antinflamatórios tradicionais, podem estar com dias contados com os projetos de agroindústria de soja, eucalipto e pinho, " que degradam e desmatam, não geram renda e nem fixam o homem a terra,implantando monoculturas que desequilibram o meio ambiente"( ATAÍDE, J.C., 2006). Outras poderão sofrer a mesma sorte, como as descritas na tabela.


Assim como a alteração da temperatura, as secas, as inundações e as alterações climáticas influenciam as adaptações vegetais, interferindo no metabolismo secundário sensível das plantas, em particular das plantas medicinais, cujos princípios ativos são afetados em termos de quantidade, qualidade e biodisponibilidade. Esses princípios ou fitocomplexo são responsáveis pela eficácia e segurança e o resultado esperado do medicamento. 
O comprimento do dia influencia o padrão de desenvolvimento (fotoperioidismo) da plantas, principalmente na floração. A redução do fotoperíodo ( duração do período luminoso em relação ao período noturno)  provoca decréscimo acentuado  no teor de óleos essenciais (Li, 1996 in Pereira Pinto, J.E. Brasil; Bertolucci, S.K. Vilela, 2002).

Outro fator importante no desenvolvimento das plantas medicinais é a qualidade da luz absorvida na fotossíntese, ou melhor, o comprimento de onda da radiação solar, que influencia na biossíntese de princípios ativos. Essa absorção reduz o chamado "efeito estufa" global, que provoca aquecimento ambiental. 
Como já foi mencionada, a influência da temperatura afeta o crescimento e desenvolvimento das plantas. Para cada cultura existe uma temperatura ideal. Quando baixa, provoca coagulação de proteínas plasmáticas; quando muito alta causa fusão e danos celulares, influenciando a formação de clorofila (Correa Junior, 1994 in Pereira Pinto,J.E.Brasil;Bertolucci,S.K.Vilela,2002), estresses térmicos, inativação de enzimas e redução da divisão celular(in Pereira Pinto, J.E. Brasil; Bertolucci, S.K. Vilela, 2002).
Portanto, as variações da sazonalidade podem afetar as plantas, principalmente na região amazônica, cujo clima equatorial (quente e úmido) é quase constante o ano todo, interferindo na manutenção da floresta, mantendo as árvores de espécies medicinais extrativas, tanto nativas quanto aclimatadas. 

O Panorama (GBO-3) produzido pela CSE-UICN, alerta que os países nada fizeram para a "redução da taxa de perda  de biodiversidade, assumidas em 2010, apontando para um quadro pior se nada for feito". Nesse contexto, sobressaem os impactos na Amazônia e no Amapá, estado mais preservado, que poderiam utilizar os recursos já existentes com mais racionalidade e sustentabilidade. Porém, o que se constata é o discurso do governo com o "pré-sal", projetando melhorias na saúde em cima de suposições futuristas, permanecendo nossas potencialidades naturais abandonadas, sem estudos de viabilidade econômica e uso fármaco-medicinal. (Fonte: WWF-Brasil/Clovis Miranda)

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