sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O SABER TRADICIONAL NO DOCUMENTO  " SAÚDE AMAZÔNIA"

A Amazônia -- bela, forte, pujante, cantada em versos e prosas, cobiçada, desmatada, saqueada e vigiada por interesses internacionais-- agora tem um dia dedicado no calendário para lembrar suas potencialidades e desigualdades: o dia 05 de setembro, chamado "DIA DA AMAZÕNIA" e também o Dia da Raça.
O que vale para o sul ou sudeste, muitas vezes não se aplica aqui nas terras esquecidas do norte do Brasil. Medidas paliativas, como o "Mais Médicos", estão gerando mais polêmicas do que ajuda. No Amapá o índice no SUS para cada 1000 habitantes é de 0,95%, ou seja, menos de 1 médico para tanta gente , conforme a dados  do CFM. Ainda não formamos a 1ª turma de Medicina da UNIFAP.

 Para ilustrar esse descompasso vamos avaliar um documento, produzido e financiado pelo próprio Ministério da Saúde (MS), em 2003, que fala da questão da saúde na Amazônia. O documento se chama "Saúde Amazônia: relato de processo, pressupostos, diretrizes e perspectivas de trabalho para 2004" (Ministério da Saúde, Brasília, 2003).

O documento estabelece diretrizes e perspectivas com vistas a políticas públicas e intervenções na região. Porém, o mesmo não foi considerado nas medidas atuais tomadas pelo MS, desconsiderando as diretrizes que foram discutidas e pactuadas com os estados amazônicos.

Entre as diretrizes descumpridas está a "sociobiodiversidade como eixo de desenvolvimento sustentável", que deveria valorizar os saberes tradicionais, articulando-as com o conhecimento científico, onde podemos incluir os dados etnobotânicos das plantas medicinais, como o trabalho de pesquisadores e estudiosos  da Amazônia e do Amapá.

Entre os problemas prioritários levantados pelo documento ressalta o "baixo aproveitamento da potencialidade cultural e da biodiversidade da região para pesquisa e o desenvolvimento de medicamentos fitoterápicos". Prevalece a dependência da indústria químico-farmacêutica.
A monografia deste articulista, que lhe deu o título de Especialista em Plantas Medicinais em 2006, defendida na Universidade Federal de Lavras-MG,  que descreve as potencialidades terapêuticas das plantas medicinais tradicionais da Amazônia e sua utilização na atenção básica, sequer foi considerada pelos órgãos de interesse. Foi solicitado apoio para publicação e socialização, porém este autor não obteve resposta dos órgãos de interesse.

Isso mostra claramente o quanto o discurso está distante das práticas e muito mais  distante das decisões coletivas, ignoradas pelo próprio MS. O documento indica a ação: " estimular o desenvolvimento de medicamentos fitoterápicos  junto às instituições de pesquisa e universidades da região, recuperando e desenvolvendo o conhecimento tradicional sobre o uso de plantas medicinais" (Saúde Amazônia, 2003). O investimento e a qualificação no Norte são baixíssimos.

 As políticas públicas, diretrizes e ações propostas não foram cumpridas. A prova disso, no Amapá, foi o arquivamento do Programa de Fitoterapia do Amapá- PROFITAP, elaborado em 2007, e o não reconhecimento do Centro de Referência em Tratamento Natural-CRTN como executante da política pública das práticas integrativas e complementares, lançada em 2006 (Portaria 971), entre as quais a Fitoterapia, também defendida na 12ª Conferência Nacional de Saúde, em Dez/2003.

Essas contradições, tanto do MS, como dos governantes e parlamentares,  comprovadas por fatos e documentos, indicam que eles continuam priorizando ações distantes dos anseios da maioria da população, principalmente no campo da saúde e da valorização das potencialidades da Amazônia. Organismos internacionais e ONGs, como a WWF, Grupo ORSA e o Projeto SIVAM, tem mais conhecimento do que os gestores e os utilizam para seus interesses particulares. A espionagem dos EUA das nossas riquezas, a pirataria, a quebra de patentes e a violação de tratados e de nossa cidadania é o que se constata. O nosso saber tradicional vai para outros países.

A sociedade da Amazônia não pode apenas ficar no discurso contemplativo e conservacionista da flora, da fauna e da cultura tradicional e deixar que os gestores públicos e parlamentares continuem ignorando e desprezando os conhecimentos adquiridos e sistematizados por séculos, que mantiveram o povo amazônida vivo, sadio e sábio por séculos, mesmo antes da colonização. Estão fechando os ouvidos para o clamor das ruas, fechando os olhos para a realidade e desprezando o saber tradicional caboclo, critico dos intelectuais e científicos dos estudiosos, que indicam caminhos, diretrizes, passos e ações, independente de bandeira partidária ou facção ideológica.


Como disse em minha poesia, colocada em minha monografia, escrita em 1989, " estamos no meio do mundo, embora não percebemos o nosso valor. Temos rios, matas, riquezas e ar puro. Porque vivemos no Amapá. Porque vivemos no Equador. Estamos no meio do mundo. Não interessa a classe, a religião, a cor. O importante é acreditarmos a todo segundo, que a Amazônia é nossa. Que somos Amapaenses de  valor".

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