sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Saneamento Básico
Macapá despeja esgoto em fossa aberta

Jamille Nascimento
Da Reportagem



O fedor do Amapá atravessou o rio Amazonas e chegou aos narizes dos brasileiros do da Região Sul. O Jornal Estadão (SP) estampou em suas páginas que a capital amapaense é a mais fétida do Brasil. Novidade lá, fato consumado cá, pois em 2012 a repórter Fabiana Figueiredo do Jornal Tribuna Amapaense tratou do assunto e entrevistou o diretor presidente da Companhia de Água e Esgoto do Amapá (CAESA), Rui Smith, que naquela altura admitia o problema e disse "O problema é grave, porém a solução não será imediata".

Dados




Macapá tem 407 mil habitantes. É uma cidade com apenas 3% da sua área servida por rede de coleta de esgoto. E com 17% da população vivendo em região de ressaca do Rio Amazonas, o restante utiliza fossas sanitárias e em muitos casos cavadas ao lado de poços d'água e cerca de 60% das casas sem água encanada torna a cidade o retrato do descaso.
Já se tornou rotineiro a população passar no entorno da bacia de decantação da CAESA localizada no bairro das Pedrinhas e prender a respiração, pois o mau cheiro é insuportável e o impacto disso para a saúde é visível.

De janeiro a maio deste ano, 5.483 atendimentos foram registrados no Pronto-Socorro Infantil - diarreia, vômito, infecção intestinal, tudo reunido como gastrenterocolite aguda (ou Geca) torna Macapá uma cidade que entrará no quadro de calamidade pública da saúde se providências não forem tomadas urgentemente pelo poder público.

Onde está o problema?
Que a cidade de Macapá está crescendo aceleradamente isso sabemos, agora precisamos entender por que o poder público não acompanha este crescimento instituindo políticas públicas e planejamentos para implantação do saneamento básico em todo o Estado. O Amapá já tem 70 anos de criação e o serviço de esgoto que foi implantado em 1972 não vem recebendo manutenção e ampliação. Rui Smith na ocasião explicou que: "no decorrer desses 41 anos não houve nenhuma manutenção no sistema, logo, passou a falhar muito, o sistema hoje cobre apenas 4% da cidade".

O problema é ainda pior no período do "inverno amazônico" quando as chuvas se intensificam, causando enchentes em vários bueiros da capital, levando a população a conviver diariamente com toda a espécie de mazelas trazidas pelas águas.

Crescimento urbano
Macapá hoje possui 60 bairros, somente 28 são oficiais segundo censo do IBGE, totalizando uma população de 415.554 mil habitantes o que provoca uma desordem no saneamento da cidade, já que o sistema da CAESA de esgoto é inoperante, não se ouve falar em solução. "O que há um tempo atrás se via era um "fura-fura" nos asfaltos da cidade hoje não vemos ninguém da Companhia nas ruas", afirma Nazaré Braga moradora da rua Santa Catarina no bairro Santa Rita, uma das ruas que mais causam problema ao setor público pelos números de enchentes e reclamação de moradores.
Nas áreas de ressaca o problema é ainda mais grave. A situação dos moradores do alagado do bairro São Lazaro é desesperadora. "É um exemplo de área de ressaca do município que precisa de solução rápida", afirmou na quinta-feira o secretário da Saúde de Macapá, Dorinaldo Malafaia. "A situação de falta de saneamento no município é geral e gravíssima", admitiu.

Sobre o abastecimento de água, feito pela empresa estadual CAESA, a prefeitura de Macapá não tem certeza da extensão da rede. Dados informados pelo Amapá ao Governo Federal dão conta de cobertura de 41,7% da população urbana do Estado.

Verticalização

Outro ponto importante para se destacar são os números de prédios que estão sendo construídos na capital. Os benefícios e malefícios andam de "mãos dadas" neste caso, o poder público precisa ser rigoroso na fiscalização desses novos empreendimentos.

Em um edifício passarão a habitar em uma mesma área, uma quantidade de cerca de vinte famílias, e irão consumir vinte vezes mais que uma casa. Por isso, é importante a infraestrutura: para planejar o abastecimento de água, energia, sistema de esgoto, entre outros serviços. É nesse momento que entram os órgãos do município, para avaliar o projeto de um edifício ou qualquer construção que venha atender o que for determinado pelo Plano Diretor da cidade, esta é a prevenção dos impactos causados ao entorno pela construção.

Segundo o urbanista Alberto Tostes, no artigo publicado no livro "Além da Linha do Horizonte", a construção de novos edifícios em Macapá é irreversível, mas precisa que todos os setores envolvidos, públicos e privados, possam dar sua contribuição. O Governo Estadual precisa investir no aumento da rede de esgoto primário, para que a rede atual não fique sobrecarregada. O Governo Municipal precisa se adequar a esta nova realidade, e investir em recursos tecnológicos para monitorar a cidade.

Indústria

Para um caminhão de esgoto retirar dejetos de uma fossa residencial onde moram quatro pessoas, com três banheiros, não custa menos de R$ 120. Há uma dezena de empresas especializadas. Os dejetos enchem os caminhões, espécie de aspiradores gigantes, com capacidade para 8 mil litros, e são descarregados na lagoa de decantação das Pedrinhas. "Em época de pagamento de salário, as solicitações aumentam muito", disse um motorista.

A procura pela limpeza de fossas é constante. Os registros dos serviços são de uma média mensal de 160 a 180 carradas (cargas). "O que mais incomoda nem é o pagamento do serviço", afirmou um usuário de uma empresa de saneamento. "O que preocupa é a contaminação do solo, das águas. Macapá tem uma população permanentemente doente."

O governo do Estado e as demais autoridades competentes precisam tratar a população com respeito, para que notícias como a do Estadão parem de envergonhar os amapaenses. É inadmissível uma cidade do tamanho de Macapá ficar sendo retratada como a mais fétida do Brasil.

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