sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

ANTENADOS

Crescer é também...

BARBARA COSTA


Quero usar o espaço neste jornal para comentar um pouco sobre as mudanças da vida e alguns dos desafios que a gente enfrenta conforme vai crescendo.
Viajei a Belém agora, no finzinho das férias, e pude rever uma porção dos meus amigos que moram na cidade. Amigos esses que fiz quando morava em Belém também, cursando a sexta e a sétima séries (atuais sétimo e oitavo anos). 
Reencontrar esses amigos foi uma luta. Ou melhor, encontrar um horário que combinasse com as agendas de todos foi o maior desafio. É faculdade, estágio, trabalho, bolsa de estudos, namoro, filhos!... Uma infinidade de coisas que, aos 13 anos, nem cogitávamos. Sim, estamos crescendo! Um tanto assustador...
Conversando com um desses amigos que revi, num café nos altos da Big Ben localizada bem ao lado da Praça Batista Campos, falei um pouco das minhas dificuldades em fazer faculdade longe de casa, e ele me contou um pouco das suas.
Esse amigo paraense mora agora em São Paulo, e uma de suas principais queixas foi: "Sinto falta do calor". Não só o calor úmido característico do clima da Cidade das Mangueiras. Mas também o calor das pessoas.
É bizarro pensar que num outro Estado do mesmo país, assim, tão perto, existam tantas diferenças sociais, culturais... Deixar para trás o ninho é difícil, sobretudo porque fora do ninho há gente divergente da nossa. Criações e hábitos e famílias diferentes. E para se habituar, como faz? O preço da adaptação é abrir mão de quem se é?
Esse meu amigo me contou, sorrindo ante o sombrio, que é hostilizado na faculdade por uns neonazistas que pairam. E tudo vira motivo de perseguição: a origem paraense, o jeito de falar, as feições do rosto, o tom da pele, o estilo...
Se há, da parte dos que saem, a dificuldade em lidar com o novo meio e modo de vida, há também, para os que estão ali, a dificuldade - muitas vezes agressiva - em aceitar aquele que chega.
Crescer então é como essa São Paulo que narrou para mim o meu amigo, saboreando seu cafezinho com leite sem denunciar a solidão da cidade grande que já alberga ele no peito. Crescer é estar numa cidade em que as pessoas não te olham no rosto, não cumprimentam, não se importam tanto. Porque há pressa. Ganhar dinheiro, ganhar tempo, ganhar tudo...
As pessoas no Norte têm essa curiosa mania - pelo menos nos Estados pelos quais já perambulei - de se olharem bem direto no rosto, ainda que sejam desconhecidas. Nós nos olhamos. Isso me incomodava, às vezes. Hoje em dia, não. Percebo nesse gesto aquele interesse inocente ou até mesmo alcoviteiro das cidades pequenas, percebo uma acolhida, um "bem-vindo a esta comunidade, e aqui é assim que funciona, a gente se olha e pronto!". O nosso olhar-se na cara parece sempre a tentativa de, de repente, reconhecer no estranho um rosto amigo.
Mas, como disse, crescer é estar na cidade onde pouco se olha e quase ninguém se percebe. Alguns de nós jamais voltarão de vez ao ninho, onde estão os rostos conhecidos e amigáveis. Mas há, em tudo na vida, mistério. E quem sabe, aos que partem para sempre, não resta a missão de espalhar por aí um pouco dessa mirada amiga, trazida de casa? Os da grande cidade também aprendem com os pequenos.

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