sexta-feira, 4 de abril de 2014

ANTENADOS

Bárbara de Azevedo Costa

Das afinidades eletivas

Não é regra, mas algumas vezes na vida a gente aprende a gostar do que não gosta. Aprende a conviver com o insuportável, e daí ele se torna já não tão insuportável como antes.
Coisa que sempre amei foi o sol. Mas não bastava amar o sol. Tinha que odiar a chuva. Quem me conhece sabe dos frios que sinto por dentro, mesmo quando o dia é morno ou faz muito calor. Daí, nesses dias de frio interno intenso, pego uma dessas cadeiras brancas e me sento sob a bola de fogo de uma tarde grande... 
Poucas alegrias, para mim, se comparam a esta de estar sob o sol e se arrepiar até a alma. Mas era só chover para acabar a festa! 
Embora todo mundo do Norte - onde, notadamente, não se faz frio - espere ansiosamente pelo menor indício de chuva, só para tirar as jaquetas de couro do armário, ou dormir com o barulhinho rítmico dos pingos em queda, a chuva sempre foi para mim melancolia não nem-vinda e sabotadora estraga-prazeres.
Mas, uma vez, num dia em que chovia e reclamei falando: "Odeio chuva!", meu tio chegou e disse: "Qual o ponto?", e eu: "Como assim?", e a resposta esmagadora veio quase ao mesmo tempo em que formulei a pergunta. Logo vi o sentido de tudo: qual o ponto em reclamar da chuva enquanto chove, se você não pode fazer nada para pará-la? Taí um pensamento digno de reflexão... 
Então eu em Fortaleza, nesse começo de ano de 2014. Começou a chover na cidade como não chovia, dizem, desde 2009. Os dias têm sido muito nublados. Chuvisca a todo instante. Torrencia de madrugada. As avenidas parecem grandes piscinas, pois não há infraestrutura que aguente esse clima. 
No entanto, aprendi a ver também o lado bom... O lado bom é que logo a água escoa para o mar, descendo as ladeiras feito enxurrada, e, o mais importante de tudo, parece que essa chuvarada toda está finalmente enchendo os reservatórios no sertão.
Aqui no Ceará, as pessoas têm, portanto, esse relacionamento  curioso com a água que cai do céu, coisa que é totalmente justificável: a maioria ama muito a chuva porque é sinal de que vai tudo bem no interior. 
E você não vê ninguém reclamando por chegar que nem pinto molhado na aula das 7h ou por ter esquecido o guarda-chuva em casa. Cada pingo é vida.
Daí, tenho mudado o modo como encaro a dicotomia chuva-sol. Por que que as coisas têm de ser assim? Dois compartimentos que se excluem? Você ama um e odeia, consequentemente, o outro. Na verdade, não precisa tanta brutalidade...
 Se as nossas afinidades são ditadas sobretudo por disposições do coração e da alma, esses humores podem mudar, porque a gente muda. Existem, portanto, as afinidades eletivas - as que você escolhe. Desacredito agora o determinismo extremado das preferências. É tudo questão de saber como olhar. Você pode amar sem odiar. E ainda amo os dias de Sol. Mas a chuva tem lá o seu valor...

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