Parlamentares, diárias e escândalos. - ARLEY COSTA
A classe
política do Amapá, mais uma vez, obteve destaque no cenário nacional. Lamentavelmente
a aparição dos parlamentares amapaenses é, invariavelmente, fruto de escândalo,
corrupção, malversação do dinheiro público e outras ações de caráter
equivalente. Os deputados estaduais foram relacionados ao uso de notas fiscais
fraudulentas e abuso do uso de diárias. Os casos ainda serão investigados para
confirmar as denúncias, mas como não poderia deixar de ser, a divulgação dos
fatos foi seguida de exclamações de vergonha, clamor pelo voto nulo e questionamentos
sobre o caráter dos parlamentares.
Considerando a condição do povo brasileiro,
em geral, e do amapaense, em particular, os custos de manutenção dos
parlamentares da Assembleia Legislativa (AL) são escorchantes. A verba
indenizatória de um deputado estadual no Amapá alcança a astronômica cifra de
100 mil reais por mês ou 1,2 milhão de reais por ano. E isso sem contar
salário, diárias e outras tantas benesses. É a maior verba parlamentar do país,
sendo muito mais alta que a de um deputado federal (R$ 33.000,00) ou de um
senador da república (R$ 42.000,00). Não há explicação minimamente plausível
capaz de justificar os valores demandados pelos parlamentares amapaenses.
Essas superlativas verbas, entretanto, não
são os únicos gastos da população com os parlamentares. Em razão de suas
atribuições, estes fazem jus às diárias quando em deslocamento para outros
municípios do Amapá. Não há erro ou anormalidade nesse aspecto, qualquer pessoa
que se desloque a serviço deve ser ressarcida de seus custos. O absurdo é o
montante pago e o uso abusivo das mesmas como forma de dilapidar o erário
estadual. Segundo a presidente e os atuais parlamentares federais, um cidadão
deve sustentar uma família durante um mês com R$ 724,00 , o que significa cerca
de R$ 24,00 por dia. Como a proposta do
salário mínimo é manter uma família de quatro pessoas, cada pessoa tem direito a
esbanjar R$ 6,00 (isso mesmo, seis reais) por dia da forma que mais lhe
aprouver. Pode, por exemplo, fazer um lauto banquete com a estupenda quantia de
mais de R$ 1,00 que restar após pagar as passagens de ônibus para ir ao
trabalho e voltar para casa.
Fazendo jus aos seus representados, os
parlamentares amapaenses recebem para gastar em um único dia o que uma família
de quatro pessoas recebe para se manter por 75 dias (2,5 meses). Há uma clara
dissociação entre representantes e representados nesse caso e, o mínimo que se
espera dos parlamentares é que reduzam significativamente essa discrepância.
Poderíamos indicar aqui qualquer valor, mas pensando no vínculo representante e
representado, é justo que a diária de qualquer cargo político do país,
inclusive a presidência da república, seja equivalente ao valor correspondente
a um dia de salário mínimo, o que significaria atualmente vinte e quatro reais.
Claro que é insuficiente como diária, mas é também insuficiente o valor do
salário mínimo. Segundo o DIEESE, referência do PT por muitos anos, o salário
mínimo deveria estar em cerca de R$ 3.000,00, o que daria outro patamar de vida
à população e geraria uma diária de aproximadamente R$ 100,00. Se ainda parece
uma diária insuficiente, não há problemas, entendida a relação indicada, é só
aumentar o salário mínimo até o patamar que gere uma diária confortável para o
parlamentar.
A dissociação existente entre representantes
e representados, não é uma questão apenas de gastos ou diárias. A população
sente uma crise de representatividade, o que fragiliza significativamente o
processo democrático no Brasil. Isso significa que é necessário alterar o modo
como estão implantados no país as noções de democracia e república. Precisamos
de uma reforma política séria, mas mais que isso, é necessário que extrapolemos
a ideia que democracia se faz apenas com a ida às urnas. Devemos ocupar os
espaços e fóruns onde houver possibilidade de intervenção e discutir não a
indicação de pessoas para cargos eletivos, mas propostas de políticas públicas
e uso de recursos. Além disso, é importante resgatar a luta e ir às ruas
defender ideias e interesses. Nesse processo é necessário cautela para não cair
no engodo midiático de que manifestação e crime estão relacionados, ou pior,
que são a mesma coisa.
Na hora em que a população estiver nas ruas e
reassumir o controle da nação, os parlamentares estarão realmente atuando no
interesse do bem público e não centrados em encher os próprios bolsos. Quando
voltarmos a ser os donos dos nossos destinos, não haverá mais razão para
envergonharmo-nos de parlamentares, pois criaremos e usaremos mecanismos
capazes de ejetar, para bem longe, os dilapidadores da “res publica” (república
ou coisa pública).
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