sexta-feira, 16 de maio de 2014

PIONEIRISMO

"É preciso trabalhar com respeito e muita fé".

Mãe-de-santo Dulce Moreira (in memorian)


REINALDO COELHO
DA REPORTAGEM

Esta semana estamos compartilhando com os leitores do Tribuna Amapaense e, principalmente, os assíduos desta editoria, a vida de uma das grandes pioneiras amapaenses: Dona Dulce Moreira, a babalorixá (sacerdotisa) da Umbanda no Amapá. A Umbanda é uma religião heterodoxa brasileira, e tem raízes indígenas. O índio com elementos da sua mitologia e rituais como a Pajelança, o Toré, o Catimbó, entre outros. Ademais, o caboclo, ancestral do índio que incorporava em suas manifestações, foi consolidado na prática umbandista.

Dulce Moreira foi casada com João Batista Moreira, mais conhecido por “Piloto” (falecido). Ambos trouxeram para o Amapá a hierarquia de São Sebastião, originada da Encantaria do Rei Sebastião da Praia do Lençol, no Maranhão.

Nossa pioneira era natural da Ilha do Marajó, Estado do Pará, porém, Dulce Moreira era amapaense de coração. Junto com a família, instalou em Macapá o primeiro terreiro de Umbanda. Há vários anos presidiu a Federação Umbandista do Amapá e também era tradicional integrante da Ala das Baianas da Escola de Samba Maracatu da Favela.

Aos 82 anos, em 2007, sofreu uma queda e veio a falecer por conta de complicações respiratórias. Recebeu homenagens especiais no seu enterro. Os brincantes e membros da direção da escola homenagearam a ex-integrante da Ala das Baianas com toques de tambor e sambas de enredo da Maracatu. Em seu lugar, como sacerdotisa, ficou sua filha Maria do Socorro, mãe Socorro de Oxum.

Como mãe-de-santo, Dulce Moreira foi uma mulher fundamental na afirmação dos cultos afros na sociedade amapaense. Foi uma das pioneiras nas celebrações no Amapá do Dia Estadual dos Cultos Afros, 8 de maio, dia escolhido por marcar a primeira vez em que se ouviu falar de Tambor de Mina no Estado. Isso se deu em 1962, na casa da Mãe Dulce, onde também funciona o terreiro de Santa Bárbara, de Mina Nangô.

Preconceitos

Mãe Dulce contava que começou a desenvolver o dom desde os 13 anos, aos 27 começou na umbanda. . Sofreu com o preconceito que existia na época, mas nunca deixou de lado sua fé  nos santos, nas entidades e caboclos. Muitas pessoas a procuravam para tratar de doenças, problemas financeiros e atrapalhos.

Além de negros, filhos de “macumbeiros”, era assim que os filhos de Dulce Moreira eram taxados. Ela contava na época que “meus filhos tiveram que aturar ser chamados de ‘filho da macumbeira’ pelos colegas da escola. Mas eu não deixava isso me atingir".

 

Novo ritmo

Os trabalhos realizados no terreiro de Mãe Dulce causaram grande estranheza em quem assistia ao ritual do Tambor de Mina. Ele

O Tambor de Mina, desenvolvido no terreiro de Mãe Dulce, causaram grande estranheza em quem assistia ao ritual pela primeira vez. O  rito prestava homenagens às entidades, pretos velhos e caboclos. Até hoje, tradicionalmente, bate-se o tambor no dia 8 de maio, sempre em homenagem à cabocla Mariana. Os mais populares pais e mães de santo de outros terreiros, e seus pretos velhos, caboclos e caboclas, faziam-se presentes no terreiro, inclusive, Mãe Dilma, que vinha sempre do Maranhão, onde mora, para visitar o terreiro da anfitriã.

Dona Dulce dizia que sempre procurou explicar que as religiões de origem africana não são um bicho de sete cabeças, e que nada de ruim pode acontecer a quem as usa com amor e com o pensamento voltado para coisas boas.

Cultos afro-religiosos

Com mais de 50 anos dedicados aos cultos afro-religiosos, ela adorava cantar e dançar, e considerava uma importante vitória para os praticantes de cultos afros o decreto que determina o dia estadual da causa. "Fui muito perseguida, principalmente pelo povo e por padres, que não aceitavam nossa religião e cultura. Depois da lei, sabemos que temos tanta liberdade quanto os evangélicos ou católicos de nos manifestarmos".

Para as novas gerações de umbandistas a anciã mandava um recado: "É preciso trabalhar com respeito e muita fé".

Atualmente

Para os que tomam conta do terreiro de Mãe Dulce na atualidade, o dia dos Cultos Afros significa uma oportunidade para que a população seja convidada a refletir sobre a intolerância, que oprimiu durante muito tempo as religiões afrodescendentes.

Na Umbanda são realizados os "trabalhos", geralmente para pedir ajuda às entidades para solucionar algum problema. Mãe Dulce dizia que os trabalhos mais procurados são os de sucesso e amor.  O Terreiro de Santa Bárbara, no alto de seu 52 anos de existência, ainda resiste  á ignorância daqueles que desconhecem o valor de uma história de luta contra o preconceito aos cultos afros-religiosos e que conseguiu através dessa luta, se fazer reconhecer e aceitar. O Terreiro, conforme a vontade de Mãe Dulce, continua com suas atividades, sob o comando de suas filhas Socorro de Oxum e Jaguarema de Ogum, que com muito afinco e responsabilidade, dão continuidade áquilo que Mãe Dulce acreditava.















Nenhum comentário:

Postar um comentário

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...