MEDICINA PRIVADA E A FACE OCULTA
DAS CONTAS HOSPITALARES.
JARBAS DE ATAÍDE
Lendo a matéria de capa da revista
ÉPOCA deste mês de maio (12.05), com o título “Porque a Medicina pode levar
você à falência”, fiquei pensando que
já tinha escrito vários tópicos sobre o
assunto no Jornal Tribuna Amapaense ao longo do ano de 2013. Revendo minhas
poesias, duas relatam muito bem o que a matéria trata: “Medicina X Médicos”,
escrita na década de 80, quando ainda não era nem formado, e “Medicina:
Evidência x Mercado”, escrita em 24.04.2010 e publicada no TA em 22.07.2013.
As
poesias refletem as contradições e antagonismos dos sistemas público, privado e
do empresarial. Que a Medicina, como ciência, tem seus princípios, mas os que a
exercem-- alguns Médicos--, levados pela onda e pela influência perversa do
capitalismo, da tecnologia e da globalização distorcem e contrariam esses princípios,
tornando-se meros instrumentos do mercado.
Foi o assunto tratado no artigo
da TA, “Medicina na lógica do marcado”, publicado em 29.01.2014, que analisava
essa situação: “esse sistema arraigado e perverso de compra e venda de produtos
e serviços, próprio do setor privado, atinge também a saúde pública. As profissões da área da saúde seguem a mesma
tendência, onde muitos Médicos se formam em escolas e universidades públicas,
mas saem com formação, especialização e qualificação para atender o setor
privado. Oferecem uma Medicina cara e sofisticada para atender doenças simples
e de atenção primária. Para comprovar essa intrigante relação temos os exemplos
das empresas médicas estarem em crescente expansão, com seus planos de saúde
caros, e o setor publico em declínio”.
Mas o setor público da saúde sofre as
consequencias desse sistema perverso, pois a capitalização e privatização do
SUS são marcadas por evidentes investimentos das “políticas governamentais,
como a isenção e dedução fiscal para a oferta de planos de saúde e nos
hospitais filantrópicos; créditos e empréstimos para empresas médicas; ajuda
para auxílio de bancos internacionais; associação estatal com investidores da assistência
suplementar; gastos com planos para servidores públicos” (Ligia Bahia, 10
Abrasão, 2013).
A revista citada enfoca os meandros do sistema e do processo de cobrança
dos hospitais privados, que sem regras específicas e sem transparência dos
preços cobrados, baseados em tabelas pré-determinadas, oneram os serviços e
procedimentos com valores exorbitantes, e a relação tendenciosa com as
operadoras de planos de saúde. Cita duas histórias de usuários da UNIMED que se internaram em hospitais
privados paulistas de renome (Hospital Israelita Albert Einstein e H.
Samaritano) pensando que o plano cobriria todas as despesas e foram
surpreendidos com faturas e cobranças elevadíssimas que levaram os devedores à justiça,
obrigando-os a vender seus bens (casas, Apto) para pagar as dívidas que lhe
foram impostas.
Convivi com fatos semelhantes e com essa
realidade por 12 anos quando fui Médico do Hospital São Camilo, do qual sai em
2000. Acontecia, às vezes, de nos desentendermos com as ordens administrativas
de negar internação de segurado de plano não autorizado, mesmo estando quites com
suas mensalidades. Quando desobedecíamos ao sistema estávamos cometendo, mesmo
sem saber, a mesma situação contada na matéria da revista, ou seja, internando
um usuário de plano como particular, que seria, assim, triplamente lesado:
pagava a mensalidade do plano, a conta particular da internação e ainda
manteria (via impostos) o sistema público ( o SUS). Mesmo pagando tudo isso, quando não tinha
leito ou não tinha uma escala de sobreaviso de especialistas, era referenciando
para os hospitais públicos, sujeitando-se as condições precárias de atendimento.
Já se passaram vários anos e fatos como esses continuam a se repetir nos
melhores e mais conceituados hospitais do país, mostrando que a manutenção do
sistema privado e da relação com as seguradoras de saúde, mesmo na livre
concorrência do liberalismo econômico, são medidos e baseados nas regras do
mercado e na busca desenfreada do lucro, atropelando e ignorando e
desrespeitando valores e bens humanitários como a saúde, o sofrimento da doença
e a liberdade de poder escolher. Nesse meio termo, os profissionais Médicos,
são peças importantes da engrenagem e manutenção desse sistema, quando são
utilizados e aceitam as regras perversas do mercantilismo.
Na Medicina privada
quanto mais doença, mais dinheiro; quanto mais despesas e faturas altas, mais
lucro. Conforme a matéria, o que gera mais renda aos hospitais
particulares não são os exames sofisticados ou pagamento dos profissionais
especializados, mas sim os materiais, as taxas diversas (até para carregar o
doente em maca paga-se taxa) e os insumos, pois cobram preços exorbitantes,
fora da média do mercado.
Outra experiência que
passei diretamente com as contas hospitalares foi na década 90, quando fui
Médico Auditor do extinto Instituto de Previdência do Estrado do Amapá- IPEAP,
que atendia o servidor público estadual, por um período de 4 anos. Fazia a auditoria de todas as faturas
enviadas pelas unidades de saúde particulares que faziam atendimento e
internação hospitalar. Fiquei na função durante toda uma gestão, pois ao
analisar as faturas, fazia a revisão uma a uma e não por amostragem, como
outros auditores faziam. Os absurdos,
excessos e os procedimentos não justificados eram glosados (recusa do
pagamento). Com isso muito dinheiro público deixou de cair no ralo da
corrupção. Nesse período, no cumprimento
do dever de auditar as contas e algumas vezes era contrário a certos
procedimentos médicos, passei a ser odiado e até hostilizado por Médicos,
principalmente os cirurgiões, que, às vezes, faziam suas operações e não
justificavam ou continham erros nas faturas. Foi duro me contrapor ao sistema
viciado da propina e da ganância de ganhar dinheiro fácil. Mas sobrevivi às
criticas para contar a história. JARBAS
DE ATAÍDE, Macapá-AP, 20.05.2014.

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