sexta-feira, 23 de maio de 2014

SAÚDE EM FOCO

   MEDICINA PRIVADA E A FACE OCULTA DAS CONTAS HOSPITALARES.                
                                                                                               JARBAS DE ATAÍDE
        Lendo a matéria de capa da revista ÉPOCA deste mês de maio (12.05), com o título “Porque a Medicina pode levar você à falência”, fiquei pensando  que já  tinha escrito vários tópicos sobre o assunto no Jornal Tribuna Amapaense ao longo do ano de 2013. Revendo minhas poesias, duas relatam muito bem o que a matéria trata: “Medicina X Médicos”, escrita na década de 80, quando ainda não era nem formado, e “Medicina: Evidência x Mercado”, escrita em 24.04.2010 e publicada no TA em 22.07.2013.
         As poesias refletem as contradições e antagonismos dos sistemas público, privado e do empresarial. Que a Medicina, como ciência, tem seus princípios, mas os que a exercem-- alguns Médicos--, levados pela onda e pela influência perversa do capitalismo, da tecnologia e da globalização distorcem e contrariam esses princípios, tornando-se meros instrumentos do mercado.
        Foi o assunto tratado no artigo da TA, “Medicina na lógica do marcado”, publicado em 29.01.2014, que analisava essa situação: “esse sistema arraigado e perverso de compra e venda de produtos e serviços, próprio do setor privado, atinge também a saúde pública.  As profissões da área da saúde seguem a mesma tendência, onde muitos Médicos se formam em escolas e universidades públicas, mas saem com formação, especialização e qualificação para atender o setor privado. Oferecem uma Medicina cara e sofisticada para atender doenças simples e de atenção primária. Para comprovar essa intrigante relação temos os exemplos das empresas médicas estarem em crescente expansão, com seus planos de saúde caros, e o setor publico em declínio”.
       Mas o setor público da saúde sofre as consequencias desse sistema perverso, pois a capitalização e privatização do SUS são marcadas por evidentes investimentos das “políticas governamentais, como a isenção e dedução fiscal para a oferta de planos de saúde e nos hospitais filantrópicos; créditos e empréstimos para empresas médicas; ajuda para auxílio de bancos internacionais; associação estatal com investidores da assistência suplementar; gastos com planos para servidores públicos” (Ligia Bahia, 10 Abrasão, 2013).
       A revista citada enfoca os meandros do sistema e do processo de cobrança dos hospitais privados, que sem regras específicas e sem transparência dos preços cobrados, baseados em tabelas pré-determinadas, oneram os serviços e procedimentos com valores exorbitantes, e a relação tendenciosa com as operadoras de planos de saúde. Cita duas histórias de usuários  da UNIMED que se internaram em hospitais privados paulistas de renome (Hospital Israelita Albert Einstein e H. Samaritano) pensando que o plano cobriria todas as despesas e foram surpreendidos com faturas e cobranças elevadíssimas que levaram os devedores à justiça, obrigando-os a vender seus bens (casas, Apto) para pagar as dívidas que lhe foram impostas.
           Convivi com fatos semelhantes e com essa realidade por 12 anos quando fui Médico do Hospital São Camilo, do qual sai em 2000. Acontecia, às vezes, de nos desentendermos com as ordens administrativas de negar internação de segurado de plano não autorizado, mesmo estando quites com suas mensalidades. Quando desobedecíamos ao sistema estávamos cometendo, mesmo sem saber, a mesma situação contada na matéria da revista, ou seja, internando um usuário de plano como particular, que seria, assim, triplamente lesado: pagava a mensalidade do plano, a conta particular da internação e ainda manteria (via impostos) o sistema público ( o SUS).  Mesmo pagando tudo isso, quando não tinha leito ou não tinha uma escala de sobreaviso de especialistas, era referenciando para os hospitais públicos, sujeitando-se as condições precárias de atendimento.
       Já se passaram vários anos e fatos como esses continuam a se repetir nos melhores e mais conceituados hospitais do país, mostrando que a manutenção do sistema privado e da relação com as seguradoras de saúde, mesmo na livre concorrência do liberalismo econômico, são medidos e baseados nas regras do mercado e na busca desenfreada do lucro, atropelando e ignorando e desrespeitando valores e bens humanitários como a saúde, o sofrimento da doença e a liberdade de poder escolher. Nesse meio termo, os profissionais Médicos, são peças importantes da engrenagem e manutenção desse sistema, quando são utilizados e aceitam as regras perversas do mercantilismo.  
Na Medicina privada quanto mais doença, mais dinheiro; quanto mais despesas e faturas altas, mais lucro.  Conforme a matéria,  o que gera mais renda aos hospitais particulares não são os exames sofisticados ou pagamento dos profissionais especializados, mas sim os materiais, as taxas diversas (até para carregar o doente em maca paga-se taxa) e os insumos, pois cobram preços exorbitantes, fora da média do mercado.

Outra experiência que passei diretamente com as contas hospitalares foi na década 90, quando fui Médico Auditor do extinto Instituto de Previdência do Estrado do Amapá- IPEAP, que atendia o servidor público estadual,  por um período de 4 anos.  Fazia a auditoria de todas as faturas enviadas pelas unidades de saúde particulares que faziam atendimento e internação hospitalar. Fiquei na função durante toda uma gestão, pois ao analisar as faturas, fazia a revisão uma a uma e não por amostragem, como outros auditores faziam.  Os absurdos, excessos e os procedimentos não justificados eram glosados (recusa do pagamento). Com isso muito dinheiro público deixou de cair no ralo da corrupção.  Nesse período, no cumprimento do dever de auditar as contas e algumas vezes era contrário a certos procedimentos médicos, passei a ser odiado e até hostilizado por Médicos, principalmente os cirurgiões, que, às vezes, faziam suas operações e não justificavam ou continham erros nas faturas. Foi duro me contrapor ao sistema viciado da propina e da ganância de ganhar dinheiro fácil. Mas sobrevivi às criticas para contar a história. JARBAS DE ATAÍDE, Macapá-AP, 20.05.2014.

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