Bolsa Família e Poder Econômico
O
Bolsa Família é importante como ação assistencialista de caráter provisório
para superar a miséria e condições de extrema pobreza. Contudo, não é e nem
pode ser uma alternativa finalista defendida como política de Estado. O Sudeste
recebe 25% dos recursos do Bolsa Família, então não entraremos no embate de
região contra região. Esclarecido isso, podemos nos debruçar sobre a discussão
do impacto do poder econômico, incluído o Bolsa Família, sobre as eleições de
2014.
Há
uma fortíssima correlação entre o Bolsa Família e os votos de Dilma, da mesma
forma há enorme similitude entre a força do agronegócio e do grande capital
industrial com os eleitores de Aécio. Os mapas logicamente parecem o negativo
um do outro. Claro está, ao interpretar os gráficos, que o poder econômico,
empresarial ou assistencialista, dominou o cenário nessa eleição. O grande
capital obtém seus votos ao gerar consonância ideológica em suas áreas de
atuação, seja pelo ideário que vai se consolidando no indivíduo que se submete
aos ditames da organização em que trabalha, seja via discurso da grande mídia.
Essa estrutura, diga-se de passagem, já é bem conhecida. Tivesse ganho o Aécio
e o PSDB, este texto teria como tema o impacto do poder empresarial. Mas, como
Dilma ganhou e presidirá o Brasil no quadriênio 2015-2018, centro a análise
sobre o poder assistencialista.
O
Bolsa Família não deixa de ser uma espécie de neocoronelismo. Não aquele modelo
tradicional, de forte poder coercitivo com ameaças de morte ou outras
atrocidades e opressões, mas ainda assim, temos o poder econômico empregado via
assistencialismo direcionando os votos da população mais carente. A
possibilidade de vir a perder um recurso que ajuda a minimizar a condição de
miséria e atenuar carências imediatas é, para dizer o mínimo, assustadora para
quem o recebe. Justifica-se, assim, toda e qualquer ação para manter o
recebimento da assistência. De atender os requisitos necessários para continuar
ativo no programa até eleger aquele que, presidindo o país, coordena o projeto
e figura como o responsável por sua existência e permanência. Assim, em uma
eleição, é natural que o bolsista vá a campo votar e conclamar todos aqueles
que lhe são próximos para votar em seu candidato. Portanto, quem tem o Bolsa
Família nas mãos, mais que eleitores, consegue militantes.
O
impacto desse poder não pode ser minimizado. Para os que não conhecem o
programa, uma olhada nos sites do próprio governo permitirá entender a
magnitude do Bolsa Família. Cerca de 50 milhões de pessoas ou 25% das famílias
brasileiras recebem Bolsa Família, isso significa que uma em cada quatro
pessoas recebe complemento de renda no Brasil para alcançar as mínimas
condições de sobrevivência. No estado do Maranhão esse valor alcança a
astronômica cifra de 50%! Metade da população encontra-se em situação de
indigência e necessitada dos recursos oriundos do programa.
Ao
olharmos números tão significativos, algumas perguntas começam a aparecer.
Primeiro, um em cada quatro brasileiros está realmente em condição de miséria?
Se o número é de fato esse, o país de sonhos cantado e decantado na propaganda
eleitoral do PT não existe e em 12 anos de governo não foi possível reduzir a
miséria para um valor menor? O Bolsa Família permite que o indivíduo consiga
viver acima da linha da miséria, isso é ótimo e emergencialmente importante,
mas quais políticas efetivas de transformação dessas condições foram e estão
sendo implantadas? Quais estratégias de desenvolvimento estão em funcionamento
para favorecer o surgimento de empregos e permitir aos atuais usuários do Bolsa
Família superar a miséria e passar a viver independente de políticas
assistencialistas do governo? Por fim, mais uma pergunta: onde está a alardeada
força da 5ª maior economia do mundo?
A
resposta para a última pergunta deixa claro que se os indicadores econômicos
estão crescendo a passos largos, como foi amplamente anunciado ao longo da
campanha, e continuamos com 25% da população em situação de indigência, então o
governo atende aos interesses do capital e não aos interesses dos mais pobres e
necessitados, apesar de tudo que vem e foi sendo falado durante o período
eleitoral. A política do PT ao longo dos 12 anos não foi socialista, social
democrata ou sequer nacional desenvolvimentista foi, apesar de toda
argumentação contrária, liberal. Ainda bem que o PSDB não ganhou, pois seria
neoliberal, diriam alguns! E reiterariam o partido da estrela como socialista
ou, curvando-se aos fatos, diriam: Com o PT teremos a continuação de um
liberalismo suavizado por políticas assistencialistas como o Bolsa Família.
Queiram
(os defensores do PSDB) ou não (os militantes do PT) aceitar a situação que
emerge dos dados, é preciso considerar que 25% dos eleitores estão atrelados ao
governo por meio de uma política assistencialista, cuja configuração permite falar
em neocoronelismo. Essa configuração promove, mesmo que o voto seja secreto e a
população esteja mais esclarecida, um fortíssimo impacto sobre o resultado
eleitoral, assim como faz o poder econômico de empresas, agronegócio e sistema
financeiro com seu maciço financiamento de campanha e controle da mídia
hegemônica. Usando uma expressão corriqueira: É briga de cachorro grande!
Arley J. S. da Costa
Professor de Psicologia
UFF - Universidade Federal Fluminense
PUVR - Pólo Universitário de Volta Redonda
(21) 980256523
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