Francisco das Chagas Bezerra, o Chaguinha
Por
Paulo Tarso Barros (*)
Francisco das Chagas Bezerra, natural do
município cearense de Quixadá, nasceu a 15 de dezembro de 1907. Não chegou a conhecer o seu pai, mas
foi criado pela mãe, uma artesã que fabricava objetos cerâmicos e sustentava 9
filhos. Chaguinha desde muito cedo começou a trabalhar para ajudar sua mãe. O
menino, então com 7 anos, saía de casa para comercializar potes, bilhas,
panelas e outros objetos de uso doméstico. Lembrava-se perfeitamente de um
movimento político ocorrido no Ceará e denominado “Jagunçada”. Assistiu e
sofreu as consequências da grande seca de 1915 e que rendeu o famoso romance de
Rachel de Queiroz “O Quinze”.
A
grande mudança na sua mentalidade de menino esperto e acostumado desde a mais
tenra idade a lidar com as adversidades do sertão nordestino aconteceu quando
ele aprendeu a ler e a escrever com a sua madrinha, que o tratava como um
membro da própria família e com quem aprendeu as primeiras lições de democracia
e justiça. Na sua cidade natal verificou as enormes desigualdades sociais, pois
havia um coronel dono de muitas e muitas terras enquanto a maioria do povo,
inclusive a sua mãe, não possuía nada. Ele então perguntava aos mais velhos o
porquê daquela situação e ouvia a singela resposta de Deus dera as terras ao
coronel. Mas o menino logo entendeu que aquilo não era produto de uma partilha
divina, mas sim humana. Os latifúndios eram fruto da ambição e da injustiça
social que sempre prevaleceu no Brasil e que ele iria combater durante toda a
vida.
Chaguinha só fez o curso primário,
mas seu aprendizado na vida dura que sempre levou o ensinou bastante a adquirir
uma brilhante consciência política e a acreditar firmemente no socialismo. Aos
16 anos mudou-se para Fortaleza e começou a trabalhar como ajudante de
conferente numa ferrovia federal, emprego que conservou durante dois anos. Logo
depois passou por vários pequenos empregos na capital cearense, onde morava em
pensões. Considerava essa fase a mais profícua da sua vida como aprendiz das
grandes ideias políticas e sociais, pois conseguiu montar uma banca de jornais
(naquela época um quiosque) e conviveu com jornalistas, intelectuais e
políticos cearenses. Lia todos os jornais e conseguia, ao mesmo tempo,
compreender cada vez mais a realidade que o cercava.
No ano de 1933, quando ainda morava
numa humilde pensão da capital cearense, encontrou um paraense de Castanhal que
fora em busca de tratamento médico. Os dois tornaram-se amigos e um dia
Chaguinha chegou ao quarto do enfermo e o encontrou chorando e profundamente
deprimido. O motivo, disse-lhe este, era o temor de morrer longe da família.
Chaguinha comoveu-se com o sofrimento daquele senhor e disse-lhe que o levaria
de volta para casa. E cumpriu a promessa. Antes do final daquele ano de 1933
desembarcou em Castanhal, onde ficou morando com a família do seu amigo numa
colônia agrícola. Este lhe pediu que alfabetizasse os seus filhos e demais
familiares e Chaguinha assim o fez. Nessa colônia, onde permaneceu até 1946,
além do trabalho de professor, ele também fabricava farinha de mandioca. Em
1947 foi para uma outra colônia agrícola e em 1949, adoecendo, Chaguinha viajou
para Belém em busca de tratamento médico. Na capital paraense, logo tomou
contato com os militantes do PC do B e candidatou - se a uma vaga de deputado
estadual.
Depois dessa experiência, mudou-se
para o Amapá, estabelecendo-se na Colônia Agrícola do Matapí. Mas foi no ano de
1951 que Chaguinha finalmente resolveu morar em Macapá, escolhendo a árdua
profissão de carregador autônomo, sem vínculo empregatício com o governo do
Território, pois na sua concepção ele julgava importante manter-se livre de
quaisquer empecilhos que inviabilizassem ou atrapalhassem as suas ideias
socialistas.
Sendo o Território Federal do Amapá
governado por militares, as ideias socialistas de Chaguinha não eram bem
aceitas. Mas ele, juntamente com o padeiro Jorge Fernando Ribeiro (já falecido)
e outros companheiros, sempre lutaram por uma sociedade mais justa e fraterna.
Por isso mesmo Chaguinha, que era um trabalhador honesto e que, como pioneiro,
muito contribuiu nos primeiros anos de existência do Território, foi preso
diversas vezes. Em 1964, época de arbítrio, foi preso acusado de ser Comunista.
Em 1973, no famoso caso do “Engasga-engasga”, foi novamente preso junto com o
poeta e advogado Isnard Lima, Odilardo, o padeiro Jorge Fernando e seus
familiares. Chaguinha foi amarrado com arame e transportado para Belém, onde permaneceu
por 20 dias.
Sempre vivendo humildemente, lendo e
interpretando a história, Chaguinha jamais renunciou às suas ideias de justiça
social, pois desde menino conviveu com os problemas mais graves que desafiam a
inteligência e a boa vontade dos políticos e da elite que governa o Brasil: a
distribuição de terra.
No final de 1996, o Governo do Amapá
fez uma importante homenagem a esse brasileiro cearense criando o Centro de
Juventude Chaguinha.
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(*)
Escritor, presidente da Associação Amapaense de Escritores - APES
Copyright
© by 1997 Paulo Tarso Barros

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