sexta-feira, 21 de novembro de 2014

ANTENADOS



Excesso

BARBARA COSTA


Toda vez que me deparo com um caso de superexposição no Facebook – e não são poucos! –, fico me perguntando: "Por que, meu Deus? Por quê?!". 

Sei que mesmo eu e você e a pessoa mais discreta e ponderada do mundo podemos ser vítimas da nossa própria sede de aparecer, e certamente, em alguns muitos momentos, havemos de pecar e pagar pelo excesso! Mas até que ponto o excesso é aceitável? 

Mostramos demais, compartilhamos demais... E assim devassamo-nos, esgotamo-nos. Uma frase, uma confissão, uma foto, e ali está, uma parte muito preciosa e pessoal da sua vida, prontinha para ser julgada. Parece que o Facebook veio certeiramente ao encontro desse nosso prazer exibicionista. E quando é que isso começa a fazer mal?

Penso que existem certos limites de exposição. Limites que nem mesmo os mais autoconfiantes gostam de quebrar. O que expomos nas redes sociais quase sempre, embora bastante pessoal, é milimetricamente editado, cortado, moldado. Tudo para parecer mais brilhante, mais reluzente, mais perfeitinho. Nos expomos, mas expomos uma visão plástica e melhorada de nós mesmos. Quer dizer, tentamos melhorar. Às vezes dá certo. 

Estamos no olho de um furacão de informações, e não podemos nos privar de aumentar ainda mais o caos. Despejamos assim na rede os nossos comentários, nossa bagunça mental... Porém, gosto de acreditar que o fazemos com um ligeiro cuidado para não deixar transparecer tudo.

Mas as coisas começam a ficar mais complicadas... E preocupantes. Porque existem aqueles que não compreendem muito bem os mecanismos da “vida virtual” e passaram a transformar essa vida virtual na própria existência. Loucamente, essas pessoas compartilham nas redes muito mais do que as próprias redes e seus outros usuários estão dispostos a suportar. Tudo, tudo vai parar na página do Facebook. 

Para eles, o filtro que separa o exibicionismo ficcional do excesso de exposição da realidade já se perdeu, e agora se encontram desprotegidos, embora talvez nem percebam. Ou será que não se importam? Mas como não se importariam com a exposição tão intensa de si mesmos? Vai ver não conseguem detectar os perigos. 
Seus perfis on-line se transformam em murais de indiretas bem diretas, pedidos de atenção, lamúrias, clamores por abraços, fotos descontextualizadas, calúnias, bate-bocas, insignificantes status atualizados de minuto a minuto... Gente que pede conselho, faz confissão de segredos, mostra tudo mesmo!

E acabam assim se esquecendo de que a Internet é um lugar onde tudo o que é visceral se torna leve, bobo, passível do ridículo. Tudo o que é despejado ali é descartável, efêmero, banal. Uma vez que a vida se projeta inteiramente nas redes sociais, parece que se banaliza também, perde o sentido e o peso. 

O curioso é que talvez esse excesso de demandas de atenção e declarações de carência despejado em sites como o Facebook surja exatamente do fato de termos reduzido nossa convivência e interação com os outros em nível pessoal.

Ou seja, reclamamos na tela do computador, falando sobre nossas saudades, anseios, desejos, loucuras... Mas já não temos forças para desligar a máquina e buscar abraços reais. A máquina nos rouba de nós e aí vamos à máquina reclamar que já ninguém nos alcança... Somos mesmo estranhos.

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