Excesso
BARBARA COSTA
Toda vez que me deparo com um caso de superexposição no Facebook – e não
são poucos! –, fico me perguntando: "Por que, meu Deus? Por
quê?!".
Sei que mesmo eu e você e a pessoa mais discreta e ponderada do mundo
podemos ser vítimas da nossa própria sede de aparecer, e certamente, em alguns
muitos momentos, havemos de pecar e pagar pelo excesso! Mas até que ponto o
excesso é aceitável?
Mostramos demais, compartilhamos demais... E assim devassamo-nos,
esgotamo-nos. Uma frase, uma confissão, uma foto, e ali está, uma parte muito
preciosa e pessoal da sua vida, prontinha para ser julgada. Parece que o
Facebook veio certeiramente ao encontro desse nosso prazer exibicionista. E
quando é que isso começa a fazer mal?
Penso que existem certos limites de exposição. Limites que nem mesmo os
mais autoconfiantes gostam de quebrar. O que expomos nas redes sociais quase
sempre, embora bastante pessoal, é milimetricamente editado, cortado, moldado.
Tudo para parecer mais brilhante, mais reluzente, mais perfeitinho. Nos
expomos, mas expomos uma visão plástica e melhorada de nós mesmos. Quer dizer,
tentamos melhorar. Às vezes dá certo.
Estamos no olho de um furacão de informações, e não podemos nos privar
de aumentar ainda mais o caos. Despejamos assim na rede os nossos comentários,
nossa bagunça mental... Porém, gosto de acreditar que o fazemos com um ligeiro
cuidado para não deixar transparecer tudo.
Mas as coisas começam a ficar mais complicadas... E preocupantes. Porque
existem aqueles que não compreendem muito bem os mecanismos da “vida virtual” e
passaram a transformar essa vida virtual na própria existência. Loucamente,
essas pessoas compartilham nas redes muito mais do que as próprias redes e seus
outros usuários estão dispostos a suportar. Tudo, tudo vai parar na página do
Facebook.
Para eles, o filtro que separa o exibicionismo ficcional do excesso de
exposição da realidade já se perdeu, e agora se encontram desprotegidos, embora
talvez nem percebam. Ou será que não se importam? Mas como não se importariam
com a exposição tão intensa de si mesmos? Vai ver não conseguem detectar os
perigos.
Seus perfis on-line se transformam em murais de indiretas bem diretas,
pedidos de atenção, lamúrias, clamores por abraços, fotos descontextualizadas,
calúnias, bate-bocas, insignificantes status atualizados de minuto a minuto...
Gente que pede conselho, faz confissão de segredos, mostra tudo mesmo!
E acabam assim se esquecendo de que a Internet é um lugar onde tudo o
que é visceral se torna leve, bobo, passível do ridículo. Tudo o que é
despejado ali é descartável, efêmero, banal. Uma vez que a vida se projeta
inteiramente nas redes sociais, parece que se banaliza também, perde o sentido
e o peso.
O curioso é que talvez esse excesso de demandas de atenção e declarações
de carência despejado em sites como o Facebook surja exatamente do fato de
termos reduzido nossa convivência e interação com os outros em nível pessoal.
Ou seja, reclamamos na tela do computador, falando sobre nossas
saudades, anseios, desejos, loucuras... Mas já não temos forças para desligar a
máquina e buscar abraços reais. A máquina nos rouba de nós e aí vamos à máquina
reclamar que já ninguém nos alcança... Somos mesmo estranhos.
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