Transformações e dinâmicas urbanas ocorridas nas cidades do Amapá
entre 1950 a 2014
José Alberto Tostes
As
cidades do Amapá, bem como outras cidades amazônicas estão fortemente
influenciadas pelos projetos capitalistas e grandes empreendimentos privados de
ontem e de hoje. Muitos destes projetos e os discursos desenvolvimentistas
foram induzidos por práticas intervencionistas do Governo Federal. As
circunstâncias norteadoras desse processo produziram na Amazônia, ao largo do
tempo, diversidade de formas e
concepção de novos conteúdos o que demonstra a complexidade das relações
presentes na dinâmica regional, evidenciando um acúmulo de múltiplas
interpretações sobre o que aconteceu na região. Mas há de se destacar, de
acordo com diversos autores, a urbanização na Amazônia foi concebida pelo
Estado visando dominar e proteger as fronteiras, possibilitando a valorização
de áreas com real potencial econômico.
O capital privado explorou os recursos
naturais da região, e o uso diversificado de matéria prima. Sem valor agregado
decorrentes de processos de transformação, em geral produzidos fora do País,
apresentou resultados tímidos para um contexto que envolve inúmeras riquezas
naturais. O governo não revela o viés político-econômico que permeou as suas
ações, mas interferiu de forma progressiva no modo dos habitantes da região,
sobretudo nas questões de natureza cultural.
No universo de
tais práticas, o “inchaço” populacional foi inevitável, com implicações na
formação de novos núcleos urbanos, surgem continuamente, pela sua capacidade de
absorção populacional esgotada. Ressalta-se que parte dessa massa populacional
não conseguiu colocação profissional, instituindo-se assim, mão-de-obra com
reduzida qualificação.
O fluxo social
determinou a forma e o período de organização social, contribuindo, para o
surgimento de novas espacializações urbanas, transformando o ambiente
construído, herdado das estruturas sócio espaciais anteriores e colaborando
para que os processos sociais instituídos fossem logo caracterizados. Para
compreender a dinâmica das cidades amapaenses, deve-se buscar na década de 1940
quando o modelo federalista transformou o Amapá em Território Federal, sob a
bandeira da necessidade de ocupar áreas fronteiriças. A partir de então,
desencadeia-se uma campanha para atrair grandes empreendimentos econômicos para
a região, gerando atrativos relativos à infraestrutura.
As condições necessárias para a
instalação de tais empreendimentos responderam inicialmente de forma positiva,
após constatarem a predominância de recursos naturais, como madeira e minérios
de excelente qualidade, a exemplo do caulim no Morro do Felipe em Vitória do
Jari, do manganês em Serra do Navio e, mais recentemente, do ferro em Pedra
Branca do Amapari. Um dos atos iniciais da nova condição político-jurídica no
Amapá ocorreu um ano após a criação do território.
Em 1945, cria-se o município de
Oiapoque, com o fim de proteger a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa,
e em 1956, o município de Calçoene visando à reorganização territorial,
política e administrativa do então Território Federal do Amapá, ambos
desmembrados do município de Amapá. Por conta da nova configuração, os quatro
municípios, incluindo Macapá, desenvolveram dinâmicas diferenciadas, em que
pese à intensa intervenção do Governo Federal, controlando até mesmo o aparato
administrativo. Tais municípios passam a ter atribuições de caráter sócios
espaciais atreladas à saúde, educação, moradia, embora, como já citado, a
infraestrutura disponibilizada pelo Poder Estatal, tenha sido concentrada na
capital Macapá.
As transformações urbanas no
Amapá começam a ser delineadas de forma mais expressiva, a partir da década de
1950, com a presença da Indústria de Comércio e Minérios S/A – ICOMI em 1953,
empresa brasileira, que em 1947, recebeu autorização do Governo Federal para
explorar o minério de manganês, em Serra do Navio, por 50 anos. Este
empreendimento atraiu significativo contingente populacional que se instalou ou
na capital, ou em núcleos urbanizados construídos nos Distritos de Santana e
Serra do Navio, esses à época sem perspectiva de serem içados à categoria de
município, ou ainda no entorno desse empreendimento.
No Distrito de Santana foi
implantada a base administrativa da ICOMI, o porto de embarque do minério de
manganês e a construção de uma vila operária dotada de um plano urbanístico, a
Vila Amazonas, surgiu logo uma vila espontânea, denominada Vila Maia ocupada
por migrantes oriundos principalmente de regiões ribeirinhas do estado do Pará,
movidos pela expectativa de empregos e de benefícios da infraestrutura. Tais
migrantes se instalaram em invasões de áreas baixas, como na baixada do
Ambrósio e as ressacas do Provedor, Paraíso, Fonte Nova e Vila Comercial, no
município de Santana. Essas circunstâncias de ocupação contribuíram para que se
consolidasse a implantação da Vila Maia, entre as décadas de 1960 e 1970,
surgindo também outras vilas decorrentes desse processo.
O município de Santana foi o
que mais absorveu as pressões de ocupação, a despeito de ser considerado um dos
núcleos mais capacitados do estado em termos de infraestrutura após a capital.
Contudo, dois fatores dificultavam o desenvolvimento e expansão do núcleo
urbano a diminuta área disponível; segundo, suas condições topográficas
adversas.
Em Macapá, essa dinâmica
teve impacto significativo entre 1950 a 1960, a população cresceu 127%,
atingindo em 1970 um aumento de 318% em relação a 1950, indicando dessa forma a
origem dos problemas sociais que ainda nos tempos atuais são evidentes. Nos
demais municípios, a massa populacional se manteve na área rural, mas é
pertinente salientar que Oiapoque e Calçoene quando da sua municipalização, a
população não ultrapassava 3.000 habitantes. Nas décadas de 1980 a 2010, as
taxas de crescimento só aumentaram contribuindo para que Macapá e Santana
juntas tivessem cerca de 80% da população de todo o estado do Amapá, muitos
fatores contribuíram nestes trinta anos para este fato, a criação da Área de
Livre Comércio, novos projetos minerais e a criação de novos municípios no ano
de 1992.
No período do Território do
Amapá, a estrutura urbana se resumia praticamente ao entorno de Macapá, outros
assentamentos eram apenas núcleos induzidos, espontâneos ou de equilíbrio com
população abaixo de 10 mil habitantes. As cidades eram constituídas geralmente
à beira do cais, concentrando todo o movimento da cidade. Com núcleos pouco
densos e tenuamente estruturados, em alguns pontos as vias eram pouco
definidas. Ainda hoje a configuração da maioria dos municípios amapaenses
converge para essa formatação, ou seja, com incipiente organização básica em
termos de infraestrutura urbana.
Macapá passou a exercer
grande atração pelas populações das demais cidades do território por ela
polarizadas, em face da exploração de manganês em Serra do Navio, embora se
beneficiasse apenas como entreposto comercial. Nessas circunstâncias, a
realidade sócio espacial urbana que ora se apresenta é reflexo de um
crescimento econômico que não foi indutor de desenvolvimento para essa cidade,
acarretando um dos problemas mais sérios que é o crescimento da demanda por
serviços públicos relativos à água, luz, telefone, assistência à saúde e
educação. Ainda em relação ao período em tela, aponta-se a instalação no Vale
do Jari, em 1967, o Projeto Jari.
De
1950 a 2014, as transformações urbanas ocorridas nos municípios do estado do
Amapá revelam que Macapá, Santana e Laranjal do
Jari são os únicos municípios a terem um fluxo de atividades econômicas mais
intensas. Todos os demais (13) se apresentam com atividades extremamente
frágeis e, com sedes municipais sem a menor infraestrutura urbana e sem as
condições básicas necessárias para a manutenção da qualidade vida dos cidadãos
lá residentes.
A carência econômica afetou diretamente a vida nas cidades, os gestores públicos municipais adotaram políticas assistencialistas, não produzem perspectivas de
melhorias futuras para o cidadão que se torna dependente dessa prática, por sua vez, se tornam reféns de suas próprias ações, quando não
adotam trabalhar por meio do estabelecimento de metas de médio e longo prazo.
Desse modo, é muito comum a aplicação da prática intervencionista do “fazejamento” que se caracteriza basicamente pela preferência por ações
imediatistas, de curto prazo, fragmentando-as de maneira que a sociedade não se
beneficia continuamente e de forma duradoura de tais ações.
Os
Projetos estruturais e estruturantes não tem sido suficientes para amenizar os
reduzir as adversidades nos municípios amapaenses, pode-se citar o caso das
cidades fortemente influenciadas por este fator, caso do Oiapoque, apesar de
alguns investimentos pontuais. Os projetos citados anteriormente a partir de
1950 não produziram riquezas quanto ao desenvolvimento do lugar, se tomarmos
como base o que ocorreu com Serra do Navio e o que vem acontecendo com Pedra
Branca do Amapari, os resultados são apenas os rastros de miséria e acúmulos de
problemas urbanos e ambientais generalizados.
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