Redução da idade penal: solução ou ilusão?
Reinaldo
Coelho
A redução da maioridade penal no Brasil
- de 18 para 16 anos - foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça
(CCJ) da Câmara. A admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição (PEC)
teve 42 deputados favoráveis e 17 contrários. A partir de agora, a proposta
precisa passar pela análise de uma comissão especial de deputados, em até 40
sessões.
A PEC permite que jovens com idade
acima de 16 anos que cometerem crimes possam ser condenados a cumprir pena numa
prisão comum.
Atualmente, a idade mínima é de 18 anos
e, até então, o adolescente infrator é submetido à internação em
estabelecimento educacional.
A questão da maioridade penal é
considerada um assunto complexo sob seus aspectos sociais ou jurídicos. Hoje se
constata a evolução crescente do número de adolescentes na prática de atitudes
criminosas, os quais já não mais se limitam ao cometimento de pequenos delitos.
Atualmente, a sociedade
brasileira assiste estarrecida ao crescimento do envolvimento de crianças e
adolescentes com o mundo do crime. Muitas vezes, estes vêm sendo utilizados
como escudo para criminosos maiores de idade, que se escondem atrás de menores
colocados à frente da prática de crime. Um dos motivos que levam os criminosos
a se utilizarem deles para praticar os crimes intentados é o fato de que, no
Brasil, tem-se a impressão de que os menores ficam impunes, ou seja, de que não
existam sanções efetivas para quem tem menos de 18 anos. Assim, necessária se
torna a redução da maioridade penal como meio de diminuição da prática desses
atos infracionais.
Posicionamento contrário
Diversas instituições que lidam
com o direito, até mesmo no governo federal, vêm se posicionando contrário à
redução da maioridade penal. No Amapá as opiniões também divergem, porém, o
substancial não está sendo discutida, a politicas publicas que ajudem esses
menores a não delinquir e que já existem no Estatuto da Criança e do
Adolescente e não vem sendo executadas.
Falta tudo: educação, saúde,
segurança pública, de políticas públicas, de conselhos comunitários eficazes
(integrando os adolescentes às atividades da comunidade), de efetividade dos
direitos fundamentais e de aparelhamento nos institutos de internação de
menores são algumas das causas imediatas e mediatas desse fenômeno que é a
delinquência infanto-juvenil.
De acordo com a revista Visão
Jurídica no Texto: Sande Nascimento de Arruda: Por isso, não devemos conceber
apenas o lado da penalidade aos jovens. Tem-se, de longas décadas, a omissão do
poder público no tocante à prática de atos concernentes à viabilização das
normas constitucionais garantidoras de direitos essenciais, tendo em vista que
grande parte da população é excluída do digno convívio social. Isso enaltece o
desnivelamento de classes e por via refletiva afrontando a dignidade da pessoa
humana, surgindo, ainda que não justificante, uma camada criminalizada da
população, constituindo-se em um núcleo de violência que atinge toda a
sociedade.
O ECA precisa ser aperfeiçoado
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| Desembargador Carmo Antônio |
A reportagem procurou o
desembargador Carmo Antônio, do Tribunal de Justiça do Estado do Amapá (TJAP),
em abril de 2013 que se manifestou como professor de Direito Penal. Ele se
posicionou contra a redução, e explicou o por quê:
Sou estudante do Direito há muito
tempo, e professor de Direito Penal, e desta forma emitirei minha opinião: Toda
vez que se tenta tratar os crimes com maior rigor penal, em nenhum momento os
crimes arrefeçam, ou seja, nunca há diminuição de criminalidade, apenas porque
se estabeleceu uma pena maior. É normal que o criminoso antes de cometer o
delito, não verifique no Código Penal se a sua pena será maior ou menor. Ele
está disposto a cometer o delito e pronto".
"Com referência à criança e
adolescente, a finalidade do ECA, que é a legislação mais avançada do mundo,
não é punir, mas sim proteger, pois a criança e o adolescente estão em
formação. Tratar com maior rigor esses jovens seria uma solução um tanto
simplista, e isso de maneira nenhuma, resolveria o problema. A justificativa é
que a criança e o adolescente, não deixarão de cometer delitos. Então, a
solução é que precisamos de politicas públicas eficientes (opinião da maioria
dos especialistas de Direito Penal, Psicologia e Psiquiatria). Vamos
simplesmente tirar a criança ou adolescente de um local onde ele tem maior
chance de recuperação para manda-lo para penitenciárias? Lá as chances de
recuperação são quase nulas".
"Minha conclusão é: O ECA
precisa ser aperfeiçoado? Precisa! Se tiver alguma situação que mereça ser
tratada com rigor, vamos ajustar, mas simplesmente reduzir a maioridade penal
como estão propondo, para a idade de 16 anos ou até menos, como acontece em
países como Estados Unidos (11 anos), não é a solução definitiva. O nosso
Código de 1930 e de 1990, tratavam a matéria dessa forma. Então, as pessoas que
tinham menos de 14 anos recebiam tratamentos mediante a avaliação psicológica,
e entre 14 e 18 anos, o rigor da Lei era de acordo com entendimento do caso.
Por isso temos de ter um cuidado maior, e se for necessário com maior rigor,
isso deve ser feito através de um estudo. Existem algumas situações gravíssimas
acontecendo, como adolescentes praticando crimes hediondos. Isso é
indiscutível! Mas, isso não deve ser motivo para a redução da maioridade
penal", finaliza o desembargador.
Comissão
de Direito Humanos da ALAP
O
presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Amapá,
deputado Pedro da Lua (PSC-AP), se manifestou frontalmente contrário a proposta
considerada constitucional na última semana, em votação na CCJ da Câmara dos
Deputados e que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos.
“À espera
de um milagre para reduzir seus índices de criminalidade, o Brasil ameaça
caminhar para trás ao reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos de idade.
Em tempos em que a tendência mundial é a contrária, o país dá espaço para uma
proposta de emenda constitucional que quer mudar uma legislação tida como uma
das mais avançadas no mundo, resgatando ideias que vigoravam por aqui no século
dezenove. Projeto, esse, que na última semana foi considerado constitucional
pela Câmara de Deputados – com o apoio de 92,7% da população, segundo dados do
Instituto Data Folha”, revelou.
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