O bairro do Muca é uma antiga ressaca
Autor: José Alberto
Tostes
Todos
perguntam o que será da cidade de Macapá sem as ressacas? Tal pergunta, pode
ser considerado um exagero? Acredito que não, mas deve se levar em conta o que
ocorreu em um intervalo de 40 anos, neste caso, a situação é para se preocupar.
Em aproximadamente 04 décadas, Macapá perdeu parcialmente boa parte das áreas
de ressacas, muitas delas invadidas e de forma criminosa, aterradas, a
combinação destes fatores, vem contribuindo para o desaparecimento das
ressacas.
No
principio da década de 1970, Macapá possuía um quantitativo de população
equivalente com menos de dois terços do total de população de hoje, fato
facilmente constatado pelo baixo número de bairros da época, a cidade estava
limitada aos bairros mais conhecidos: Trem, Beirol, Buritizal, Centro, Favela,
Jesus de Nazaré, Santa Rita, Laguinho e Pacoval e Perpetuo Socorro, Macapá não
tinha mais do que 10 a 12 bairros. A partir dos anos 80, aparecem diversos
outros bairros com destaque para o bairro dos Congos, que na atualidade agrega
um bom contingente de população e começo do crescimento da zona norte e sul da
cidade.
Até o final dos anos 80, a paisagem
da área conhecida como Muca era praticamente uma área com características
eminentemente rural, a maior parcela formada por bacias naturais. O nome Muca
era o apelido do Sr. Guilhermino, que no ano de 1989, elabora um projeto de
loteamento denominado de “Muca”, nesta área havia poucas residências, as que
existiam ficavam bem distantes um das outras, pode-se considerar que o lugar
guardava muita proximidade com os bairros mais próximos: Beirol e Buritizal. Ao
final do ano de 1989, Macapá teve impulso grande por conta das atividades de
algumas mineradoras, entre elas a Novo Astro que explorava minérios na região
do município de Calçoene.
Nos
primeiros anos da década de 1990, Macapá passa a ter um crescimento
avassalador, são muitos fenômenos que decorrem de uma vez só: a criação da Área
de Livre Comércio de Macapá e Santana em 1992; a criação de vários municípios;
a realização da primeira eleição oficial em dois anos antes para prefeito e
governador; o crescimento de outros projetos minerais; a retomada da cooperação
transfronteiriça com a Guiana Francesa a partir de 1995. Também neste período
na região amazônica ocorre uma “onda” desenfreada sobre a criação de áreas de
conservação, reservas e parques, cria-se, por exemplo, no Jari, a Resex, um
grande reserva extrativista.
Novas
áreas vão sendo ocupada na cidade entre o final da década de 1980 até a metade
dos anos de 1990, as áreas mais destacadas: área do Araxá, Congos, Novo
Buritizal, São Lazaro e zona norte, Nova Esperança, Cuba do Asfalto, Jardim
Marco Zero e Muca, entre as principais. Ocorreram duas mudanças cruciais que
favoreceram a ocupação do hoje bairro do Muca. A Hildemar Maia foi aberta até a
Rodovia JK, havia uma grande propriedade neste lugar, pertencente a família
Braga que foi desapropriada e o outro fator, foi a o alargamento da Santos
Dumont e vinculação de conectividade com o Marco Zero, agregando na época com
outros investimentos, o problemático conjunto habitacional do Conjunto da EGO e
o loteamento proposto e aprovado pela Prefeitura Municipal de Macapá,
denominado de “Muca”.
A
conjugação destes fatores foi determinante para que a ocupação de áreas de
ressacas fosse inevitável, em meados dos anos 90, a extensão territorial da
área estava quase toda tomada, para piorar a situação crescia o volume de áreas
aterradas, sem controle prévio, quando a área dos Bragas foi desapropriada, não
houve monitoramento das áreas de ressacas, ocasionando uma pressão desenfreada,
este fato contribuiu para o desaparecimento parcial da ressaca do Muca, já que
administração do Prefeito Aníbal Barcellos, deixou-se de realizar a
fiscalização urbanística, retirando os postos de apoio que existiam na
proximidade de várias áreas.
O
desaparecimento da ressaca do Muca, enquanto ressaca só evidencia o desastre
urbano e ambiental que se aproxima, o crescimento, o adensamento populacional,
tem contribuindo para descaracterizar o traçado urbano da cidade modernista,
com ruas e vias largas, além de ter dois fatores incômodos para cidade de
Macapá: alagamentos e enchentes com a sobrecarga no Canal das Pedrinhas. O que é mais grave neste cenário, é que o
poder público só assistiu tudo isso acontecer neste período. Questiona-se o
planejamento, a falta de planejamento ou a inexistência de planejamento, mas
algo importante deve ser dito, a cidade até o final dos anos 80, já tinha 03
planos urbanos elaborados nos anos de 1960, 1973 e 1977, portanto, havia um
farto material sobre as condições das áreas úmidas da cidade, as funções
básicas de Bacia de acumulação de águas naturais, e os efeitos e controle do
micro clima para cidade.
A
questão do planejamento, não é de hoje, não houve frente para conter a pressão
social, a pressão política irresponsável, muitos políticos da época incentivam
e davam condições materiais para ocorrerem às invasões coletivas. A ressaca do
Muca, praticamente desapareceu, e a continuar na projeção em relação aos anos
anteriores, fatalmente as próximas serão inevitáveis como: Ressaca da Lagoa dos
Índios, Chico Dias, dos Congos, do Pacoval, Nova Esperança entre tantas outras.
Para
aqueles que não conhecem o Muca já foi uma ressaca, o futuro parece sombrio
quando se trata de cuidar do lugar onde vivemos a possibilidade de perder as
áreas úmidas, áreas que dão um caráter peculiar para cidade de Macapá, é algo
que entristece a todos, deixa a amargura que a história não mente, pois o que
mais os planos urbanos de 1960 até 1997 chamam atenção é o cuidado para com as
áreas naturais da cidade de Macapá.
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