quarta-feira, 10 de junho de 2015

SAÚDE EM FOCO





O MEIO AMBIENTE, AS BACTÉRIAS, A NATUREZA E A SAÚDE HUMANA.

       
Na atualidade são inúmeros os mecanismos e processos que desencadeiam o surgimento de doenças, envolvendo o homem, os animais, os vegetais e a natureza. É o que chamamos de complexo processo saúde-doença, que ocorre antes, durante e depois de sua instalação.  Conhecer esse mecanismo em suas várias nuances e mudanças é papel daqueles que tratam da saúde humana, como os médicos.

Recentemente assisti a um filme sobre as pragas debeladas no Rio de Janeiro, na época que era capital federal, pelo médico e higienista Osvaldo Cruz, na aplicação da vacina antivariólica e de medidas higiênicas, que tinha essa visão ampliada da saúde. Na idade antiga os cidadãos de Roma tinham poucos casos de diarreia devido o destino adequado dos dejetos e das obras de abastecimento de água potável e saneamento, preservando a sanidade nos mananciais.

Quando o homem desequilibra ou contamina o meio ambiente ou ignora as leis e reações da natureza sofrem as suas consequências através de doenças, adquiridas diretamente ou veiculadas por outros seres animais ou vegetais. A Medicina Sanitarista, a Medicina Comunitária e a Epidemiologia que se ocupam da análise e interpretação desses fatores estão ai para contribuir. Deveriam ser chamados para fazer os planos e projetos de impacto na saúde da população, pois conhecem os meandros e a origem multifatorial das doenças.

Com o avanço da compreensão desses setores preventivos de saúde e da necessidade de alimentar e distribuir água potável para grandes populações e cidades cada vez maiores, começou-se a entender a interferência da indústria alimentícia, da pecuária, da agricultura e da avicultura como elementos preponderantes no surgimento de doenças e na saúde humana.

Os animais – entre eles o homem – e as plantas convivem com milhares de bactérias e outros germes em seu organismo. Ocorre uma verdadeira simbiose (troca de benefícios) entre o germe e o hospedeiro. Esta é a natureza da vida: as bactérias se albergam no organismo de forma harmônica em quantidade e resistência controladas, sem causar danos recíprocos. Quando esse equilíbrio é quebrado, o microrganismo torna-se patogênico e hospedeiro doente.

Além dos germes existentes em nosso corpo (cavidades naturais e intestino), constantemente ingerimos bactérias de vegetais, frutas e carne animal. É o caso da Candida albicans, fungo existente na pele e da bactéria Escherichia coli no intestino e no trato urinário, sem causar danos à nossa saúde.

Estabelecemos trocas e transferências de microrganismos, recebendo e colonizando em nosso corpo bactérias diversas, ou passando por nós temporariamente, saindo e voltando ao meio ambiente. Ocorre também o inverso, quando passamos germes para os vegetais e animais. É o que se estabeleceu a nível mundial nas últimas décadas, com o desenvolvimento e globalização da indústria alimentícia, da agropecuária e da fármaco-indústria.

Uma das consequências maléficas desse desequilíbrio desenfreado pode ter sido causada pela adição indiscriminada de antibióticos e pesticidas nas lavouras e nas rações de animal de corte (aves, gado e outros). A colonização no intestino humano dessas bactérias resistentes a vários antibióticos ameaça nosso já restrito arsenal de tratamento, com risco de os antibióticos não terem efeito diante de várias infecções.

Embora os antimicrobianos adicionados aos alimentos tenham “melhorado a produtividade da carne destinada ao abate nas últimas décadas, reduzindo o adoecimento, prevenindo infecções comuns e favorecendo o crescimento, o seu uso indiscriminado, entretanto, ocasionou o surgimento gradativo de um exercito de bactérias resistentes”. Como criadouros dessas bactérias os alimentos podem se tornar maléficos ao homem quando ingeridos. Entre essas temos a Salmonella, encontradas no ovo cru contaminado ou na carne de galinha; a Yersinia dos suínos; o Camphylobacter das galinhas; ou a E. coli de hambúrgueres contaminados.

Países desenvolvidos como França, Alemanha, Inglaterra e USA já passaram por situações dessas. Em 1988, os britânicos encontraram nas fezes de seus rebanhos Salmonella resistente a antibióticos e posteriormente em seres humanos. A taxa de resistência a antibióticos chegou a 66% no gado e 17% em humanos. Nos Estados Unidos foram encontrados taxas de 28% de resistência a vários antibióticos. Isso mostra que as chances de não termos resposta no uso de antibacterianos para diarreia é muito maior agora do que antes, quando os animais eram alimentados mais naturalmente sem aditivos químicos.

O caso mais grave e que persiste até hoje, começou na França (1986) e nos USA (1989), quando surgiu um Enterococcus resistente à vancomicina. No Brasil foi detectado, em 1997, nos hospitais de Estado de São Paulo e hoje elas podem ser encontradas quase em todo o país. Mas porque isso aconteceu nesses países? Em 1974 foi aprovada a incorporação do antibiótico avoparcina nas rações animais. Como a molécula de avoparcina é semelhante à vancomicina, o uso abusivo gerou bactérias resistentes também à vancomicina (P. Courvalin et al, 2001), pois o antibiótico contido nas rações e fezes  foi introduzido no meio ambiente natural. Apenas em 1997 houve a proibição da adição de avoparcina em toda a Comunidade Europeia.

Esses estudos, comprovados cientificamente, mostram o perigo e o risco do surgimento de bactérias resistentes a antibióticos usados no homem para debelar infecções, assim como servindo de exemplo “de quão perigosa é a nossa interferência no nicho ecológico da poderosa natureza”, com lixo, dejetos e alimentos artificiais. (Fonte: CUNHA UJVARI, S., 2004)


JARBAS ATAÍDE




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