Estrada de Ferro do
Amapá
58 anos – ‘do apogeu ao
atual declínio’
Reinaldo Coelho
A ex-prefeita do município
de Serra do Navio por dois mandatos, Francimar Pereira da Silva Santo, em
entrevista lamentou a atual situação da Estrada de Ferro do Amapá, ressaltou
que via com muita tristeza “o nosso trem
ser dilapidado, estão levando até os trilhos da nossa
estrada de ferro e ninguém está fazendo nada”.
Ela reforça que há mais de dois anos que alguns vagões estão parados próximo ao município de Porto Grande, pegando sol e chuva.
“Tive a informação que estão
tirando pedaços do metal com maçarico, o que é um absurdo. Estão acabando com a
nossa história e com um potencial grande que a gente tem que é a nossa Estrada
de Ferro do Amapá. É preciso que se tome uma providência, fico até com o
coração apertado falando essas coisas e saber que a gente pode daqui a algum
tempo não ter mais o apito do trem sendo ouvido dentro daquelas matas, uma das
atrações da região, com as viagens de trem para a Serra do Navio”.
Em resumo,
este desabafo da ex-prefeita, professora Francimar, ilustra perfeitamente a
atual situação de declínio da Estrada de Ferro do Amapá, que era uma das poucas
da Amazônia em atividade e que foi construída pela Indústria e Comércio de
Minérios S/A (ICOMI) para transportar o minério de manganês de Serra do Navio
para o Porto de Santana, num percurso de 200 quilômetros. Rasgando a selva, os
trilhos e os vagões transportaram nossas riquezas por mais de cinco décadas e
sempre bem cuidada, foram contados os acidentes naquela via, mas nunca
descarrilamento.
A Estrada de
Ferro do Amapá iniciou o tráfego em março de 1957. Nasceu como uma ferrovia
essencialmente destinada ao transporte do minério de manganês de Serra do Navio
para o Porto de Santana, no Amapá.
Além do
serviço de carregamento mineral, passou a contribuir com o transporte social,
dos moradores e da produção agrícola do entorno da ferrovia, ajudando assim a
expansão agrícola das comunidades rurais.
Duas vezes
por semana um vagão especial era separado para transportar a produção dos
agricultores que foram assentados as margens da EFA onde os polos de
desembarque eram Porto Grande e Santana. Os agricultores tinham a garantia do
escoamento da produção mesmo quando as condições das estradas de terra eram
precárias.
O Declínio
Com o
declínio da exploração de minério de manganês no Amapá, a ICOMI foi tendo suas
ações passadas com lucros fantásticos para investidores nacionais e
estrangeiros, ficando para o amapaense o “abacaxi”, que não era aquele
produzido em Campo Verde.
As empresas
assumiam os lucros, porém a manutenção e restauração do patrimônio imóvel e
móvel da empresa foram adiadas e o resultado é a deterioração da EFA.
Um dos
primeiros a tombar foi o antigo e seguro porto da ICOMI, uma das obras de
engenharia portuária, que na época foi ímpar, um porto fluvial para navios de grande
calado, dotado de píer fixo e de píer flutuante; pois era um porto flutuante,
adaptando-se sua estrutura ao fluxo da mare fluvial amazônica e as 90 braças de
profundidade que acabou por desmoronar pela falta de manutenção e não por obra
da natureza, de acordo com a empresa de plantão a ZAMIM.
No mesmo
período construiu uma estrada de ferro com bitola de 1,435 m, na extensão de
194 km. Incluindo pontes e pontilhões, sendo que 85 km do percurso seriam
através da selva, iniciando no município de Serra do Navio e cruzando as
cidades e comunidades rurais de Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Macapá,
até o destino final em Santana.
Essa grande
obra para o então recém-criado Território Federal do Amapá, era mais impulso
para o desenvolvimento. Porém, com o passar dos anos o a falta de compromisso
das empresas que assumiram a concessão a deixaram de realizar a manutenção e a
EFA já vinha mostrando seu declínio, com equipamentos sucateados, sistema de
trilhos desbitolados e os acidentes começaram a acontecer e pela falta do porto
de descarrego de minério foi o inicio do fim da ferrovia amapaense. E a cada
dia que passa os custos de manutenção aumentam ainda mais.
Caducidade da concessão
O Governo do
Estado verdadeiro dono da ferrovia já tentou decretar a caducidade da EFA e
providenciar nova licitação internacional para que esse patrimônio volta a
gerar riquezas para nossa terra.
Porém, a
justiça estadual anulou do decreto estadual de caducidade do contrato de
concessão da Estrada de Ferro Amapá (EFA) para a empresa Zamin Ferrous.
A PGE
afirmou que os prazos para legítima defesa da mineradora foram cumpridos, e que
o processo administrativo que cassou a licença é válido.
Para o governo
a medida foi necessária pela atual condição e interrupção das atividades na
ferrovia, justificando o decreto do fim da concessão e o suposto descumprimento
a vários termos do acordo por parte da multinacional, entre eles, a falta de
conservação de vagões e trilhos e a desassistência aos passageiros e
agricultores dos municípios cortados pela ferrovia. Além do processo, a empresa
ainda não teria pago seis multas referentes a autos de infração, que somam R$
1.460.224,11.
Agricultor isolado
Enquanto a
concessão da EFA está em litigio nos gabinetes refrigerados, os moradores das
comunidades do seu entorno começam a sentir a falta desse meio de integração
regional, principalmente os agricultores residentes no município de Pedra
Branca do Amapari, que devido a suspenção da exploração do minério de ferro no
município, utilizavam a EFA desde 2013 para o transporte de sua produção
agrícola.
A
alternativa de transporte a pessoas mais carentes deve-se pelo menor custo
entre a cidade do interior amapaense e Macapá. A passagem no trecho era R$ 30,00
mais barata que a de ônibus.
Agora a
ferrovia está a quase um ano paralisada e a empresa ZAMIR, atual
concessionária, não colocou um parafuso de trilho dormente. Com a interrupção
do serviço, a estação do quilômetro 178 encontra-se em estado de abandono. Os trilhos
estão cobertos por mato e placas de sinalização foram depredadas. Também é
possível avistar parte dos mais de cem vagões escondidos no percurso que passa
pelo pátio da Zamin.
De mão em mão
Em março de
2006 a MMX Mineração e Metálicos assume o controle da EFA, vencedora do
processo licitatório por meio da Acará Empreendimentos e torna-se a nova
administradora da ferrovia por vinte anos.
O valor da
concessão, de 814 mil reais, foi pago no ato da assinatura do contrato. A MMX
Logística ofereceu garantias de 7,8 milhões de reais para operar o contrato, e
estava obrigada a fazer investimentos de 40,7 milhões de reais nos 193
quilômetros de estrutura ferroviária do Amapá nos próximos dois anos (2007 e
200). O valor total da operação foi de 157,9 milhões de reais.
O contrato
previa que a MMX Logística invista, nos próximos dois anos, na recuperação das
estações ferroviárias entre Santana e Serra do Navio, revitalize todo o leito
da ferrovia com troca de trilhos, assim como modernização dos vagões e da
sinalização em todo o trajeto. A empresa também era a responsável por dotar os
vagões cargueiros de melhores estruturas para transporte de minérios e produtos
agrícolas.
Entre os
novos investimentos estava a compra de 82 novos vagões, junto a Iochpe-Maxion. A
MMX foi vendida para a Anglo American, que assumiu a concessão e logo vendeu
para a ZAMIM, nenhuma cumpriu as exigências de investimentos na ferrovia.




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