sexta-feira, 23 de outubro de 2015

SAÚDE EM FOCO




A cruel realidade entre o médico e as relações de trabalho

Em momentos de crise político-institucional e econômica como a que estamos passando, com interferências nas taxas de desemprego, distribuição de renda e nas relações de trabalho, não podemos nos furtar de avaliar a repercussão de tal situação no setor publico de saúde, na qual a presença dos médicos é peça chave na execução de uma assistência de boa qualidade.
Ter médicos ocupando a administração e cargos políticos não é novidade. Já ocuparam a presidência do Brasil (Juscelino Kubistchek-PTB), a Câmara Federal (Arlindo Chinaglia- PT), o Senado Federal (Sebastião Viana-PT). O maior Estado (São Paulo), hoje, é governado por um médico (Geraldo Alkimim-PSDB). Outras dezenas de médicos estão em cargos na máquina e administração pública.
Mas existe uma grande diferença entre estar no poder e sofrer as consequências dos desmandos do poder. Análises dizem que os médicos ocupam a classe C alta, com alegações de alto poder aquisitivo e estabilidade nas relações de trabalho. No entanto, somente se encontram nessa situação favorável quem está no poder (mandato/cargo comissionado) ou aqueles que se beneficiam dos cargos.
Na verdade os médicos que não estão no poder, quase na sua maioria, tanto públicos, privados, empregados, conveniados, cooperados, liberais, estão sofrendo as consequencias do poder político-econômico e do desserviço social implantado no país nos últimos 10 anos. O próprio Conselho de Medicina (CFM) analisa e denuncia essa degradação há anos.
É um grande engano e visão estreita comparar o médico, como já o fez uma autoridade de saúde, com o “sal, que é branco e se encontra em qualquer botequim”. Existe o subemprego, a precarização e insegurança trabalhista desses profissionais, que, às vezes, são tratados como “serviçais” – numa verdadeira “escravidão branca” – devido o aviltamento da remuneração e baixas condições de trabalho.
Mas a coisa não para por aí. Direitos desrespeitados, adquiridos somente com judicialização; cobranças por aquilo que é competência dos gestores púbicos; ausência de carreira publica e estabilidade no SUS; improvisação de condutas por falta de insumos e equipamentos básicos; cansativas e longas jornadas de trabalho; complexidade de procedimentos incompatíveis com a estrutura oferecida.
Essas são algumas consequencias causadas pelo poder político-econômico inoperante administrativamente e ímprobo em sua execução, incapaz de vislumbrar ou interromper a cadeia que se instala na máquina pública após cada mandato.
A justificativa de que os médicos não ocupam os cargos chaves da saúde pública, por “falta de disponibilidade” são subterfúgios e explicações nada convincentes para a classe sempre aberta ao diálogo. Na atual gestão o Sindicato dos Médicos do Amapá, entrou na pauta de negociação dos servidores, levou propostas, reuniu com autoridades por seis meses, fez paralisação, mas a gestão pública deu poucas respostas, muito aquém das necessidades.
O que se observa nas relações de poder entre o gestor, o empregador e os funcionários é a falta de uma visão estratégica e de uma política de valorização das classes trabalhadoras essenciais, que passam décadas esperando a concretização e execução de direitos já conquistados e vêm os mesmos sendo desrespeitados por gestores incompetentes e totalmente despreparados para atuar no serviço público.
Enquanto o médico não for valorizado pela importância social e essencial de seu trabalho, enquanto não tiver segurança e estabilidade nas relações empregatícias, as dificuldades se manifestarão não somente sobre ele, mas, sobretudo, nos usuários dos serviços de saúde e na sociedade, que merece atendimento de qualidade e com resolutividade.
JARBAS ATAÍDE – Macapá-AP, 18.10.2015 – DIA DO MÉDICO


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