A cruel realidade entre o médico e as relações de trabalho
Em momentos de crise político-institucional e econômica
como a que estamos passando, com interferências nas taxas de desemprego,
distribuição de renda e nas relações de trabalho, não podemos nos furtar de
avaliar a repercussão de tal situação no setor publico de saúde, na qual a
presença dos médicos é peça chave na execução de uma assistência de boa
qualidade.
Ter médicos ocupando a administração e cargos políticos
não é novidade. Já ocuparam a presidência do Brasil (Juscelino Kubistchek-PTB),
a Câmara Federal (Arlindo Chinaglia- PT), o Senado Federal (Sebastião Viana-PT).
O maior Estado (São Paulo), hoje, é governado por um médico (Geraldo Alkimim-PSDB).
Outras dezenas de médicos estão em cargos na máquina e administração pública.
Mas existe uma grande diferença entre estar no poder e
sofrer as consequências dos desmandos do poder. Análises dizem que os médicos
ocupam a classe C alta, com alegações de alto poder aquisitivo e estabilidade
nas relações de trabalho. No entanto, somente se encontram nessa situação
favorável quem está no poder (mandato/cargo comissionado) ou aqueles que se
beneficiam dos cargos.
Na verdade os médicos que não estão no poder, quase na
sua maioria, tanto públicos, privados, empregados, conveniados, cooperados,
liberais, estão sofrendo as consequencias do poder político-econômico e do
desserviço social implantado no país nos últimos 10 anos. O próprio Conselho de
Medicina (CFM) analisa e denuncia essa degradação há anos.
É um grande engano e visão estreita comparar o médico,
como já o fez uma autoridade de saúde, com o “sal, que é branco e se encontra em qualquer botequim”. Existe o
subemprego, a precarização e insegurança trabalhista desses profissionais, que,
às vezes, são tratados como “serviçais” – numa verdadeira “escravidão branca” –
devido o aviltamento da remuneração e baixas condições de trabalho.
Mas a coisa não para por aí. Direitos desrespeitados,
adquiridos somente com judicialização; cobranças por aquilo que é competência
dos gestores púbicos; ausência de carreira publica e estabilidade no SUS;
improvisação de condutas por falta de insumos e equipamentos básicos;
cansativas e longas jornadas de trabalho; complexidade de procedimentos
incompatíveis com a estrutura oferecida.
Essas são algumas consequencias causadas pelo poder
político-econômico inoperante administrativamente e ímprobo em sua execução, incapaz
de vislumbrar ou interromper a cadeia que se instala na máquina pública após
cada mandato.
A justificativa de que os médicos não ocupam os cargos
chaves da saúde pública, por “falta de disponibilidade” são subterfúgios e
explicações nada convincentes para a classe sempre aberta ao diálogo. Na atual
gestão o Sindicato dos Médicos do Amapá, entrou na pauta de negociação dos
servidores, levou propostas, reuniu com autoridades por seis meses, fez
paralisação, mas a gestão pública deu poucas respostas, muito aquém das
necessidades.
O que se observa nas relações de poder entre o gestor, o
empregador e os funcionários é a falta de uma visão estratégica e de uma
política de valorização das classes trabalhadoras essenciais, que passam
décadas esperando a concretização e execução de direitos já conquistados e vêm
os mesmos sendo desrespeitados por gestores incompetentes e totalmente
despreparados para atuar no serviço público.
Enquanto o médico não for valorizado pela importância
social e essencial de seu trabalho, enquanto não tiver segurança e estabilidade
nas relações empregatícias, as dificuldades se manifestarão não somente sobre
ele, mas, sobretudo, nos usuários dos serviços de saúde e na sociedade, que
merece atendimento de qualidade e com resolutividade.
JARBAS ATAÍDE – Macapá-AP,
18.10.2015 – DIA DO MÉDICO
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