Para toda Itália, uma
Holanda
No curso de Letras da UFC, como parte
obrigatória do currículo, todo graduando tem uma determinada quantidade de
horas de estágios a cumprir, dando aulas no ensino fundamental e médio, de
Literatura e de Língua Portuguesa. Os estágios são matérias do próprio curso ao
longo dos últimos semestres, e se dividem elas mesmas em uma parte dentro da
universidade, assistindo às aulas dos professores da faculdade normalmente, e
outra parte indo à campo, à docência, os próprios alunos lecionando nas salas
de ensino médio e fundamental.
Acontece que as cadeiras de estágio
do curso de licenciatura são sempre um divisor de águas. É bem aí que o
graduando finalmente toma contato real com a realidade da sala de aula,
finalmente desempenhando o papel daquele que se coloca em frente à lousa.
A tarefa é assustadora. Parece que
reservam para o último momento da graduação o desafio que definirá, de fato, se
você está mesmo apto para perseguir a carreira que vinha construindo até ali.
Se por azar descobrir que não era bem isso o que queria, bem, meu amigo, será
um tanto doloroso, a esta altura do curso, pensar em qualquer outra coisa a se
fazer, assim como provavelmente será também difícil considerar continuar no
mesmo caminho.
Recentemente, experimentei o término
do estágio nas salas de aula de ensino médio e, voltando então para minha
cadeira de aluna, na faculdade, era chegado o momento de ouvir outra vez os
professores universitários, suas instruções, avaliações, direcionamentos, e
compartilhar com eles um pouco do que fora a experiência enriquecedora ou
pavorosa de estar enfim com o pincel de quadro branco na mão e a atenção (ou
não) de uma turma imensa e fervilhada de hormônios.
Minha professora de estágio, neste
nosso retorno aos bancos da universidade, introduziu sua aula com uma pergunta,
sem preâmbulos, sem quaisquer outros comentários: "Imaginem que vocês
estão em um avião, a caminho da Itália. O que é que há de maravilhoso na Itália
e quais as coisas incríveis que pretendem fazer lá?".
Nos pusemos a enumerar todos os
monumentos colossais que veríamos, as comidas divinas que provaríamos, as
experiências enriquecedoras que construiríamos. Divertindo-se, minha professora
foi anotando tudo o que dissemos na lousa, embaixo do nome "Itália".
Ao nos darmos por satisfeitos, terminamos a lista e ela escreveu no quadro, ao
lado de "Itália", o termo "Holanda". Então disse:
"Agora é que chega a parte boa!".
"Pois imaginem que",
prosseguiu ela, "de repente, dentro do avião, o piloto avisa que houve um
desvio na rota e a aeronave não se dirige mais à Itália, lugar de sonhos, de
tantos planos, mas sim à Holanda, país de que vocês nada conhecem, país que
normalmente não integra os mais comuns dos roteiros turísticos, de que ignoram
a língua e não sabem sinceramente o que podem fazer por lá. E então, o que acontece?",
ela disparou.
É claro que nos lamentamos. Toda a
turma já estava preparada para aquela maravilhosa e hipotética viagem à
Itália... Que é que faríamos com uma Holanda, assim, vinda do nada, desavisada,
inóspita, pitoresca demais para um gosto tão apaziguado quanto o nosso?
Mas então a professora fez com que a
turma se esforçasse e construísse também uma lista das coisas que poderíamos
ver e que poderiam acontecer na Holanda. Passado o momento da adaptação brusca,
forçada pela mudança no itinerário, lembramos das tulipas, das casas
flutuantes, dos moinhos de vento, dos passeios de bicicleta, dos
restaurantes... Alguns citaram até a boa e velha libertinagem.
"Bem", minha professora
concluiu, ao terminarmos a lista de tudo o que havia também de adorável na
Holanda, "talvez vocês tenham esperado do estágio, e mesmo deste curso,
uma Itália. Talvez, ao final de tudo, muitas rotas, muitos desvios, a
experiência acabou conduzindo vocês ao inesperado, à Holanda. Qual a conclusão?
Diremos que foi ruim?".
De modo algum. O estágio pode ter
sido, de fato, assustador, pavoroso, desafiador, diferente, novo, inóspito...
Mas o desconhecido normalmente carrega consigo todos esses dados. Entretanto, a
partir do momento que combinamos com nós mesmos: "Ok, vamos ver o que posso
fazer com isto aqui, com que eu não contava", a coisa melhora
consideravelmente. E levo a analogia da Holanda e da Itália para a vida, mais
ampla.
Às vezes a gente espera mesmo ir à
Itália. A gente quer porque quer ir à Itália. A gente diz que quer o que quer,
e quer o que quer, e ponto final! Ninguém planejou Holanda. Ninguém conhece
nada de Holanda. Ninguém se importa com Holanda. Mas, afinal, a vida faz uma
rota alternativa, você à mercê dela, vendo que quase não controla nada. E pode
pensar que, por não ter ido bater, afinal, lá na Itália, fracassou.
Todavia, a noção de fracasso só
existe mesmo quando você não está disposto a considerar as outras opções como
consequências, ao invés de derrotas. Como rotas alternativas, boas e novas em
si mesmas, possíveis, interessantes. Essa coisa de "fracassar" só se
instala quando se tem uma visão muito limitada, um horizonte muito estreito na
vida.
Uma escolha é, certamente, abrir mão
de outras coisas. Até nós adaptamos a isso. E em relação ao que não podemos controlar,
selecionar? Fracassamos? Não necessariamente. O novo se abriu para nós como um
lugar diferente. Não melhor, não pior, diferente. Longe de um bobo conformismo,
derrotismo (que seria até mesmo relutar em encarar novos caminhos), uma vez na
Holanda, não será difícil aprender a falar Holandês, e ver que, afinal, a
Holanda em nada perde para a Itália.
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