sábado, 20 de maio de 2017

Pioneirismo






"É importante repassar nossa tradição para as novas gerações. Um dia elas tomarão nosso lugar e não deixarão a nossa cultura e a nossa tradição se acabarem".


Dona Joaquina Jacarandá: Uma mestra de Mazagão Velho

Reinaldo Coelho
Da Editoria

Mazagão Velho completou 247 anos, este ano. Um local que pode ser tudo: aprazível, bom de morar, bom de ir, bom de passear, bom de viver, místico, mágico, alegre e mais tudo que um interior tranquilo e próximo pode ter e oferecer muito mais para aqueles que ali chegam.
Mas, bom mesmo sãos seus moradores, principalmente os (as) Mestres de Mazagão Velho que mostram aos que ali chegam pela primeira vez a raiz afro de seus habitantes, que vieram do Marrocos siberiano para a densa floresta Amazônica. Não tem mais testemunha viva do começo, mas tem quem conte a história do lugar com tantos detalhes que todos os que ouvem acabam por imaginar a forma que teriam para agradecer a tanto empenho, destemor e coragem dos primeiros moradores de Mazagão Velho.

Esta semana escolhemos uma mulher abnegada. Uma senhora que se devota em nome da fé e da cultura de Mazagão Velho. A mestra da terra de São Tiago. Uma pessoa capaz de representar como poucas a simplicidade e simpatia da comunidade que atravessou o Atlântico.
Mestra D. Joaquina Jacarandá - Mazagão Velho

Ela é dona Joaquina da Silva Jacarandá que completa 67 anos de vida neste dia 31 de agosto de 2107. Ela é filha de um casal pioneiro da velha Mazagão: dona Olga Jacarandá, hoje com 101 anos de idade, e seu Acendino Jacarandá, que já partiu para o Plano Astral. Das várias irmãs, “Tia Joca”, como é conhecida pelos muitos amigos e admiradores, é a única que abraçou com afinco o legado de dona Olga: cuidar das festas religiosas da igreja de Nossa Senhora da Assunção.

Dona Joaquina pode ser descrita como uma síntese da fé e da cultura do povo mazaganense. É foliã de São Gonçalo, devota da Padroeira, Nossa Senhora da Assunção – e dedica atenção especial à igreja que leva o nome da Santa – é uma das principais organizadoras da parte religiosa da Festa do Divino Espírito Santo, em agosto, e mestra do premiado Cordão das Pastorinhas. Mas, claro, dança e se diverte quando se junta às amigas nas rodas de marabaixo e nas poucas festas que vai.

Segundo dona Joaquina Jacarandá, a Festa de São Gonçalo é uma tradição que resiste ao tempo. "A festa era feita pela minha mãe, Olga Jacarandá, hoje com cem e dois anos de idade. Posteriormente, as filhas passaram a organizar as ladainhas, os cultos religiosos", lembra.
No dia 9 de janeiro, imagens de São Gonçalo são transladadas da Igreja de Nossa Senhora da Assunção até residências tradicionais de Mazagão Velho; no dia 10 acontece nova procissão e salve rainha pela manhã, confraternização das folionas e derrubada do mastro, no fim da tarde.
É cena comum dona Joca iniciando os cânticos religiosos entoados nas missas e novenas em Mazagão Velho. E essa voz também já foi emprestada para a gravação dos diversos CD’s que eternizam o batuque e o marabaixo mazaganenses, além de presença constante nas apresentações dos grupos em Macapá.
Por falar em São Tiago, durante o mês de julho, dona Joaquina abre mão de ficar ao lado da família para se dedicar com esmero à preparação de nossa maior manifestação cultural. Está sempre à disposição para colaborar para que o festejo do Glorioso saia o melhor possível. Também demonstra simpatia e bom humor invejáveis para dar informações e depoimentos aos visitantes.
"É importante repassar nossa tradição para as novas gerações. Um dia, elas tomarão nosso lugar e não deixarão a nossa cultura e a nossa tradição se acabarem", explica dona Joaquina Jacarandá, 66 anos, que faz parte do Grupo de Liturgia da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Mazagão Velho.
Aliás, que sorriso capaz de irradiar alegria! Desde garoto, não lembro de ter visto dona Joaquina mau humorada, aborrecida. Ou ao menos demonstrando isso. E é dessa forma singela e carinhosa que sempre cuidou do marido, José da Conceição (Zé Cardinho), dos filhos André Luiz, Ana Luiza e Nazaré Jacarandá, dos muitos filhos de coração e dos netos Eduardo e Anderson; talvez seja dessa energia positiva que tire fé e forças para lidar com a perda do primeiro neto, Aluísio Neto, que ainda criança foi chamado por Deus.
Joaquina da Silva Jacarandá se traduz em uma linda figura humana. Se traduz em amor, fé, em uma supermãe, super avó, super irmã, super tia, super sogra, enfim, uma super amiga. É amada e respeitada, uma unanimidade em Mazagão Velho. Tanto que os amigos e familiares reúnem para festejá-la, numa noite que promete muita surpresa e emoção.
Mais do que homenagear dona Joaquina, a ocasião é para agradecê-la. Peço licença para falar em nome da comunidade de Mazagão Velho e dizer “obrigado” à dona Joca, por tudo o que já fez e ainda vai continuar fazendo em nome da nossa identidade, nossa fé e nossa cultura. Parabéns, mestra Joaquina, pelos seus 60 anos.  (Texto de Gabriel Penha – Jornalista)

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