sexta-feira, 9 de junho de 2017

PIONEIRISMO








“Com o vozeirão que Deus lhe deu, assumiu de vez o posto de decano dos radialistas do Amapá, portanto alguém cuja história precisa ser olhada com admiração e respeito por parte de todos nós. O rádio, na vida do Edvar Mota, foi a paixão que fica para sempre”. João Silva


Edvar Mota – Radialista – “O Mestre da Voz”

Reinaldo Coelho

Edvar Mota, como era conhecido no meio radiofônico, era amapaense nascido em 19 de novembro de 1943, na Rua Mário Cruz, bem em frente à antiga Intendência, no centro de Macapá. Filho de um próspero comerciante português das ilhas do Pará e da dona de casa paraense Emília do Espírito Santo Fonseca.

Edvar teve uma infância feliz, no início do Território Federal do Amapá. Foi aluno do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Seu primeiro contato com o mundo artístico começou a partir da mudança de sua família para próximo à Rádio Difusora de Macapá, quando passou a observar os apresentadores e tomar gosto pelos programas apresentados na emissora oficial por locutores de renome na época. Contado por ele mesmo, passou parte da sua infância e adolescência percorrendo o auditório, salas e corredores da RDM nos bons tempos do “Clube do Guri”, das batalhas de confete, da novela no rádio e das personalidades que encantavam o público, como Edna Luz, Reinaldo Farah, Joíra Tavares, Creusa Bordallo, Ligia Cruz, Agostinho Souza, L. Coimbra, José Maria de Barros, Amazonas Tapajós, Argemiro Imbiríba, Agostinho Souza e muitos outros.

Foi lá que conheceu – aos 13 anos de idade – os técnicos da emissora: Ivaldo Veras, Manoel Veras, José Rodrigues, Otávio Pinheiro dos Santos, Baião Caçula e muitos outros. Aos 15 anos, ajudando o pessoal da técnica em pequenos serviços, começou a estagiar como Aprendiz de Operador de Áudio (antigo controlista) passando depois aos 17 anos a aprender as primeiras noções de rádio como locutor comercial, devido sua bela voz.
A partir daí trabalhou por longos anos na Rádio Difusora de Macapá apresentando os programas que marcaram sua carreira profissional como Carnê Social, Grande Jornal Falado E-2, A Grande Seresta e muitos outros. Edvar foi uma espécie de faz tudo na Rádio Difusora.
Edvar nas horas de folga também trabalhou, por muito tempo, em serviços de autofalantes, sendo um deles, o da Casa Ribamar, de Inácio Serra, que explorava o ramo de tecidos em Macapá. Também prestou anos de serviços como a voz oficial do Cine Macapá – A Casa dos Grandes Espetáculos – tanto para anunciar internamente as próximas atrações do cinema, no início das sessões, como na propaganda volante daquela famosa casa de projeções cinematográficas. Isso tudo ao vivo, pois na época não havia gravadores.
Deixar a emoção soltar a voz nas ondas do rádio, caprichar na pronúncia, botar clareza e competência na transmissão da notícia, foi uma opção feita por quem vivia o ambiente da RDM, e acreditava que a comunicação social podia operar transformações na vida de uma cidade, no dia-a-dia das pessoas em um lugar como o Território Federal do Amapá, 60 anos atrás.

Edvar leu textos de profissionais da extirpe de Alcy Araújo, Hélio Penafort, Ezequias Ribeiro de Assis, Carlos Cordeiro Gomes, Artur Nery e Hernany Marinho, redatores lotados no Gabinete do Governador que, entre outras tarefas, tinha a incumbência de preparar o ‘Grande Jornal Falado E-2’, noticiário chapa branca que atravessou várias administrações, inclusive de todos os governadores da Revolução de 64.

Modernização

Com a modernização que a tecnologia impôs ao rádio, ficou difícil para um locutor à moda antiga, voz de trovão tipo Cid Moreira, continuar fazendo sucesso. Como superar ou se integrar aos modismos, ao rádio FM chegando com força total? O Edvar optou em se adaptar aos novos tempos – desistir do rádio jamais!
No rádio deixou sua marca no programa ‘A Grande Seresta’, através das músicas de Orlando Silva, Adelino Moreira, Altemar Dutra, Edna Fagundes, Nelson Gonçalves e Pixinguinha, cuja composição Rosa era a sua preferida.
Seu grande parceiro das noitadas da Grande Seresta foi o músico e professor Nonato Leal, que definiu o companheiro como “um músico romântico e de uma sensibilidade musical enorme”, além de “excelente amigo, franco, leal e verdadeiro”.
A história de vida do radialista está registrada em um documentário de 30’- ‘Edvar Mota – o Mestre da Voz’ – produzido pelas jornalistas Elainne Juarez, Márcia Corrêa e a saudosa Hanne Capiberibe, orientadas pelo Mestre em Comunicação, Jackson Barbosa – trabalho de Conclusão de Curso pela Faculdade SEAMA, em 2004, que não tardiamente reconheceram e prestaram homenagem em vida ao grande radialista que foi Francisco Edvar do Espírito Santo Mota.
Verdade é que o decano do rádio tucuju foi escapando, amealhando algum tocando seresta, fazendo publicidade, trabalhando naquilo que gostava de fazer, ele que era figura obrigatória nas campanhas políticas, para pinçar coisa do tempo em que o governador Barcelos tentava sufocar a candidatura de jovem amapaense a deputado federal, bote tempo (“o bom cabrito não berra, vote em Paulo Guerra!”).
E assim, um reconhecimento aqui outro acolá, aquele vozeirão vai fazendo a diferença, o último foi que ‘A Grande Seresta’ virou tema do trabalho de conclusão de curso da primeira turma de jornalismo formada no Amapá. Claro que o Edvar merece isso, e muito mais que isso.
Esse texto está composto de duas versões da vida de Edvar Mota, um escrito pelo jornalista João Silva e outro postado pelo radialista João Lazaro.
¨* Este post usou como fonte dados do citado documentário: “Edvar Mota – o Mestre da Voz”, de uma cópia gentilmente cedida ao blog Porta Retrato, através da jornalista Hanne Capiberibe (falecida).

** O texto de João Silva, foi publicado alguns anos antes da morte do radialista que passou por várias emissoras de rádio do Amapá.

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