segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Um novo começo - Aline Colares

 
Tenho dois cachorros, que lisonjeada permito-me lhes falar os nomes: Dj e Bingo. Este é o mais velhinho e aquele está no auge da sua juventude, com seus músculos à mostra e vivacidade que até eu tenho medo, resultado da mistura da raça pitbull com vira-lata.
 Essa dupla quando soltos, não podem ver um portão aberto, que eles fogem. No entanto, nestas ocasiões, sempre voltam ao terminarem suas diversões pelo quarteirão. Recentemente, de manhã cedo, aconteceu isso novamente. Mas, só o velhinho voltou. O Dj, não. O procuramos, esperamos, muitas coisas vieram em nossas mentes, perguntamos aos vizinhos, o procuramos de novo. Nada! Não sou muito apegada a eles, mas mesmo assim já sentia sua falta, temendo que ele não voltasse.
Passou-se um dia, e de madrugada, o outro cachorro, que desde então parecia-se deprimido com a ausência do seu brother e best friend, começou a latir desesperadamente. Eu, em um sono profundo não ouvi nada, mas minha prima que ainda estava acordada abriu a porta e lá estava o Dj. Chegou muito ofegante, sujo e ferido. Quando ele viu a minha prima, se deitou e fechou os olhos, como se tivesse pensado “Ufa, finalmente! Que bom estar em casa!”. Minha prima lhe deu água e comida, estava morto de sede e de fome. O outro, por sua vez, estava todo animado com o retorno do irmão, mas também latia para que o carinho e atenção também fossem dados a ele.
 Imagino que vocês devem ter se divertido com esse pequeno relato, mas deixem-me compartilhar algo que veio a minha mente enquanto refletia sobre isso dias depois. Tudo isto que aconteceu achei muito parecido, que com mais perfeição Jesus Cristo disse aos seus discípulos, com a parábola do filho pródigo. Observaram semelhanças? Agora, após uma história cômica, concentremo-nos em algo mais sério e eficaz aos nossos corações.
 Temos assim nesta parábola: “E disse: Um certo homem tinha dois filhos; o mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E ele repartiu os haveres. Passados não muito dias, o filho mais moço, ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante e lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente. Depois de ter consumido tudo, sobreveio àquele país uma grande fome, e ele começou a passar necessidade. Então, ele foi e se agregou a um dos cidadãos daquela terra, e este o mandou para os seus campos a guardar porcos. Ali, desejava ele fartar-se das alfarrobas que os porcos comiam; mas ninguém lhe dava nada. Então, caindo em si, disse: Quantos trabalhadores de meu pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome! Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus trabalhadores. E, levantando-se, foi para seu pai. Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou [...]” (Lucas 15: 11-20).
Acredito que não há parábola ou discurso de nosso Senhor que seja tão conhecido e popular como a parábola do filho pródigo. Segundo o teólogo protestante Martyn Lloyd-Jones, “Uma parábola nunca tem o propósito de ser um esboço completo da verdade. Seu objetivo é comunicar uma grande lição, ou apresentar um grande aspecto de uma verdade positiva”.

Compilei apenas parte da parábola, leia-a toda e veja que Jesus Cristo nos apresenta uma possibilidade de um novo começo, uma nova chance. Para todos isso é garantido, até mesmo àqueles que parecem estar além de qualquer esperança. Vemos um quadro desesperador deste jovem, que havia chegado ao fundo do poço, abandonado, miserável, mas mesmo assim ele pôde começar outra vez. Não podia haver caso pior do que o do filho pródigo. Entretanto, até mesmo ele pôde começar de novo!

Outrora, não havia qualquer esperança para os desesperados do mundo, mas Jesus Cristo trouxe essa nova esperança para a humanidade. Lloyd-Jones diz “Jesus Cristo realmente é a única filosofia de vida otimista oferecida ao homem.” Devemos enfrentar nossa situação com franqueza e honestidade. Pense comigo: Uma coisa é estar numa posição má e difícil, outra coisa completamente diferente é enfrentá-la com sinceridade. O filho pródigo não caiu em si subitamente, mas arrependeu-se de seu erro e reconheceu que seus problemas eram resultados exclusivos de suas ações egoístas, maldosas.

Assim, todo homem precisa reconhecer seu estado de miséria e pecado e voltar-se para Aquele que é rico em perdoar e único capaz de salvar-nos, Cristo Jesus. Dessa forma, ao nos voltarmos para Ele, precisamos antes compreender que nada podemos pleitear diante dEle, exceto a Sua misericórdia e compaixão. Não temos o direito de exigir perdão de Deus ou sentir que Ele é severo demais e que está contra nós. Se for desta forma, somos os culpados do maior de todos os pecados. Deus amou o mundo de tal maneira, que deu o Seu Filho unigênito (João 3:16), quão grande amor Ele tem por nós.

Finalmente, Lloyd-Jones em um sermão acerca desta parábola fez indagações pertinentes, sobre as quais seria importante que a cada ano nos dispuséssemos a refletir e aplicar mudanças a nós, depositando tudo diante do Senhor. Ele diz assim: “O que você é hoje em comparação com o que foi no passado? Olhe para suas mãos — estão limpas? E os seus lábios — são puros? Olhe para seus pés — onde eles pisaram, que caminho percorreram? Olhe para si mesmo! É realmente você? E então olhe à sua volta, para a sua posição e os seu ambiente. Não fuja! Seja honesto! Do que você está se alimentando? Comida ou bolotas lançadas aos porcos? Em que você tem gastado seu dinheiro? Para que fins você usou dinheiro que talvez devesse ser usado para alimentar sua esposa e filhos, ou vesti-los? Avalie o que você gosta. Enfrente-o com calma. É algo digno de uma criatura criada por Deus, com inteligência e sabedoria?”

O mundo pode dizer que podemos voltar às costas ao passado e esquecê-lo, mas não é verdade, sempre volta à lembrança, e isso dói. Só Deus pode nos libertar do passado de uma vida em pecado, que pode apagar nossas antigas condutas, que pode enxugar as nossas lágrimas. Na verdade, Ele não só nos perdoa e apaga nosso passado, mas também nos torna filhos. Isso é maravilhoso! Ele nos dá uma nova vida! E, através de Sua palavra, Ele nos dá tal certeza do Seu amor que, ao nos arrependermos, podemos olhar para os outros sem qualquer sentimento de vergonha, na certeza de termos sido perdoados. Porque “já não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus” (Rm 8: 1). Sem essa posição e confiança, um novo começo não passa de um produto da imaginação.


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