segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Tec, Tec, Tec


Acho incrível o que a tecnologia fez com nossas vidas. Para além da supressão do velho tête-à-tête, ela conseguiu mudar cada pequenino aspecto de nosso cotidiano.
Meu avô, por exemplo, vive reclamando que aqui em casa ninguém mais “revela” foto, não interessando quão importante seja a comemoração ou o evento. E isso acontece mesmo, porque, já que as câmeras todas são digitais, parece-nos natural que as fotografias fiquem armazenadas unicamente nos computadores, redes sociais, e passem de pessoa para pessoa através de um pen drive. E o meu vovô, o teimoso Vevê, reclama... Mas ele tem razão. A tecnologia realmente deu um jeito de aniquilar as singelezas mais agradáveis da vida. Até mesmo as recordações materiais de nossas festas.
Tenho tanta reserva, e até certo receio em relação a isso tudo, que até hoje sou submetida a tenebrosas repreensões por parte dos amigos, justamente porque não tenho Twitter, Facebook, e afins. Bem, ausentar-me destes sites é a forma que encontrei de promover minha pequena rebelião. Recuso-me a escrever o que penso em apenas 140 caracteres, quando o que quero mesmo é dizer, a todo mundo, o que penso, com um mundo de palavras!...
Além do já mencionado, também poupo esforços ao me anular da rede cibernética, porque, como bem sabemos, a efemeridade desses sites de relacionamento é angustiante. E ganha tempo aquele que nem ao menos se arrisca a mergulhar em tais modismos. Ainda assim, admito, se o surto for mais prolongado do que o normal, quem sabe eu também caia de cama... Todo jornalista está fadado às mídias, afinal.
Agora, pode ser que alguém pergunte: “Como é que essa jovem colunista vem até aqui discursar sobre os malefícios da tecnologia e sobre o seu motim contra a internet, enquanto escreve seu artigo no conforto do ar-condicionado, com o computador portátil à mão?”. Ora, é verdade. Não deixo de reconhecer que a tecnologia agilita, e muito, todo o nosso esforço na execução de qualquer tarefa. No entanto, e mais importante, digo: toda esta facilidade tecnológica acaba condicionando um exército de preguiçosos, os quais acabam alucinados, achando que, ao simples apertar de um botão, hão de conseguir tudo o que quiserem.
Embora a tecnologia tenha trazido vantagens – disseminação da cultura, celeridade da vida moderna e pós-moderna –, seus danos parecem muito mais acentuados que seus benefícios. Sobre estes benefícios, reconheço que, por exemplo, os críticos literários já não estão mais confinados a uma única camada elitista e inacessível... Para ser crítico, hoje, basta ter um blog de sucesso e uma boa argumentação.
Também não existem mais não-cultos no mundo. Atualmente, dizer que alguém não tem cultura é ferir a identidade da pessoa no mais íntimo. Esta nova forma de encarar a sociedade só foi possível graças à massificação do conhecimento e à pluralidade de vertentes artísticas, as quais a tecnologia incumbiu-se de propagar.
Contudo, o inchaço deste planeta cheio de tudo (de informação, de conhecimento, de pressa...) fez brotar no meio de nós algo terrível: o acúmulo de lixo, de cultura inútil e a supervalorização do que é banal, enquanto boas tradições e preceitos antigos são simplesmente esquecidos, deixados de lado por não acompanharem a moda duvidosa dos dias atuais.
Tendo tanto em vista, só nos cabe perceber que estamos na condição de reféns da tecnologia, à medida que ela mina nossa capacidade, nossa força de vontade, nossa perseverança e nosso filtro intelectual. Portanto, ainda que pareça dar tudo de mãos beijadas, ela cobra alto preço.
Fomos sequestrados por nosso próprio desenvolvimento e avanço. Humanos mantidos cativos pelo braço de máquinas, submetidos a uma agonia dosada, porém letal. Tal agonia, imposta por nós pela tecnologia, é como aquele velho método de tortura em que o prisioneiro, amarrado, tem sua testa colocada sob uma torneira a pingar... Tec... Tec... Tec... Pode até não parecer nada, mas, ao final, o “tec-tec” acaba submetendo o homem ao derradeiro e definitivo castigo: a loucura.
Bem, amigos, a tecnologia é uma torneira pingando.

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