Segundo a pesquisadora Lustosa da Universidade do Ceará o tema da saúde e o urbano sempre foram tratados na literatura médica como algo diretamente relacionado à concepção geográfica de doença, o discurso médico higienista, dominante no século XIX, contribuiu para um novo pensamento sobre a cidade e a sociedade urbana. A Medicina Social urbana centrou sua análise sobre as coisas, as condições de vida e de meio de existência da população, relacionando homem doente, natureza e sociedade. O meio (natural e social) foi considerado como fator fundamental para explicar a grande mortalidade urbana.
A autora cita que: "o discurso médico, com base em teorias neo-hipocráticas, contribuiu para grandes reflexões sobre a cidade doentia e favoreceu a elaboração de projetos de reforma urbana e de leis que disciplinaram a expansão urbana. Códigos de postura e códigos sanitários, marcados por uma nova concepção de cidade salubre, higiênica, ordenaram as construções e o traçado urbano, disciplinaram a vida da população e contribuíram para urbanização da sociedade. As práticas urbanas foram marcadas pelas novas concepções de saúde/doença dominante no século XIX".
A autora conclui o trabalho intitulado: A ciência e o pensamento médico e a leitura do espaço urbano afirmando: "os problemas sociais oriundos das transformações econômicas produzidas pelo modo de produção capitalista ainda estavam no começo, mas já demonstravam fortes indícios do que viria pela frente. Fenômeno urbano novo, categorias oriundas de outro campo de saber, mas autorizado, permitiam operar sobre uma realidade emergente. Em nome deste discurso médico e da defesa da vida, corpos individuais foram controlados e submetidos a uma rígida racionalidade médica, e isto era apenas um prenúncio do que se viria realizar nas monumentais intervenções urbanas da segunda metade do século XIX. Já não eram mais os médicos que orientavam os urbanistas e remodeladores urbanos, mas seus sucessores, os engenheiros sanitaristas".
Esta reflexão permeou boa parte do século XIX principalmente as duas últimas décadas deste século, o forte processo industrial provocou a ocupação de grandes aglomerados urbanos, o que dizer então, de enfermidades que retornaram de forma avassaladora formando um verdadeiro esquadrão da morte (Diarréia, Dengue, Doenças intestinais, Febre tifoide, Gripe crônica, Leptospirose, Lestimaniose, Hanseníase, Malária e Tuberculose. Até alguns anos ocorreram em várias cidades do Brasil, casos de Coléra.
O relato da pesquisadora Lustosa, define que a evolução do processo capitalista e a organização urbana se deram em função de um elevado índice de ocupação de áreas urbanas que ainda estavam em processo de formação, motivados pelo impulso das relações de comércio e da indústria, as doenças que surgiram neste período principalmente no século XIX tiveram, portanto origem nas questões sanitárias, na falta de higiene, provocadas principalmente pela precária infraestrutura urbana para época, tudo isso possibilitou uma mudança radical na organização dos costumes a partir do estabelecimento de regras rígidas e planos urbanos capazes de dar conta de todos os efeitos gerados por inúmeras doenças.
No século XIX, as doenças surgiram como consequência do fenômeno da industrialização, as doenças do novo milênio retornaram na inércia de toda a sociedade. Na década 70, estudiosos norte-americanos profetizaram que em pouco tempo o mundo estaria urbanizado, implicações desta afirmação, tem sido observar a crescente ocupação de áreas úmidas, encostas, lagos, rios, igarapés, que provocam acumulo de lixo, resíduos nos oceanos, canais urbanos assoreados. Cotidianamente presenciamos todos os dias diversas cenas pela televisão de múltiplos exemplos de danos ao meio ambiente.
Enquanto no século XIX, o problema era resolver de que forma iriam ser sanados os problemas sanitários relacionados à organização das edificações, o acesso a distribuição dos serviços de água e esgotos, a discussão no século XXI é a saturação de áreas que teoricamente deveriam estar exercendo a função que a natureza lhe incumbiu, entretanto pela ação antrópica do homem, tais áreas estão cada vez mais castigadas.
Se a grande meta no século XIX era estabelecer um plano de ocupação, no século XXI esses planos existem, porém não são executados. As similaridades dos problemas ocorrem diante do fato de que doenças oportunistas regressaram no vácuo da falta de preservação, controle e ordenamento urbano territorial, são cada vez maiores as áreas que são desmatadas sem nenhum critério ou a completa ausência de plano de ordenamento. As tipologias habitacionais são construídas sem as condições mínimas adequadas para atender as necessidades físicas e sociais.
Os estudiosos americanos afirmam: "os fenômenos urbanos hoje são mais facilmente detectados em função da mídia globalizada, os problemas sempre existiram". O que ocorre em qualquer lugar do planeta em frações de segundos, rapidamente é socializado através da rede planetária de computadores. O que fazer diante do dilema que tomou conta da sociedade em relação às enfermidades urbanas do século XXI?
É preciso urgentemente que todas as instituições possam cumprir o seu papel social, trabalhar amplamente no esclarecimento da informação e divulgação sobre todos os tipos de enfermidades e como elas são adquiridas. Os governantes despertem para o fato de que o planejamento não é algo utópico, mas real e necessário; que a população faça a sua parte não jogue lixo em áreas inadequadas. É preciso aplicar programas e politicas públicas para destinação do grande volume de resíduos sólidos e efetivar programas habitacionais para se transformarem em realidade.
Investir na preparação de recursos humanos com treinamento e qualificação de setores da saúde para se especializarem em temas urbanos. E por último, fazer um levantamento minucioso sobre os níveis de enfermidades durante todo o ano para comparar os custos de investimentos no processo curativo, para isso será necessário hierarquizar todo o sistema de saúde visando trabalhar estatísticas do controle da saúde urbana. É preciso como sugere a pesquisadora da Universidade Federal do Ceará entender a ciência do pensamento médico através da leitura do espaço urbano.
O "Esquadrão da Morte" (doenças) não pode prevalecer, pois isso significará a falência total de todos os segmentos da sociedade. Em que pese todos os avanços tecnológicos e a comunicação interplanetária, estamos regressando ao ponto do século XIX, com enfermidades que na prática deveriam estar completamente erradicadas, com uma pequena diferença, no século anterior havia um motivo para isso, a aglomeração das cidades em função de um suposto desenvolvimento, agora existe o desenvolvimento, porém com a concentração absurda de riqueza e completa ineficácia do aparato estatal.
E a realidade do Amapá? A situação não é diferente, são inúmeras áreas em todos os municípios atingidas por um grande número de enfermidades, resulta na imensa necessidade da realização de mais investimentos para urbanizar as cidades, melhorar serviços de infraestrutura, caso isso não ocorra, fatalmente serão criados milhares de postos de saúde, clinicas, hospitais e áreas de pronto atendimento, sempre irão ficar sobrecarregadas de pacientes que apresentam problemas crônicos vinculados ao processo de desestruturação urbana. Na prática, significa mais dinheiro para tratar das cidades do que para aumentar o ciclo interminável de recursos para a área da saúde, vale mais prevenir do que remediar.
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