segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Antenados - Aqueles que sobreviverão ao fim


Ao longo desse ano, todos estivemos envolvidos - boba ou seriamente - nas discussões a respeito do fim do mundo, motivadas sobretudo pela profecia maia retratada no filme "2012" (lançado em 2008). Desde então, previsões apocalípticas voltaram a ser febre. Atualmente, até os mais céticos arregalam um pouco os olhos quando ouvem menções ao assunto.

As crenças prediziam que o mundo bateria as botas no dia 21 de dezembro de 2012, daqui a apenas um mês ou menos. Por enquanto, contudo, nenhum sinal de catástrofe global. O mais provável é que o mundo não experimente o seu fim ainda, pelo menos não neste ano.

Não duvido que os mais impressionáveis tenham enxergado no furacão Sandy, nas poses de Nana Gouvêa, na morte de Hobsbawm ou no sucesso de Michel Teló o começo definitivo do fim do mundo. Mas subsistimos a esse marcos e ainda estamos aqui.

Temo que nossa herança se estenda por mais algumas gerações neste planeta. Entretanto, mesmo que o término aparentemente ainda seja esse conceito tão distante, a sensação de desespero tão inerente a ele é muito bem conhecida por todos nós, em vários níveis. Experimentamos pequenos fins do mundo ao longo de nossas vidas, e ao menos uma vez já nos questionamos: Como seria se determinada coisa ou pessoa não mais existisse? Ideias atordoantes e potencialmente deprimentes...

Mas, por um instante, pensemos em como seria, por exemplo, um fim do mundo maia que se assemelhasse ao bug do milênio. Ou seja, neste contexto pós-moderno, o fim estaria muito perto de uma pane geral na rede mundial de computadores (a Internet).

Imagine a cena. Pessoas desesperadas em todas as partes do globo, abandonando suas casas histericamente, porque não foi possível estabelecer uma conexão com a rede. Do Japão ao Brasil, da Austrália ao Canadá, tudo caos. Os namoros a distância estariam arruinados. Os fãs-clubes, com seus núcleos concentrados nos sites, estariam destruídos.

Não teríamos mais como rever no YouTube os capítulos de nossas novelas favoritas, shows aos quais não fomos, entrevistas que não assistimos. Também não saberíamos as últimas alfinetadas de Luana Piovani no Twitter, o que certamente nos aniquilaria. Perderíamos ainda todas as gafes de Geisy Arruda, minuciosamente arroladas no site do Yahoo! Brasil. Nesse mesmo site, versão Estados Unidos, centenas de milhares morreriam sem ter mais notícias das irmãs Kardashian e de Justin Bieber.

Os trabalhos de escola, deixados para última hora, que fracasso! Seriam agora inconcebíveis. Sem a Wikipedia, não só o plagiadores do presente, mas todos os gênios do futuro estariam arruinados. O hiperlink cibernético era o messias, o mantra, a tábua de salvação.

E os ferrenhos opinadores de internet, então? O que seria deles? Evaporou-se o único lugar onde podiam despejar seu lixo verborreico! E nem me fale nos revolucionários das redes sociais! Coitados... A última revolução marcada para acontecer nos murais do Facebook acabaram furadas. Os pequenos Che Guevaras de iPhone sucumbiriam. Acabou-se tudo.
Adultos, crianças, jovens, sobretudo os jovens, sairiam arrastando-se pelas calçadas, clamando aos céus um pouco de misericórdia, pensando que, se Steve Jobs não tivesse morrido, talvez... Talvez.

Aí então, num lapso de brilhantismo, todos sacariam seus celulares e começariam a discar loucamente os números que lhes viessem à cabeça, na busca desesperada por estabelecer contato com alguém que não pudessem ver nem tocar, só para ter certeza de que o mundo continuava o mesmo e aquela crise logo passaria. Mas, infelizmente, em todas as partes do planeta, com os celulares trabalhando freneticamente e ao mesmo tempo, uma sobrecarga geral nas linhas telefônicas seria ocasionada, e as operadoras não teriam outra opção senão cortar de vez seus serviços.

Tuiteiros, blogueiros, abastados do Instagram, orkuteiros da classe baixa, neonazistas de fóruns de internet, "cyberbullynistas", todos, todos condenados, morrendo queimados sob o sol, o sol, que já nem mais conheciam...

E eu, onde estaria? Ah, meus caros... Eu estaria na chácara dos meus avós, em Macapá. Lá, onde o sinal de celular não pega e a internet não nos concede mais de 2Kb por hora. Lá, onde você aprende a viver sem qualquer dessas tecnologias viciantes, mas irritantes, e depois de algumas semanas já nem sente falta. Eu estaria lá, pois sim, enamorando-me da antiga bougainville da vovó no jardim e sentindo o cheiro maravilhoso do tão característico café de meu avô. Enquanto o mundo desabasse lá fora, eu estaria nesse refúgio verde, comendo pão quente, implicando com meus primos, catando acerola, desencavando livros velhos do armário cinza, ninando enfim a certeza de que, ao menos uma vez na vida, a verdade imperaria: Não são os fortes que sobrevivem, mas sim os bichos-do-mato!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ARTIGO DO GATO - Amapá no protagonismo

 Amapá no protagonismo Por Roberto Gato  Desde sua criação em 1988, o Amapá nunca esteve tão bem colocado no cenário político nacional. Arri...