segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Artigo - Quando o “G” reuniu-se ao “E”


No início de 1938, o Rio de Janeiro e boa parte do Brasil estava em plena Era do Rádio. Aquela caixinha mágica inventada padre gaúcho Roberto Landell de Moura - e erroneamente atribuída a Marconi ou a Nicolas Tesla, conforme narrou Ernani Fornari no livro "O incrível padre Landell de Moura" - estava presente em vários lares brasileiros. E foi pelas ondas do rádio que o país primeiramente descobriu que não haveria eleições presidenciais, que o governo tinha decretado o Estado Novo desde novembro do ano anterior.

E o presidente conhecido como "A Esfinge de São Borja" começou aquele 1938 discursando pelo rádio, prevendo "um ano de intenso trabalho e de realizações  fecundas". Certamente, o presidente precisaria de números para conhecer a situação do país. Números que o Instituto Nacional de Estatística (INE), prometia lhe dar, especialmente com o Censo de 1940.
Em 1937, criou-se o Conselho Nacional de Geografia, com bênção de Teixeira de Freitas, que, desde os primórdios, antevia a necessidade de ter ao menos a cartografia entre o ferramental do instituto. No próprio Decreto nº 24.609, de 6 julho de 1934, que criava o INE (decreto este redigido por Teixeira de Freitas e aprovado por Juarez Távora) trazia dois artigos (Art. 14 e Art. 26) com menções claras sobre as necessidades geográficas do novo órgão de estatística. Teixeira de Freitas conhecia perfeitamente a importância da união da Estatística com a Geografia. Para a obtenção de bons números, havia de se ter uma verdadeira ordenação do território e seu mais amplo conhecimento. Ele tinha a exata noção da necessidade de bases geográficas bem estabelecidas e antevia as possibilidades que o saber geográfico traria ao conhecimento estatístico.

Em 1936, como consta na Resolução nº 18, do Conselho Nacional de Estatística, já corria a voz alta a necessidade de organização do "Conselho Brasileiro de Geografia como órgão nuclear de um sistema coordenador das instituições geográficas nacionais". No ano seguinte, o Decreto nº 1.527, de 24 de março, criava o CBG, integrando-o ao INE, sob a mesma presidência, com procedimentos e práticas administrativas semelhantes às do órgão de estatística. Na Resolução nº 31 do CNE estava instituída  a expansão do INE, com os serviços de estatística e geografia trabalhando em mútua cooperação na "grande organização nacional dedicada ao estudo da terra e do homem brasileiro". E mais: sugeria um novo nome para a Casa.

E nova denominação chegaria seis meses depois, por intermédio do Decreto-Lei nº 218, de 26 de janeiro de 1938, assinado pelo presidente Getúlio Vargas. Conforme dizia o Art. 1 "O Instituto Nacional de Estatística passa a denominar-se "Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística".
O momento exato de nascimento do IBGE, com o "E" recebendo o "G" deveria ser assinado por festas e comemorações. Curiosamente não foi. Nem ao menos no Edifício A Noite, na Praça Mauá, onde se abrigava o novo instituto. Aquele 26 de janeiro foi tratado como um dia qualquer e a criação da nova Casa da Estatística e da Geografia como algo possível e de pouca importância. Tanto que, no exato momento em que Vargas assinava, criando o novo órgão, o presidente do IBGE José Carlos Macedo Soares, conforme notícia divulgada nos jornais, veraneava em Lindóia, aproveitando as benfazejas suas águas minerais e clima. E ainda os jornais diários da Capital Federal pouca importância deram ao nascimento do principal órgão de estatística e geografia nacional. O Globo e Jornal do Brasil não publicaram uma linha sequer. O Jornal e o Jornal do Comércio trouxeram notas minúsculas dando conta da assinatura do tal Decreto-Lei.

Naquele 26 de janeiro, todas as atenções estavam voltadas para a chegada no dia anterior de três aviadores da Itália fascista, entre eles, Bruno Mussolini, um dois filhos do próprio Duce, que aqui foi chamado de "Centurião da Juventude Fascista". Os três ases italianos bateram o recorde de voo aéreo, gastando inacreditáveis 19 horas e 40 minutos entre Roma e o Rio. 

Os chamados "heróis que contribuíram para que a Itália dominasse todos os oceanos" falaram ao microfone  da "Hora do Brasil", no mesmo dia em que, no mesmo programa inicial, era anunciada a criação do IBGE. O tempo mostrou que Teixeira de Freitas estava certo quando discursou, em 1953, na Sociedade Brasileira de Geografia. "Os geógrafos e estatísticos são beneméritos servidores da Pátria. Eles têm feito tudo o que o Brasil possui como conhecimento do que é e do que vale, através de seus estudos e pesquisas.
Fonte: Texto de Marco Santos, publicado na revista Fala, IBGE, nº 2 / abr-set 2012.

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