segunda-feira, 4 de março de 2013

Pioneirismo - Diva Dias Façanha

"Trabalhando foi como consegui criar meus filhos, que podem não estarem ricos, entretanto estão todos encaminhados com sucesso na vida, assim como meus netos estarão. Honestidade, perseverança e persistência são as medidas certas da formação de uma vida digna"

por Reinaldo Coelho


Ninguém saía incólume da casa de Diva Dias Façanha. Visitá-la significava provar as iguarias que ela preparava muito bem, que depois passou a ser uma atividade para conseguir recursos e ajudar na criação dos filhos. Esta será uma deliciosa história de nossa pioneira desta semana.

Paraense, nasceu em 4 de fevereiro 1920 em Belém,  era filha de Orcino Aureliano Dias e de Maria de Lurdes Castelo Branco Dias. A maior parte da infância de nossa pioneira foi passada no município de Tracuateua (PA), onde funcionava um Posto de Meteorologia do Ministério e era o local de trabalho de seu pai.

Diva Façanha perdeu sua genitora muito cedo, ficando da sua família apenas seu pai e o único irmão Djalma Dias (falecido). Porém, seu pai realizou um segundo casamento onde foram gerados mais dois irmãos, Dilermando, o Manguinho, grande jogador do Clube do Remo; e Delbanor Dias que foi  cantor e diretor da Radio Difusora de Macapá, criando o famoso Clube do Guri.

O segundo casamentou acabou com separação, e seu Orcino Dias e seus quatro filhos resolveram morar com a tia de Diva, que era viúva e mãe de dois garotos, sendo um deles outro grande pioneiro amapaense, o Chefe Humberto. Passaram então a residir no Curuzu, perto da sede do Payssandu Clube.

Com 15 a 16 anos de idade, conheceu o seu futuro esposo, Lourenço Borges Façanha, que era cabo do Exército. Casaram-se e, em 1939, tiveram sua primeira filha, Maria de Lourdes Dias Façanha. Ele veio servir em Clevelândia, no Oiapoque em 1940. Em 1941 transferiu-se para Macapá, quando deu baixa da corporação para aqui se radicar, dedicando-se à atividade comercial.

 Montou seu comércio de secos & molhados, denominado "Estado Novo", no prédio da residência dos padres da Paróquia São José, onde para pagar o aluguel, dona Diva passou a cozinhar para os religiosos. Nessa residência teve seu segundo filho, José Dias Façanha. Logo em seguida, transferiram-se para Rua Mario Cruz, onde hoje funciona a Top Internacional.

Nesse período, o dom de cozinheira e doceira aflorou com toda a força, e passou a ser requisitada como banqueteira para as festas de aniversários, casamentos e outros encontros sociais, sendo convidada para organizar esses encontros. Hoje essa atividade é realizada pelos buffer. "Foi assim que consegui arrecadar dinheiro para ajudar a criar os meus filhos e mantê-los nos estudos, tanto aqui como lá fora. Pois no Amapá naquela época não tinha curso superior", explana a pioneira. 

Além da atividade profissional, Diva Façanha ajudou também no social, fundando o Saci Club, composto pela fina flor da sociedade macapaense como opção de diversão na pequena Macapá.O Saci Clube funcionou onde, tempos depois, seria o Círculo Militar, atrás da Fortaleza. O concurso de Miss Macapá Verão 61 foi promovido pelo Saci Clube, e realizado na Piscina Territorial, a casa dos grandes espetáculos da época.
Muito religiosa, Diva foi uma das fundadoras do Apostolado da Oração, junto com Palmira Coutinho. 

Hoje está coroada pela vitória
Mais uma vez, o destino colocou Diva Dias em prova de superação e persistência, e ela demonstrou que, além disso, tem a coragem para ir em frente. Teve que se desdobrar, pois no início da década de 50, Lourenço Borges Façanha teve um AVC (Acidente Vascular Cerebral), e a vida ficou difícil.

Mas esta batalha contou com mais um soldado, o jovem José Dias Façanha, que com 12 anos ingressou na turma do Buraco, atividade do Governo do ex-Território para fazer a arborização de Macapá e ajudar os jovens estudantes desempregados. Quem também engrossou a fileira foi a filha mais velha do casal Façanha, Maria de Lourdes Façanha, que passou a exercer o cargo de professora auxiliar da mestra Amazonita Machado, na Fazendinha, que não tinha acesso fácil.

Nesse momento, Diva Façanha procurou o governador da época, Janary Nunes, que lhe deu um cargo nos quadro do Governo, em 1954, tornando-se assim Funcionária Pública Federal. Exerceu os cargos de Assessora e Chefe do Gabinete do Governador, e Tesoureira da Senava. Dona Diva, com sua eterna beleza, carinho e sapiência, transmite ternura, segurança e amor, como relata Alcinéa Cavalcante em uma homenagem a essa grande dama em seu blog.

Os filhos
O casal Lourenço e Diva gerou, educou e formou quatro filhos: Maria de Lourdes Façanha (professora e bibliotecária), José Dias Façanha (engenheiro-agrônomo), no momento atua como Chefe de Gabinete na presidência do TJAP; Antônio Celso Façanha (engenheiro de minas); e Luís Guilherme (engenheiro florestal), que trabalha no IBAMA de Recife como Assessor da Presidência.

Em 1973, o prefeito de Amapá, Leonel Nascimento, prestou uma justa homenagem a este pioneiro, denominando de Lourenço Borges Façanha uma das escolas do município.

Por essas duas histórias de vida de Lourenço e Diva, que se entrelaçaram para constituir uma bela família e gerar filhos e cidadãos úteis ao Brasil, dando exemplo de amor à terra generosa que os acolheu. Loureço Borges Façanha já cumpriu sua missão (falecido). Diva hoje, aos 93 anos de idade, está colhendo o que plantou com a maior dedicação: carinho e amor dos filhos, dos 14 netos, e de 6 bisnetos, além do respeito e admiração da sociedade amapaense. 

Quem foi Lourenço Borges Façanha
Ele nasceu no município de Tefé, no Estado do Amazonas, em 8 de janeiro de 1910, onde permaneceu até aos 17 anos de idade; foi para Belém do Pará, alistando-se no 26º Batalhão de Caçadores do Exército, sendo destacado para servir no Amapá, em Clevelândia, Oiapoque, em 1939. Em 1941, deu baixa da corporação para se radicar em Macapá, dedicando-se à atividade comercial.

Lourenço Borges Façanha participou dos embates da revolução constitucionalista de 1932, como soldado do exército brasileiro. Foi Prefeito do Município de Amapá, de 1954 a 1957, e funcionário público até seu falecimento em 1973; fundou o Rotary Clube de Macapá, o Esporte Clube Macapá e Associação Comercial e Industrial do Amapá. 


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