A maioria de meus pacientes leitores sabe que sou evangélica. No entanto, não poderia me furtar ao deleite literário de fazer uma metáfora conveniente com a figura do Papa.
Como todos nós acompanhamos, Bento XVI - ou ainda Joseph Ratzinger - anunciou sua renúncia ao cargo papal no dia 10 de fevereiro deste ano, há algumas semanas atrás, fato que aturdiu não somente aos que professam a fé católica, mas também a boa parte do ocidente e do oriente.
O impacto foi geral porque, embora a imagem do Papa tenha se tornado, na vida comum das pessoas, uma espécie de peso inerte ou tranqueira velha guardada no porão da consciência, era ele um símbolo que estava sempre ali, sempre presente, intocável, habitualmente encarnado durante quase um século inteiro pelo mesmo homem, e sucedido então por outro pelos próximos cem anos.
Mas então veio Ratzinger e decidiu bagunçar nossos conceitos a respeito do que é constante, imutável, e do que não o é. No começo, fica a confusão. Mexer nos pré-conceitos e estereótipos fixos dos outros é uma coisa bastante severa... Lá está você, guardando todos os seus saberes axiomáticos numa gaveta, com todas as suas certezas servindo de baluarte à sua zona de conforto, até que um dia o Papa resolve pedir as contas, trocar os sapatinhos vermelhos e ir-se embora, pronto para se refugiar em algum recôndito do mundo e deixando agora vazio o lugar que ocupava no subconsciente dos habitantes da Terra.
O que aprender com o adeus do Papa? A metáfora parece-me bem clara e útil: Algumas coisas, por mais sólidas que se mostrem, podem ser alteradas a qualquer momento. Cada detalhe da vida muda, até nas vidas mais tediosas, assim como as pessoas mudam, e os amigos vão embora, os parentes também, e os cabelos encanecem ou caem, os filhos voam, os cachorros morrem...
Daí, para evitar a dor de ver seus pilares ruírem um a um, é necessário entender que a vida não está estagnada e que tudo evolui ou decai. Mas até a decadência pode abrir espaço à novidade positiva. Tenho aprendido. Às vezes, mudanças que nos abalam desde a base e tiram nossos pés do velho chão, para nos colocarem numa superfície nova e incerta, servem para nos impelir à tomada de atitudes vitais que, caso tudo como sempre esteve, não tomaríamos.
As mudanças nos levam a lidar com os problemas tendo a paciência mais flexível, o choro e a raiva tornam-se então menos constantes, e, enfim, conseguimos discernir entre o que é perene e o que pode acabar em um piscar de olhos, chegando enfim a algum amadurecimento.
Creio que o Papa Bento XVII ensinou muito mais a todos nós com a sua saída do que com a permanência, e quiçá tenha também, por tabela, cumprido a missão que nenhum outro Papa cumprira outrora: Ter uma utilidade prática. Ou qualquer utilidade.
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