Não nos assuste mais, Nazaré
Meus queridos leitores, espero que
vocês não se importem, mas usarei este espaço para escrever uma pequena
declaração de amor. Acontece que, uns dias atrás, vovó pregou-nos um belo
susto! Essa Dona Nazaré foi parar no hospital, com forte dor no peito. Ficou
internada cerca de dez dias, e eu imagino como deve ter sido difícil não poder
ver nenhum rosto conhecido, a não ser nos horários de visita, e não poder
arrumar a casa, nem engordar os netos, ou dar uma escapulida até o salão de
beleza...
Enfim, tudo está bem. Nossa velha
(estou sendo carinhosa, vó... 70 anos são quase 15!) voltou para casa e
já podemos respirar aliviados. Por "nós" quero dizer todos aqueles
que a amam, e não são poucos, pois amar esta senhora é coisa fácil... Embora
reze a lenda que dona Nazaré foi uma mãe um tanto durona, bem, eu só a conheci
como "vovó", e, nessa versão, ela é uma grande manteiga derretida;
chora por tudo, cuida de todo mundo, e não se esquece de ninguém...
Agora, passado o rebuliço, pode até
parecer paranoia, mas, enquanto minha avó estava ali, isolada, à espera de uma
intervenção de rotina ou uma operação mais drástica, só consegui pensar em
todas as coisas que eu não havia dito a ela. Não por falta de tempo ou de
sentimento, mas sim porque a gente se condiciona a achar que aqueles a quem
amamos estarão sempre por perto, e que, portanto, não são necessárias atenções
mais caprichadas...
Mas, meus caros, depois da
experiência hospitalar dessa última semana, a mensagem que quero deixar a vocês
é a seguinte: digam que amam. Fale agora mesmo tudo o que sente por aquela
pessoa que está sempre ali, logo ao lado, bem atada ao seu braço. Você talvez
não julgasse necessária qualquer palavra mais doce ou declaração emocionada,
talvez considerasse inconscientemente que a convivência torna a beleza das
confissões de amor uma inutilidade, um supérfluo. Mas a pessoa que você ama
ainda precisa ouvir que você a ama, e precisa ouvir dos seus próprios lábios,
não apenas dos olhos, quando estes, em raros momentos, se permitem brilhar de
emoção silenciosa...
Largue este texto agora e vá se
declarar para os seus velhos, para os seus irmãos, para os seus tios, para quem
for! E eu, por minha parte, mais pessoal do que nunca, faço de vez a minha
declaração (Azevedo Costa, espero que você esteja lendo este artigo para
a Dona Nazaré!): vovó, eu te amo. Hoje, amo tudo o que há na senhora, e te
agradeço até mesmo pela palmada de galho de goiabeira sempre prometida, mas
nunca cumprida. Gosto do jeito com que você fala ao telefone, como se as
despedidas nunca fossem terminar, e eu digo "tchau, te amo", e a
senhora diz "que o Senhor te abençoe", e eu digo "à senhora
também", e a senhora responde "tá, tchau, um beijo, te amo", e
eu digo "eu também te amo", e a senhora diz de volta "tá,
tchau", e a coisa parece nunca ter fim!... Outra coisa engraçada, e que
nós sempre costumamos rir a respeito, nós, os netos, é a sua mania de completar
as frases dos outros enquanto eles estão falando, e ainda há a sua incrível
capacidade de cantar músicas que você nem mesmo conhece... E tudo isso agora me
parece muito adorável!
Eu espero viver ainda muitos anos ao seu lado, e te dar carinho, e assim
me redimir das malcriações. Ainda vou te levar para a França, e ainda ouvirei a
senhora contar todas aquelas histórias da sua infância, sobre Breves, e sobre o
tempo em que morou na casa da Dona Alegria. Enfim, vovó, eu espero que
você ainda me veja crescer tudo o que me resta, e que você veja todos os seus
filhos e netos e bisnetos muito bem nessa vida, e que me permita ainda uma
porção de vezes calçar os seus sapatos, e também deixe, mesmo contrariada, que
eu passe rímel nos seus cílios inexistentes, e batom vermelho nos seus lábios,
antes de você dormir, só pelo prazer de te perturbar. E desejo ainda aprender a
cozinhar aquelas "comidas de Natal" tão boas que a senhora faz, e oro
para que a gente ainda experimente muitas alegrias juntas... Na verdade, neste
momento, só mesmo pensar em você já me faz feliz. Te amo, vó.

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