sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ser professor, um conto de horror?
Nada deprime ou impacienta mais a um estudante de licenciatura do que a reação de algumas pessoas ao descobrirem que àqueles espera um futuro em sala de aula. Abismam-se, como se acabassem de ouvir o relato de uma história de terror. Levam as mãos ao rosto, descabelam-se e tentam convencer o futuro mestre a abandonar a sala de aula da graduação enquanto há tempo. Fuja! Fuja para as cadeiras do cursinho e tente uma vaga em Medicina pelos próximos anos, antes que seja tarde demais!
Não dá para se entender. Quer dizer, até dá, é a opressora lógica de mercado, a lógica do lucro e do enriquecimento a todo custo, mas torna-se difícil de engolir essa perseguição contra a carreira de um professor baseada apenas nos anseios econômicos de determinados grupos e caráteres (que, vale lembrar, não são anseios universais, e por isso não devem ser impostos).
Os argumentos contra a docência são os mesmos de sempre: “Ser professor não dá dinheiro”, “tem muito professor morrendo de fome”, “é nobre, mas não compensa” etc. Afirmações de certa experimentação e sabedoria populares, é verdade, mas inúteis e dispensáveis para quem escolheu a licenciatura por livre e amorosa vontade, ou ainda para quem tenha entrado meio às cegas, mas acabou encontrando o seu nicho no mundo.
Os criticadores da profissão alheia devem entender que esses futuros professores já consideraram todos os pontos negativos em relação à carreira que intendem seguir. Não há mais argumentos que possam convencê-los do contrário. Não há por que existir a necessidade de convencê-los do contrário.
A reação dos que são contra o ensinar, muito mais do que um esnobismo capitalista, inconformismo sócio-político ou até mesmo extremada e caridosa preocupação com as contas alheias, parece muito mais o reflexo de uma perversão social. As pessoas precisam aprender a deixar de tentar destruir os sonhos dos outros, sobretudo daqueles que já encontraram suas vocações no mundo e estas não seguem o padrão dominante.
E se for para ser feliz em sala de aula, que seja. É a velha história – talvez ainda não repetida suficientes vezes para se fazer entranhar na alma nossa: se você empreender algo que realmente goste, será natural que se destaque. Do empenho vem o destaque, e deste, a reputação, e desta, a valorização, e se o problema era dinheiro, agora já está resolvido. Não, não se trata de utopia. É lógica pura. Faça o que você ama.
Por outro lado, tem-se consciência de que a situação profissionalizante em nosso país não é tão boa. Muitos se formam de maneira atabalhoada, tendo de conciliar, ainda durante o curso, milhares de cadeiras, bolsas, estágios..., e depois, ao saírem, especificamente no caso dos docentes, estes são obrigados, pela desvalorização do “serviço”, a fazer malabarismos com mais de um emprego em várias escolas. Entretanto, mesmo essas coisas não representam um problema real ou insuportável àqueles que estão no caminho que escolheram com consciência.
E se a vida em sala de aula, lidando com crianças de ensino fundamental e médio, não for o que busca o profissional, hoje se sai das faculdades de licenciatura relativamente cedo, com um longo período pela frente, dispondo de tempo de sobra para se especializar e se aprimorar, seguir uma carreira na área da pesquisa e do lecionar acadêmicos.
 Enfim, os motivos para alguém tentar convencer outrem a não optar por uma licenciatura são muitos, é verdade. Contudo, os motivos para permanecer em busca de um sonho professoral, sobretudo se você escolheu por admiração e gosto, são diversos também. E mesmo que não houvesse qualquer argumento prático, o amor à escolha já seria suficiente.
Mas agora, se você é um daqueles que, embora albergue no peito um anseio pela docência, está em eterno conflito com seu lado mais pragmático e ordinário, não conseguindo despregar a mente da tenebrosa ideia de por ventura desenvolver, por culpa da profissão, uma lesão por esforço repetitivo, uma síndrome de burn out, ou uma crônica rouquidão, só resta mesmo acrescer o argumento infalível: professor tem férias duas vezes por ano.


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