sexta-feira, 2 de agosto de 2013

EDITORIAL ---------------------------------

Linha tênueentre o caso e o descaso
Pessoas deitadas em macas sujas, outras pelos corredores imundos ornados por curativos em sangue. Um vai e vem frenético de uma ausência absoluta. O caminhar apressado e a pressa da morte insensibiliza corações (des)humanos.

Distante daquele infecto prédio, apelidado de Nosocômio pessoas jazem e outras agonizam moribundamente enquanto tilintar de taças ecoam nos salões “nobres” enfeitados com flores brancas e vermelhas. Não é cenário fúnebre, não há corpo a velar, são apenas os rococós que a alta sociedade exige em seus eventos onde gente bem afeiçoadas e rigorosamente trajadas sorriem e trocam confidências. Um grupo a mais ao canto cochicha assuntos privados, confidenciais. Talvez sejam planos para o futuro - deles - e de suas oligarquias políticas.

Dois cenários de um mesmo mundo insensível e corrupto. Um dantesco e o outro glamoroso. Longe dali, de repente mais pressa, correria é um moribundo que queda-se ao chão frio das imundas lajotas. Amontoam-se enfermeiros, técnicos e médicos. Nada podem fazer. Não existem remédios e máquinas prontas para a emergência. Agonizante e trêmulaa alma vai aos poucos desencarnando,se despedindo do corpo cansado e deixando para trás um mundo falido de valores éticos e morais. O frio da lajota já não incomoda, o corpo está ficando também frio. Os olhares no entorno expressam naturalidade. A bizarra cena para eles é comum. Meu Deus! Se Dante tivesse conhecido o Hospital de Emergência seu inferno teria feição mais real.

No salão, onde os homens abastados e autoridades públicas animadamente conversam e sorriemplanos futuros são traçados aquele pobre homem é uma abstração.Completamente ignorado, as notícias não chegam ali. A preocupação não é buscar mecanismos para evitar mais mortes desassistidas, apenas encontrar um discursoconvincente que justifique o absurdo. Tipo: a culpa é do governo que passou. Bem simples assim.

Num outro cenário o problema não é de saúde pública é de violência urbana. Um assalto com refém é transmitido ao vivo por um programa de televisão. Os assaltantes clamam ao apresentador que interceda em favor da vida deles. Pedem desesperados que a polícia civil se faça presente no local do crime, pois do contrário seriam vítimas fáceis do Batalhão de Operação Especiais da Polícia Militar. “Venha com a Polícia Civil ou morremos todos, mas mataremos antes todo mundo”.

Esses fatos que se multiplicam no Estado do Amapá são cenas consequentes de uma falácia política. Mudamos? Renovamos? Queremos mais? Essas perguntas estão ecoando silenciosamente na cabeça do cidadão que percebe que empobrecemos mais, comemos menos, moramos pior e não temos saúde pública. A maioria não sabe a causa, só sentem a consequência. Coitados! Mas o pior é que o cenário não aponta nenhum horizonte alentador. O amapaense caminha para acirramento de uma crise social mais cruenta. O Amapá é um barril de pólvora com um louco de isqueiro nas mãos brincando com a chama muito próxima do pavio. Nenhum problema se o povo não estivesse sentado em cima do artefato e prestes a ser vítima de um gesto irresponsável do Nero Tucujú que toca lira e canta desonantemente músicas fúnebres.

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