Linha tênueentre o caso e o descaso
Pessoas deitadas em macas sujas,
outras pelos corredores imundos ornados por curativos em sangue. Um vai e vem
frenético de uma ausência absoluta. O caminhar apressado e a pressa da morte
insensibiliza corações (des)humanos.
Distante daquele infecto prédio,
apelidado de Nosocômio pessoas jazem e outras agonizam moribundamente enquanto
tilintar de taças ecoam nos salões “nobres” enfeitados com flores brancas e
vermelhas. Não é cenário fúnebre, não há corpo a velar, são apenas os rococós
que a alta sociedade exige em seus eventos onde gente bem afeiçoadas e
rigorosamente trajadas sorriem e trocam confidências. Um grupo a mais ao canto
cochicha assuntos privados, confidenciais. Talvez sejam planos para o futuro - deles
- e de suas oligarquias políticas.
Dois cenários de um mesmo mundo
insensível e corrupto. Um dantesco e o outro glamoroso. Longe dali, de repente
mais pressa, correria é um moribundo que queda-se ao chão frio das imundas
lajotas. Amontoam-se enfermeiros, técnicos e médicos. Nada podem fazer. Não existem
remédios e máquinas prontas para a emergência. Agonizante e trêmulaa alma vai
aos poucos desencarnando,se despedindo do corpo cansado e deixando para trás um
mundo falido de valores éticos e morais. O frio da lajota já não incomoda, o
corpo está ficando também frio. Os olhares no entorno expressam naturalidade. A
bizarra cena para eles é comum. Meu Deus! Se Dante tivesse conhecido o Hospital
de Emergência seu inferno teria feição mais real.
No salão, onde os homens abastados e
autoridades públicas animadamente conversam e sorriemplanos futuros são
traçados aquele pobre homem é uma abstração.Completamente ignorado, as notícias
não chegam ali. A preocupação não é buscar mecanismos para evitar mais mortes desassistidas,
apenas encontrar um discursoconvincente que justifique o absurdo. Tipo: a culpa
é do governo que passou. Bem simples assim.
Num outro cenário o problema não é de
saúde pública é de violência urbana. Um assalto com refém é transmitido ao vivo
por um programa de televisão. Os assaltantes clamam ao apresentador que
interceda em favor da vida deles. Pedem desesperados que a polícia civil se
faça presente no local do crime, pois do contrário seriam vítimas fáceis do
Batalhão de Operação Especiais da Polícia Militar. “Venha com a Polícia Civil
ou morremos todos, mas mataremos antes todo mundo”.
Esses fatos que se multiplicam no Estado
do Amapá são cenas consequentes de uma falácia política. Mudamos? Renovamos?
Queremos mais? Essas perguntas estão ecoando silenciosamente na cabeça do
cidadão que percebe que empobrecemos mais, comemos menos, moramos pior e não
temos saúde pública. A maioria não sabe a causa, só sentem a consequência.
Coitados! Mas o pior é que o cenário não aponta nenhum horizonte alentador. O
amapaense caminha para acirramento de uma crise social mais cruenta. O Amapá é
um barril de pólvora com um louco de isqueiro nas mãos brincando com a chama
muito próxima do pavio. Nenhum problema se o povo não estivesse sentado em cima
do artefato e prestes a ser vítima de um gesto irresponsável do Nero Tucujú que
toca lira e canta desonantemente músicas fúnebres.
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