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Ninguém,
sabe que os Leões do Fórum, hoje OAB/AP, não foram trazidos de fora de Macapá.
Eles foram feitos artesanalmente pelo Mestre Costa, com uma técnica que ele
conhecia, de moldagem com uma massa que tinha uma mistura de seu conhecimento e
que até hoje estão lá silenciosos olhando o Rio Mar, outra arte dele é da
frente do prédio da Maçonaria. “As obras daquela época eram feitas para durar
décadas e você pode ir ao Barão e no Hospital e ver se cai reboco. Hoje, no
outro dia da entrega, está tudo no chão, a pintura descasca e desbota tão
rápido que é necessário refazer. É o descaso pelo dinheiro público”- Lourival
Francisco de Oliveira – Mestre Pintor
O
atual Estado do Amapá tem sua história política entrelaçada com o Pará, de onde
foi desmembrado e foi de lá que o governo instalado no novo Território Federal
do Amapá criado em 1945, trouxe as mãos de obras especializadas para que a nova
unidade da federação começasse seu desenvolvimento.
Recebemos
centenas de professores recém-formados, muitos foram os mestres leigos (com
apenas o primário), que deram a arrancada na educação amapaense. Porém, para
que tivéssemos os prédios onde funcionaria a máquina governamental, escolas,
hospitais e outros, eram necessários, engenheiros, pedreiros, pintores e
mestres-de-obras.
Esta
semana estaremos retratando um pioneiro na atividade de pintor, que se tornou
mestre em seu ofício e com orgulho conta que trabalha com os melhores
mestres-de-obras amapaenses. Ele é Lourival Francisco de Oliveira, 80 anos,
paraense de nascimento e amapaense de paixão.
Nascido
em 10 de julho de 1933, na pitoresca cidade de Alenquer (PA), filho de Cecílio
Francisco de Oliveira, pedreiro e da dona de casa, Maria Ribeiro Pessoa,
terceiro de uma prole de cinco irmãos. “Quando eu tinha seis anos de idade, meu
pai que era pernambucano, tinha um irmão que residia no Oiapoque desde 1922, e
meu pai foi trabalhar naquela localidade desconhecida do Brasil e do mundo”.
Seu
Lourival viveu ali de 1939 a 1941, logo em seguida foi residir na capital
Amazonense (Manaus) onde ficou até 1950, retornando definitivamente para o
Amapá. “Voltei com 14 anos para o Oiapoque, em 1951 vim para Macapá e me
empreguei na Divisão de Obras do então governo territorial, que tinha o Cel.
Janary Nunes como governador, fiquei 35 anos no quadro do governo federal.Fui
enquadrado na Divisão de Obras, hoje Secretaria de Infraestrutura (Seinf) como
pintor, e todas as obras realizadas pelo governo territorial eu que executei o
serviço. Naquela época não tinha construtora, os serviços de obras do governo
era feito pelos seus próprios funcionários, pois não tínhamos mão de obra
especializada, tinha emprego, mas faltava empregados, ao contrário de hoje.Trabalhei
na construção das Escolas Barão do Rio Branco, Azevedo Costa, Ginásio de
Macapá, IETA (hoje UEAP), o Hospital Geral e a Residência do Governador”.
Ele
relembra com orgulho,que atuou junto com grandes pioneiros da época do início
da construção do Amapá. “Tive a honra de trabalhar com o carpinteiro e
Mestre-de-Obras, Benedito Ferreira do Nascimento, o Mestre Bené. Como eu iniciei
no governo como recibado, trabalhava nas obras que ele executava com empreitada
de pintura, ele era muito bom no que fazia”.
Ele
relata ainda, que teve a honra de trabalhar com outros empreiteiros da época,
como Mestre Júlio Araújo. Um dos que ele destaca, pela originalidade nos
serviços que fazia era o Mestre Costa. Ninguém sabe que os Leões do Fórum, hoje
OAB/AP, não foram trazidos de fora de Macapá. Eles foram feitos artesanalmente
pelo Mestre Costa, com uma técnica que ele conhecia, de moldagem com uma massa
que tinha uma mistura de seu conhecimento e que até hoje estão lá silenciosos
olhando o Rio Mar, outra arte dele é da frente do prédio da Maçonaria. “As
obras daquela época eram feitas para durar décadas, você pode ir ao Barão e ao
Hospital e ver se cai reboco. Hoje, no dia seguinte da entrega, está tudo no
chão, a pintura descasca e desbota tão rápido que é necessário refazer. É o
descaso pelo dinheiro público”.
Casamento
Em
1956 no município de Oiapoque, começou a história de Lourival Oliveira, e no
Amapá aconteceu o encontro com a Maria Lecy Rodrigues de Almeida (77), hoje sua
esposa e mãe de seus filhos, “Ela está comigo há 57 anos, temos oito filhos”.
Vida profissional
Com
referência às inúmeras obras nas décadas de 40, 50 e 60, Lourival relembra que
estava tudo começando no Amapá, e o governo tinha que fazer tudo porque não
tinha nada. “Mesmo com a falta de mão de obra e de pessoas formadas para
atuarem na construção civil, tudo que foi ali realizado sobrevive até hoje, é o
alicerce do progresso do Amapá. Trabalhei 35 anos no governo, nunca recebi uma
diária. Hoje um funcionário para ir a Santana ganha diária. A roubalheira hoje
impera em todos os níveis. Eu fui construir um conjunto de residências em
Ferreira Gomes, em 1959, recebi todo o material na Divisão de Obras e
transportei para a localidade, para fazer seis casas, mas sobrou material para
construir mais seis, então devolvi tudo. Poderia ter feito nossa casa, mas não,o
respeito e a ética pela coisa pública imperavam. Eu cansei de receber galões de
tinta, acabava meu serviço prestava conta. Trabalhei com o Janary, Pauxi Nunes,
Amilcar Pereira. Meu primeiro chefe na Divisão de Obras foi o engenheiro
Douglas Lopes Lobato”.
Hoje
O
pioneiro Lourival trabalha hoje tranquilo, em uma lanchonete ao lado de sua
residência, na Avenida José Antonio Siqueira, no bairro do Laguinho, onde
reside desde 1959, há mais de 40 anos. Ele relembra quando chegou ali era só
matagal, e que na Rua Odilardo Silva, tinha um barranco com cinco metros de
profundidade que no seu fundo corria um igarapé. “Quando a prefeitura começou a demarcação para loteamento me ofereceram um
terreno que recusei por ter mato e um abismo. Hoje é só olhar a besteira que
fiz (risos)”.
O
que mais magoa o Lourival é que renegam os pioneiros amapaenses ao
esquecimento. “O pessoal não tem consideração pelos que construíram o Amapá, os
mestres Benedito, Gratuliano Pinto e Julio que ergueram o Colégio Amapaense,
Hospital Geral, Maternidade, Barão do Rio Branco, Trapiche de Macapá, não têm
uma Rua com o nome desses homens, isso é ingratidão”.
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