sexta-feira, 2 de agosto de 2013

PIONEIRISMO




Ninguém, sabe que os Leões do Fórum, hoje OAB/AP, não foram trazidos de fora de Macapá. Eles foram feitos artesanalmente pelo Mestre Costa, com uma técnica que ele conhecia, de moldagem com uma massa que tinha uma mistura de seu conhecimento e que até hoje estão lá silenciosos olhando o Rio Mar, outra arte dele é da frente do prédio da Maçonaria. “As obras daquela época eram feitas para durar décadas e você pode ir ao Barão e no Hospital e ver se cai reboco. Hoje, no outro dia da entrega, está tudo no chão, a pintura descasca e desbota tão rápido que é necessário refazer. É o descaso pelo dinheiro público”- Lourival Francisco de Oliveira – Mestre Pintor


O atual Estado do Amapá tem sua história política entrelaçada com o Pará, de onde foi desmembrado e foi de lá que o governo instalado no novo Território Federal do Amapá criado em 1945, trouxe as mãos de obras especializadas para que a nova unidade da federação começasse seu desenvolvimento.

Recebemos centenas de professores recém-formados, muitos foram os mestres leigos (com apenas o primário), que deram a arrancada na educação amapaense. Porém, para que tivéssemos os prédios onde funcionaria a máquina governamental, escolas, hospitais e outros, eram necessários, engenheiros, pedreiros, pintores e mestres-de-obras.
Esta semana estaremos retratando um pioneiro na atividade de pintor, que se tornou mestre em seu ofício e com orgulho conta que trabalha com os melhores mestres-de-obras amapaenses. Ele é Lourival Francisco de Oliveira, 80 anos, paraense de nascimento e amapaense de paixão.

Nascido em 10 de julho de 1933, na pitoresca cidade de Alenquer (PA), filho de Cecílio Francisco de Oliveira, pedreiro e da dona de casa, Maria Ribeiro Pessoa, terceiro de uma prole de cinco irmãos. “Quando eu tinha seis anos de idade, meu pai que era pernambucano, tinha um irmão que residia no Oiapoque desde 1922, e meu pai foi trabalhar naquela localidade desconhecida do Brasil e do mundo”.

Seu Lourival viveu ali de 1939 a 1941, logo em seguida foi residir na capital Amazonense (Manaus) onde ficou até 1950, retornando definitivamente para o Amapá. “Voltei com 14 anos para o Oiapoque, em 1951 vim para Macapá e me empreguei na Divisão de Obras do então governo territorial, que tinha o Cel. Janary Nunes como governador, fiquei 35 anos no quadro do governo federal.Fui enquadrado na Divisão de Obras, hoje Secretaria de Infraestrutura (Seinf) como pintor, e todas as obras realizadas pelo governo territorial eu que executei o serviço. Naquela época não tinha construtora, os serviços de obras do governo era feito pelos seus próprios funcionários, pois não tínhamos mão de obra especializada, tinha emprego, mas faltava empregados, ao contrário de hoje.Trabalhei na construção das Escolas Barão do Rio Branco, Azevedo Costa, Ginásio de Macapá, IETA (hoje UEAP), o Hospital Geral e a Residência do Governador”.

Ele relembra com orgulho,que atuou junto com grandes pioneiros da época do início da construção do Amapá. “Tive a honra de trabalhar com o carpinteiro e Mestre-de-Obras, Benedito Ferreira do Nascimento, o Mestre Bené. Como eu iniciei no governo como recibado, trabalhava nas obras que ele executava com empreitada de pintura, ele era muito bom no que fazia”.

Ele relata ainda, que teve a honra de trabalhar com outros empreiteiros da época, como Mestre Júlio Araújo. Um dos que ele destaca, pela originalidade nos serviços que fazia era o Mestre Costa. Ninguém sabe que os Leões do Fórum, hoje OAB/AP, não foram trazidos de fora de Macapá. Eles foram feitos artesanalmente pelo Mestre Costa, com uma técnica que ele conhecia, de moldagem com uma massa que tinha uma mistura de seu conhecimento e que até hoje estão lá silenciosos olhando o Rio Mar, outra arte dele é da frente do prédio da Maçonaria. “As obras daquela época eram feitas para durar décadas, você pode ir ao Barão e ao Hospital e ver se cai reboco. Hoje, no dia seguinte da entrega, está tudo no chão, a pintura descasca e desbota tão rápido que é necessário refazer. É o descaso pelo dinheiro público”.

Casamento

Em 1956 no município de Oiapoque, começou a história de Lourival Oliveira, e no Amapá aconteceu o encontro com a Maria Lecy Rodrigues de Almeida (77), hoje sua esposa e mãe de seus filhos, “Ela está comigo há 57 anos, temos oito filhos”.

Vida profissional

Lourival conta que quase não teve tempo de “curtir” a infância por ser de uma família pobre, tinha que ajudar os pais, e os estudos não foram adiante. Mas, com orgulho diz que os oito filhos, três netos e um bisneto estão todos formados ou estudando. “Por exercer atividade de ajudante de pedreiro do meu pai, foi que passei a atuar na construção civil e optei pela pintura. Hoje os pedreiros fazem a massa seis por um, na minha época era três por um é por isso que durava, economizam errado, pois é para durar, e eles ao contrário querem logo reformar e mais dinheiro público.Eu já trabalhei em todas as localidades desse Amapá, hoje eu estou aposentado há 20 anos”, lembra Lourival, “e na minha época não tinha estrada asfaltada e nem montanhas cordadas. Construí e pintei muito por esse interior. Até em aldeia indígena, na dos Kumarumã.Tive uma experiência de três meses na ICOMI, que me pediu emprestado da Divisão de Obras, e ajudei a construir a Vila Amazonas, o mais importante foi o que ganhei nos três meses, era meu salário de um ano no governo (risos)”.

Com referência às inúmeras obras nas décadas de 40, 50 e 60, Lourival relembra que estava tudo começando no Amapá, e o governo tinha que fazer tudo porque não tinha nada. “Mesmo com a falta de mão de obra e de pessoas formadas para atuarem na construção civil, tudo que foi ali realizado sobrevive até hoje, é o alicerce do progresso do Amapá. Trabalhei 35 anos no governo, nunca recebi uma diária. Hoje um funcionário para ir a Santana ganha diária. A roubalheira hoje impera em todos os níveis. Eu fui construir um conjunto de residências em Ferreira Gomes, em 1959, recebi todo o material na Divisão de Obras e transportei para a localidade, para fazer seis casas, mas sobrou material para construir mais seis, então devolvi tudo. Poderia ter feito nossa casa, mas não,o respeito e a ética pela coisa pública imperavam. Eu cansei de receber galões de tinta, acabava meu serviço prestava conta. Trabalhei com o Janary, Pauxi Nunes, Amilcar Pereira. Meu primeiro chefe na Divisão de Obras foi o engenheiro Douglas Lopes Lobato”.

Hoje

O pioneiro Lourival trabalha hoje tranquilo, em uma lanchonete ao lado de sua residência, na Avenida José Antonio Siqueira, no bairro do Laguinho, onde reside desde 1959, há mais de 40 anos. Ele relembra quando chegou ali era só matagal, e que na Rua Odilardo Silva, tinha um barranco com cinco metros de profundidade que no seu fundo corria um igarapé. “Quando a prefeitura começou a demarcação para loteamento me ofereceram um terreno que recusei por ter mato e um abismo. Hoje é só olhar a besteira que fiz (risos)”.

O que mais magoa o Lourival é que renegam os pioneiros amapaenses ao esquecimento. “O pessoal não tem consideração pelos que construíram o Amapá, os mestres Benedito, Gratuliano Pinto e Julio que ergueram o Colégio Amapaense, Hospital Geral, Maternidade, Barão do Rio Branco, Trapiche de Macapá, não têm uma Rua com o nome desses homens, isso é ingratidão”.






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