Percepções do senso
de pertencimento
Pertencer a duas cidades é uma
experiência interessante. Normalmente se pertence a uma por nascimento e à
outra por moradia. Eu, tendo nascido e passado boa parte da vida em Macapá,
recentemente me mudei para Fortaleza, e esse duplo pertencimento faz com que as
percepções se transformem.
A cidade é uma narrativa, é como
contar para si uma história própria, formada pelos elementos que você cata ao
longo do seu caminho à escola, pegando trechos dos percursos que você faz
rotineiramente, e ignorando aqueles redutos que você não conhece. É muito
provável que a narrativa construída por mim, sendo natural de um lugar e
morando em outro, se mostre muito diferente e até mais entusiasmada do que a
narrativa que os habitantes naturais do lugar compõem.
Um exemplo prático disso: outro dia
estava no ônibus, descendo a Avenida Barão de Studart para dobrar na Pontes
Vieira, e era já de noitinha, umas cinco horas da tarde. Acontece que em
Fortaleza o dia escurece muito cedo, e, àquela hora, enquanto em Macapá fazia
ainda um sol morninho, lá já era início de noite. O céu, de um azul marinho
forte. Algumas estrelinhas miúdas, um fiapo de lua, a cidade toda iluminada, e
apenas um resquício de amarelo e laranja ígneos no horizonte. E foi no
horizonte que vi. O contorno das serras. Ver aqueles montes ao longe,
recortados sobre um céu azul brilhante, enquanto eu descia a avenida, me
emocionou.
No ônibus, sentindo-me parte do lugar
e do cenário, virei a cabeça, à procura de outras almas que experimentassem
também uma comoção como a minha. A verdade é que ninguém parecia estar ali, nem
no céu, nem nas montanhas. Os que não teclavam ao celular, xingavam o trânsito,
dormiam. Percebi que eu, por ser estrangeira, conseguia extrair da minha narrativa
urbana ou projetar sobre ela novos e especiais efeitos.
Então voltei de férias para Macapá,
que é onde estou agora. Antes de ter partido, eu ajuntava muito mais motivos
para me aborrecer de minha cidade do que para amá-la. Pois bem, voltei. Estava no
avião, num voo matinal, quando vi a aeronave se aproximar de uma imensidão
verde. Sobrevoávamos o Estado. E ele me pareceu, naquele momento, tão lindo,
tão mais lindo!... Fiquei a pensar em mil metáforas que poderiam descrever
aquela cena, minha casa vista de cima. Era como um brócolis gigante. E descobri
que adoro brócolis.
Logo que pousei, me alegrei com as
mudanças no aeroporto. Entrei no carro, pronta para ver mais coisas, em estado
de graça: havia mais uma vez redescoberto o amor à cidade. Mas então vieram as
notícias de sempre. A política continua a mesma, talvez até mais traumática. E
o que se relaciona a ela – ou seja, aqui, todas as coisas –, vai de mal a pior.
A saúde, precária. Sem verba, não há
leitos suficientes, não há medicamentos, não há médicos. O Brasil todo enfrenta
esses problemas, é fato, mas isso não nos escusa, só nos faz lamentar mais. A
educação segue o mesmo caminho. O professor, desvalorizado. O que deveria ser
dado a ele, lhe é usurpado. O aluno, desmotivado. Desmotivado porque, enquanto
estuda, tem que trabalhar. Enquanto estuda, tem que tentar escapar vivo dos que
querem matar, roubar, violentar. Enquanto estuda, passa fome. E nem
mencionaremos as poças de lama que são nossas ruas, os matagais perigosos, a
falta de senso estético e de infraestrutura urbana...
O Amapá parece uma rocha encerrada
dentro de uma redoma. Parada no tempo e no espaço, sem a boa ação dos ventos,
sem novos contornos e mudanças, sem perspectivas de evolução, é o que me
parece. Eu mudei. Saio e volto, e esse trânsito me dá novos atributos, novas
maneiras de perceber meus lugares. O mais triste, porém, é voltar para a minha
cidade e ver que ela, ao contrário de mim, não muda. E ainda que meu coração se
esforce por amá-la, tudo o que ela me dá de volta é o caótico descaso de
sempre. Quando mudará?
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