sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Percepções do senso de pertencimento

Pertencer a duas cidades é uma experiência interessante. Normalmente se pertence a uma por nascimento e à outra por moradia. Eu, tendo nascido e passado boa parte da vida em Macapá, recentemente me mudei para Fortaleza, e esse duplo pertencimento faz com que as percepções se transformem.

A cidade é uma narrativa, é como contar para si uma história própria, formada pelos elementos que você cata ao longo do seu caminho à escola, pegando trechos dos percursos que você faz rotineiramente, e ignorando aqueles redutos que você não conhece. É muito provável que a narrativa construída por mim, sendo natural de um lugar e morando em outro, se mostre muito diferente e até mais entusiasmada do que a narrativa que os habitantes naturais do lugar compõem.

Um exemplo prático disso: outro dia estava no ônibus, descendo a Avenida Barão de Studart para dobrar na Pontes Vieira, e era já de noitinha, umas cinco horas da tarde. Acontece que em Fortaleza o dia escurece muito cedo, e, àquela hora, enquanto em Macapá fazia ainda um sol morninho, lá já era início de noite. O céu, de um azul marinho forte. Algumas estrelinhas miúdas, um fiapo de lua, a cidade toda iluminada, e apenas um resquício de amarelo e laranja ígneos no horizonte. E foi no horizonte que vi. O contorno das serras. Ver aqueles montes ao longe, recortados sobre um céu azul brilhante, enquanto eu descia a avenida, me emocionou.
No ônibus, sentindo-me parte do lugar e do cenário, virei a cabeça, à procura de outras almas que experimentassem também uma comoção como a minha. A verdade é que ninguém parecia estar ali, nem no céu, nem nas montanhas. Os que não teclavam ao celular, xingavam o trânsito, dormiam. Percebi que eu, por ser estrangeira, conseguia extrair da minha narrativa urbana ou projetar sobre ela novos e especiais efeitos.

Então voltei de férias para Macapá, que é onde estou agora. Antes de ter partido, eu ajuntava muito mais motivos para me aborrecer de minha cidade do que para amá-la. Pois bem, voltei. Estava no avião, num voo matinal, quando vi a aeronave se aproximar de uma imensidão verde. Sobrevoávamos o Estado. E ele me pareceu, naquele momento, tão lindo, tão mais lindo!... Fiquei a pensar em mil metáforas que poderiam descrever aquela cena, minha casa vista de cima. Era como um brócolis gigante. E descobri que adoro brócolis.

Logo que pousei, me alegrei com as mudanças no aeroporto. Entrei no carro, pronta para ver mais coisas, em estado de graça: havia mais uma vez redescoberto o amor à cidade. Mas então vieram as notícias de sempre. A política continua a mesma, talvez até mais traumática. E o que se relaciona a ela – ou seja, aqui, todas as coisas –, vai de mal a pior.

A saúde, precária. Sem verba, não há leitos suficientes, não há medicamentos, não há médicos. O Brasil todo enfrenta esses problemas, é fato, mas isso não nos escusa, só nos faz lamentar mais. A educação segue o mesmo caminho. O professor, desvalorizado. O que deveria ser dado a ele, lhe é usurpado. O aluno, desmotivado. Desmotivado porque, enquanto estuda, tem que trabalhar. Enquanto estuda, tem que tentar escapar vivo dos que querem matar, roubar, violentar. Enquanto estuda, passa fome. E nem mencionaremos as poças de lama que são nossas ruas, os matagais perigosos, a falta de senso estético e de infraestrutura urbana...


O Amapá parece uma rocha encerrada dentro de uma redoma. Parada no tempo e no espaço, sem a boa ação dos ventos, sem novos contornos e mudanças, sem perspectivas de evolução, é o que me parece. Eu mudei. Saio e volto, e esse trânsito me dá novos atributos, novas maneiras de perceber meus lugares. O mais triste, porém, é voltar para a minha cidade e ver que ela, ao contrário de mim, não muda. E ainda que meu coração se esforce por amá-la, tudo o que ela me dá de volta é o caótico descaso de sempre. Quando mudará?

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