Onde
está Amarildo?
Televisão
transmitindo as manifestações de rua. Imagens de violência, depredação e
destruição em destaque. Ao fundo, uma música de suspense. O âncora reforça a
ideia de que os prejuízos decorrem da ação de pessoas ou grupos que se infiltram
para perpetrar a destruição ou se apropriar de saques. Durante a transmissão, o
repórter repete exaustivamente palavras como vândalos, delinquentes, marginais
e criminosos ao se referir aos envolvidos. A lógica inerente à reportagem é a
de que essas pessoas devem ser isoladas, presas e arcar com as consequências de
seus crimes. Terminado o jornal, Amarildo muda o canal e ouve o apresentador,
ao falar sobre as manifestações, esbravejar impropérios como “Isto não é coisa
de gente decente! A polícia tem que pegar esses vagabundos, dar porrada e meter
na cadeia pra sempre! Esses pilantras não precisam de direitos humanos, não!
Eles têm é que apanhar!“ Amarildo, na frente da TV, acena positivamente com a
cabeça e, concordando com o que ouviu, pensa “É isso mesmo, bandido bom é
bandido morto!” Depois vai dormir, afinal o trabalho de pedreiro o espera no
dia seguinte.
Assim
como Amarildo, muitos de nós vamos dormir com a certeza de que não há nada mais
correto que prender os vândalos, melhor dizer criminosos, que se infiltram em
manifestações pacíficas. Esquecemo-nos da desigualdade social, das condições
miseráveis de existência de muitos e da ausência de atuação do Estado, ficamos
com a impressão de que uma atitude mais enérgica da polícia seria suficiente
para resolver o problema. Basta destacar os bandidos da multidão ordeira,
sentar o cassetete no pilantra e meter na cadeia sem direito a nada. Afinal,
essa galera dos direitos humanos só atrapalha e bandido não tem quer ter
direito mesmo. E pensamos: Isto resolverá o problema!
Mas,
será que as coisas são tão simples e claras assim? É preciso atentar para
alguns elementos deste cenário. A mídia enfatiza a violência e faz crer que as
destruições são muito maiores e recorrentes do que realmente ocorre. De outro lado,
destaca a necessidade de manutenção da “ordem” e criminaliza os movimentos
sociais e manifestações. Há muitos interesses em jogo. Para nos restringirmos
aos mais imediatos, os canais de comunicação, empreiteiras vão arrecadar alto
com os megaeventos (copa e olimpíadas). Tendo em vista os ganhos com a
especulação imobiliária, há um processo de reurbanização em curso cuja face
evidencia uma clara limpeza social. Os mais pobres estão sendo removidos de
áreas que são ou estão projetadas para ser nobres. Nas áreas mais pobres, a
“pacificação” chegou por meio das UPP, mas os demais serviços do Estado, como
saúde e educação, ainda estão longe de aparecer. Em razão de tantos interesses,
as manifestações que ameacem ou prejudiquem as vultosas quantias que hão de vir
devem ser combatidas. Todo o aparato disponível pode e deve ser usado, segundo
a lógica dos interessados, para coibir manifestações, mesmo as consideradas
pacíficas!
As
estratégias utilizadas para assegurar os ganhos e interesses dos poderosos são
várias. A TV enfatiza a violência, criminaliza os movimentos sociais, destaca a
necessidade de manutenção da ordem e insufla a necessidade de agir
energicamente contra os envolvidos. O Estado infiltra policiais nos movimentos
para iniciar a agressão. Uma vez começado o quebra-quebra, o movimento é
assumido como desordeiro e fica justificado o uso de força. Sob a batuta do
governador, o comando da PMRJ emitiu nota afirmando que a OAB
estaria atrapalhando o trabalho da polícia, numa clara alusão ao prejuízo decorrente
de atribuir direitos humanos aos manifestantes. Indo além, o governo do Rio de
Janeiro propôs o Decreto 44.302/2013, que cria a CEIV, Comissão Especial de
Investigação de Atos de Vandalismo em Manifestações Públicas. A proposta da
CEIV assemelha-se à que deu origem ao DOI-CODI (Destacamento de Operações de
Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), órgão de investigação que
tinha o objetivo de suprimir quaisquer manifestações e tentativas de questionar
a ditadura militar. O órgão foi responsável pelo sumiço e morte de várias
pessoas.
Diversas
consequências decorrem do uso dessas estratégias, mas ficam para um próximo
momento. Por ora, é importante lembrarmos que o conjunto de ações em curso para
defender os interesses do capital, visa inibir o ímpeto revolucionário,
categorizar os manifestantes como criminosos e negar-lhes direitos óbvios.
Assim, qualquer um, inclusive você que lê este texto, poderia ser capturado,
chamado de vândalo, ter a vida escrutinizada, ser torturado e até morto.
Mas,
como muitos dizem, “quem não deve não teme!” Portanto, se eu não sou um
marginal que vai às ruas destruir, depredar e saquear, eu não tenho com o que
me preocupar. Assim pensava Amarildo, o pedreiro que abordado pela PMRJ foi
levado à UPP e... Desapareceu! Há interesses demais em jogo e de pessoas muito
poderosas. Há várias coisas acontecendo nas estruturas repressoras do Estado,
inclusive com elaboração de novas leis que cerceiam ou implodem direitos. Há
muitas questões não respondidas e, portanto, muita coisa por saber. Falando
nisso, há uma pergunta que não quer calar: Onde está Amarildo?
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