Máscara nova para o novo ano?
Existe um fenômeno que observo há algum tempo, sobretudo, entre os jovens, e é digno de nota. Este texto nasce de uma reflexão sobre o que batizei de "a costura do ser". Não é nada muito complicado, mas, ainda assim, curioso.
Acontece que você planeja com perfeição aquilo que pretende ser. Chega um momento da vida em que se vê obrigado a construir para si uma personagem adequada. Escolhe cada tijolinho e constrói minuciosamente aquilo que pensa ser a personalidade ideal.
E por que nos jovens isso é mais proeminente? Porque eles não querem, necessariamente, disfarçar a escolha e a montagem do novo personagem. Parece que na juventude o desejo de ser qualquer coisa que você não é se mostra bem mais forte. E pode reparar em como é incrível a quantidade de mudanças voluntárias pelas quais passam os adolescentes ao longo desse período da vida.
Num ano, querem seguir todas as modas. No outro, tudo soa como massificado e "mainstream" (ainda que evitar o que é popular seja também mais uma moda). Numa época, são todos paz e amor, adotam o estilo hippie e tudo, mas depois, só falam sobre cortar os pulsos, vestir-se exclusivamente de preto, adotar penteados duvidosos...
Certo, se você tem em casa um indivíduo que anda falando em cortar os pulsos, é melhor ir checar isto. Mas a maioria de nós está apenas experimentando uma tribo, um estilo novo. E isso modifica até as ideologias, os discursos, o jeito de ser. Ano após ano, somos já outros... Novas roupas, novas músicas, novas maquiagens, novas máscaras. É uma mudança, sobretudo, externa. Mas vai mudando a gente de fora para dentro, em certa medida. O modo de ver o mundo é frequentemente afetado pelo filtro que escolhemos.
De maneira geral, não há mal algum em passar por essas mutações. Inventar-se e reinventar-se é bom. Faz parte do ser humano. Essa escolha por um novo rótulo vem nos falar sobre a sede que todo humano tem em buscar a perfeição, ainda que a negue. Perfeição ditada pelo mundo ou por determinados grupos, que seja. Mas ainda assim uma perfeição que está posta anteriormente.
Isso é o que todos buscam. Até quando a busca é ser diferente, queremos nos ajustar. Queremos ser sancionados positivamente, queremos ser aprovado no conceito daqueles de quem a opinião nos importa. E agora me pergunto: será que as mudanças voluntárias são determinadas por mudanças internas, ou são as mudanças de fora que vão mudando a gente por dentro? Acho que um pouco dos dois.
Contudo, nessa história toda, há algo mais... Na busca por usarmos tais máscaras cada vez mais elaboradas, na negação da espontaneidade que pode trair o ideal da perfeição, esquecemos que existem as motivações involuntárias - ou, se não involuntárias, pelo menos irrefreáveis -, esquecemos que as coisas que ocultamos ainda assim se refletem. Tentamos suprimir defeitos, mas é aí que eles se mostram.
Você planeja tudo. Treina poses no espelho. Tira um milhão de fotografias, tentando descobrir o melhor sorriso para as fotos. Ensaia frases-feitas, aspectos definidores da personalidade nova que está traçando para si. Caça novas músicas que ajudarão a compor seu estilo. Cria um mundo bastante complexo.
E então, quando menos espera, vem um baque. São os momentos de crise que, no final das contas, se não definem você, pelo menos fazem transparecer por completo aquilo que você realmente é. E então, de nada terá adiantado todo o planejamento na frente do espelho. Quando chega a hora do "pensa rápido!", o que vale mesmo é o seu primeiro impulso. Bater ou correr. Fugir ou ficar.
A costura do ser é interessante... Poder escolher aspectos da aparência que se quer mostrar ao mundo. Enche-nos daquele ar de "quem manda em mim sou eu!". Mas, depois de tantas mudanças, fico pensando... Antes de escolher a máscara, simplesmente ignorando o que nos vai dentro, não seria melhor perguntarmos exatamente o que queremos evitar? E a pergunta é: "Quem eu sou? Como eu sou?". As respostas podem nos levar a algo muito mais interessante do que escolher simplesmente uma máscara. Pode ajudar na tentativa de mudar o que é ruim e deixar transparecer de vez o que é incrível e maravilhoso, e que antes estava sufocando sob as pesadas fantasias.

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